Hereditária: peça une mitologia grega e acessibilidade para discutir o peso da herança familiar

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Hereditária, espetáculo em cartaz no Sesc Pompeia, na zona oeste de São Paulo, emprega o mito das Moiras para investigar como fatores genéticos e escolhas individuais moldam a vida contemporânea, ao mesmo tempo em que incorpora recursos de acessibilidade diretamente na dramaturgia.
- As Moiras como eixo narrativo de Hereditária
- A descoberta de uma doença rara e o caminho até Hereditária
- Acessibilidade em primeiro plano: como Hereditária integra Libras e audiodescrição
- Dança sem “bipedia compulsória”: a contribuição de Edu O.
- Direção, elenco e a construção colaborativa de Hereditária
- Serviço: onde assistir Hereditária e quais recursos serão oferecidos
As Moiras como eixo narrativo de Hereditária
No imaginário grego, Cloto, Láquesis e Átropos — popularmente conhecidas como Moiras — tecem, medem e cortam o fio que determina o percurso de cada ser, sejam eles deuses ou mortais. Esta imagem, apresentada logo no início de Hereditária, fornece a metáfora central do espetáculo: a herança biológica funciona como um fio já em curso, mas a maneira como cada pessoa lida com ele pode alterar, estender ou encurtar possíveis trajetórias. O palco passa a funcionar como o tear dessas entidades ancestrais, lembrando que destino e livre-arbítrio convivem em tensão constante.
A escolha por esse arcabouço mitológico ressoa em nível pessoal para a idealizadora e intérprete Moira Braga. Carregando no próprio nome o eco das divindades que regem o destino, a artista insta o público a observar como, por trás de termos médicos, parentescos ou convenções sociais, existe uma narrativa maior sobre responsabilidade e transformação.
A descoberta de uma doença rara e o caminho até Hereditária
Aos sete anos, Braga foi diagnosticada com a doença de Stargardt, condição genética que provoca perda progressiva da visão. Ao transformar essa vivência pessoal em material dramatúrgico, ela não posiciona a deficiência como obstáculo dramático, mas como dado da realidade — tal qual a cor dos olhos ou a altura. Ao mesmo tempo, questiona até que ponto diagnósticos precoces marcam a identidade de forma definitiva.
No espetáculo, a narrativa alterna passagens autobiográficas, movimentos coreografados e momentos em que a atriz divide a cena com Isadora Medella e Luize Mendes Dias. Juntas, elas interpretam diferentes facetas das Moiras, revisitadas por meio de figurinos contemporâneos que dialogam com a iconografia da Grécia Antiga. Esse trio oferece ao público três perspectivas sobre como o passado genético, cultural ou pessoal pode ser encarado: submissão, confronto ou reinvenção.
Braga sublinha que a proposta não é lamentar a carga hereditária, mas iluminar as “possibilidades de mudar essas heranças por meio das nossas escolhas”. Dessa forma, a peça avança além do registro biográfico e convida cada espectador a localizar sua própria teia de condicionamentos.
Acessibilidade em primeiro plano: como Hereditária integra Libras e audiodescrição
Desde o início do processo criativo, a equipe decidiu que recursos de acessibilidade não seriam apêndices, e sim parte orgânica do texto cênico. Durante a apresentação, Libras e audiodescrição são executadas pelas próprias intérpretes em cena, sem aparelhos externos ou interferências técnicas que segmentem a plateia. Braga observa que, quando “todo mundo pode ouvir” as descrições, desaparece a barreira que costumava isolar espectadores com deficiência visual.
Esse desenho acessível exigiu um “quebra-cabeça” elaborado de forma colaborativa: cada gesto, deslocamento e variação de luz precisou ser traduzido em sinalização ou palavra falada de maneira fluida. O resultado é um espetáculo no qual acessibilidade deixa de ser protocolo e passa a compor a estética geral. Para o público que enxerga, o texto descritivo ganha valor dramaturgico adicional, criando camadas de informação que sublinham intenções cênicas às vezes imperceptíveis somente pelo visual.
Ao lado da intérprete, o diretor Pedro Sá Moraes reforça que a meta era “tornar a audiodescrição interessante dramaturgicamente para quem enxerga”. Essa postura evita o risco comum de tratar o recurso como simples concessão. Em Hereditária, acessibilidade é concebida como linguagem artística, não como serviço extra.
Dança sem “bipedia compulsória”: a contribuição de Edu O.
Os números de dança foram criados por Edu O., professor da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia (UFBA). O coreógrafo contesta a tendência hegemônica de compor movimentos tendo como referência apenas corpos sem deficiência, fenômeno que ele denomina “bipedia compulsória”. Para romper com essa lógica, Edu partiu da potência presente no corpo de Braga: em vez de adaptar passos aos limites convencionais de balé ou dança contemporânea, ele investigou quais gestos surgem naturalmente da performer quando ela explora o espaço.
No palco, essa abordagem propicia uma coreografia que evidencia diversidade de ritmos, alturas e apoios. A dança, por sua vez, reforça a premissa dramatúrgica de que herança não determina obrigatoriamente o alcance de cada indivíduo. Segundo o diretor, a plateia sai com “uma visão renovada sobre o valor de estar vivo”, ideia que se materializa na liberdade de movimentos que foge aos padrões tradicionais.
Direção, elenco e a construção colaborativa de Hereditária
Responsável pela direção geral, Pedro Sá Moraes guiou o trabalho com ênfase na integração de áreas: texto, música, corpo e acessibilidade. Sua parceria com Moira Braga começou ainda na fase de pesquisa, quando ambos definiram que a narrativa precisaria articular vida pessoal e mitologia sem hierarquizar uma sobre a outra. Com Isadora Medella e Luize Mendes Dias completando a trindade de intérpretes, formou-se um coletivo capaz de revezar a função de narradoras, personagens e tradutoras em cena.
Os figurinos, inspirados em túnicas gregas, mas executados com cortes atuais, reforçam essa duplicidade entre antigo e moderno. Tecidos fluidos lembram o fio das Moiras, ao passo que cores e acessórios remetem à vida urbana de hoje, dialogando com o tema da hereditariedade nos tempos contemporâneos.
Serviço: onde assistir Hereditária e quais recursos serão oferecidos
O espetáculo permanece em cartaz até 27 de fevereiro no Sesc Pompeia, localizado na Rua Clélia, 93, bairro Água Branca, São Paulo. As sessões ocorrem às quartas-feiras, às 19h30; às quintas-feiras, em dois horários (16h e 19h30); e às sextas-feiras, às 19h30. Os ingressos custam R$ 50, e a classificação indicativa é de 12 anos.
Durante todas as apresentações, o público conta com audiodescrição — recurso que converte o conteúdo visual em informação verbal — e interpretação simultânea em Libras, realizada em cena pelas próprias atrizes. Esses elementos asseguram que pessoas com deficiência visual ou auditiva possam acompanhar a encenação em condições de igualdade.
Além disso, o espaço dispõe de estrutura física acessível, ampliando a proposta de inclusão que norteia todo o projeto de Hereditária. Para quem deseja planejar a visita, recomenda-se chegar com antecedência, a fim de experimentar sem pressa os recursos de acessibilidade distribuídos no foyer e na plateia.
Com temporada programada até o fim de fevereiro, o espetáculo segue convidando o público a refletir sobre quais fios de herança cada pessoa carrega e sobre as múltiplas maneiras de tecê-los rumo ao futuro.

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