Gestão de resíduos pode reduzir emissões de gases em até 61,7% nas cidades, aponta estudo

Gestão de resíduos bem estruturada tem potencial para transformar o equilíbrio climático dos municípios brasileiros. Levantamento da consultoria internacional S2F Partners indica que cidades com aproximadamente 100 mil habitantes podem diminuir a liberação de gases de efeito estufa em 33,5% ao adotarem um modelo de gerenciamento considerado intermediário, e que esse índice pode chegar a 61,7% quando o sistema é classificado como avançado.
- Gestão de resíduos: dados que embasam o estudo
- Como funciona a gestão de resíduos em nível intermediário
- Gestão de resíduos em estágio avançado e redução de 61,7%
- Riscos dos lixões e aterros irregulares à saúde e ao meio ambiente
- Retrato nacional: 1,9 mil pontos de destinação inadequada ainda ativos
- Benefícios adicionais da gestão de resíduos adequada
Gestão de resíduos: dados que embasam o estudo
A pesquisa da S2F Partners tomou como base municípios de porte médio, categoria que reúne localidades com 100 mil moradores. O grupo analisado apresenta dinâmicas semelhantes de geração de lixo doméstico, transporte e destinação final. Ao aplicar diferentes cenários de tratamento do lixo, os técnicos quantificaram a relação direta entre o nível de serviço oferecido e a quantidade de gases de efeito estufa que deixam de ser lançados na atmosfera.
No cenário intermediário, a diminuição de 33,5% nas emissões foi obtida a partir da simulação de práticas viáveis para grande parte dos municípios brasileiros. No estágio avançado, que alcançou 61,7% de redução, os critérios se tornaram mais rigorosos, exigindo tecnologias e processos adicionais. Os resultados reforçam a escalabilidade das medidas: quanto maior o grau de tratamento, mais expressivo é o corte de emissões.
Como funciona a gestão de resíduos em nível intermediário
No patamar intermediário, três pilares foram considerados fundamentais para o desempenho climático: cobertura plena de coleta, taxa de reciclagem próxima de 6% e disposição final em aterro sanitário equipado com sistemas de captação de metano e queima controlada do biogás. A universalização da coleta evita que resíduos fiquem expostos em vias públicas ou terrenos baldios, fontes frequentes de degradação ambiental.
A reciclagem de 6% também exerce papel relevante. Ainda que pareça modesta, essa fração significa retirar materiais potencialmente poluentes da rota dos lixões e reinseri-los na cadeia produtiva. Já o controle de metano nos aterros impede a liberação de um gás com elevado potencial de aquecimento global, convertendo-o em energia ou queimando-o de forma segura.
Gestão de resíduos em estágio avançado e redução de 61,7%
O estudo descreve o estágio avançado como a progressão natural do modelo intermediário. Além da coleta universal e da captura de metano, esse nível engloba expansão da reciclagem, tratamento específico para chorume e adoção de tecnologias que elevam a eficiência de processamento. Somadas, essas camadas adicionais impulsionam a queda de emissões para 61,7%.
A consultoria ressalta que tal resultado decorre da integração de várias soluções. Cada etapa, quando isolada, gera ganhos restritos, mas o conjunto proporciona um salto expressivo. No âmbito urbano, esse percentual representa forte contribuição para metas de descarbonização e pode ajudar as cidades a cumprirem compromissos nacionais e internacionais voltados à mitigação climática.
Riscos dos lixões e aterros irregulares à saúde e ao meio ambiente
Em contraste com os ganhos proporcionados pela gestão de resíduos adequada, lixões ou aterros sem licença ambiental continuam presentes em grande parte do país. Nessas áreas, a ausência de barreiras físicas e biológicas permite que o chorume — líquido formado pela decomposição do lixo — infiltre no solo, contamine lençóis freáticos e alcance cursos d’água. A liberação sem controle de gases, em especial metano, piora a qualidade do ar e agrava o aquecimento global.
Do ponto de vista sanitário, a exposição de resíduos a céu aberto estimula a proliferação de vetores de doença, como moscas, mosquitos e roedores. Assim, comunidades vizinhas tornam-se mais suscetíveis a enfermidades e convivem com mau cheiro constante. Essas condições também reduzem a qualidade de vida e afetam negativamente a valorização imobiliária.
Retrato nacional: 1,9 mil pontos de destinação inadequada ainda ativos
Dados oficiais do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento revelam que o Brasil mantém cerca de 1.600 lixões operando regularmente e aproximadamente 300 aterros controlados considerados insuficientes do ponto de vista ambiental. Ao todo, são 1,9 mil unidades que não atendem aos requisitos técnicos para impedir contaminação do solo, da água ou do ar.
Esse quadro reforça a urgência de avanços na política pública de lixo e explica por que a adoção de modelos intermediários ou avançados possui efeito tão expressivo. Para cada lixão fechado e substituído por infraestrutura adequada, o país reduz emissões, evita custos futuros com saúde e mitiga riscos de passivos ambientais.
Benefícios adicionais da gestão de resíduos adequada
Além da redução de gases de efeito estufa, a gestão de resíduos eficiente gera impactos socioeconômicos positivos. O estudo menciona a criação de empregos diretos em coleta seletiva, operação de usinas de tratamento e manutenção de aterros sanitários. Indiretamente, a cadeia de reciclagem amplia a demanda por logística, triagem e comercialização de materiais, fortalecendo economias locais.
Outro benefício é a melhoria das condições de saúde coletiva. Ao eliminar focos de contaminação, os municípios diminuem a incidência de enfermidades associadas ao lixo, o que reduz a pressão sobre o sistema público de saúde. Paralelamente, áreas urbanas livres de mau cheiro e poluentes valorizam-se, atraindo investimentos imobiliários e fomentando novos negócios.
Por fim, os resultados de 33,5% a 61,7% de redução nas emissões mostram que a pauta do lixo é peça central na estratégia climática municipal. Cada tonelada de dióxido de carbono equivalente evitada aproxima o país dos compromissos de neutralidade de carbono.
Atualmente, a manutenção de aproximadamente 1,9 mil pontos de destinação inadequada permanece como desafio prioritário. À medida que novos aterros licenciados e sistemas de reciclagem forem implantados, municípios de diferentes portes poderão migrar do estágio básico para o intermediário e, futuramente, para o avançado descrito pela S2F Partners.

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