Geraisitos: evidências de um impacto cósmico de 6,3 milhões de anos no território brasileiro

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Geraisitos, vidros naturais gerados pela colisão de um corpo extraterrestre com a superfície terrestre, foram identificados pela primeira vez no Brasil e datam de cerca de 6,3 milhões de anos. A constatação, conduzida por uma equipe da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), redefine o conhecimento sobre impactos cósmicos na América do Sul ao adicionar um novo campo de tectitos ao restrito catálogo mundial.
- Geraisitos e o impacto que moldou parte do Brasil
- Quem descobre e conduz a pesquisa sobre geraisitos
- Como os geraisitos se formaram durante o impacto cósmico
- Distribuição dos geraisitos em Minas Gerais, Bahia e Piauí
- Análises laboratoriais e diferenciação dos geraisitos
- Próximos passos: localizar a cratera e ampliar o conhecimento sobre geraisitos
Geraisitos e o impacto que moldou parte do Brasil
Os geraisitos pertencem à classe dos tectitos, materiais vítreos produzidos quando o choque de um objeto espacial funde rochas da crosta e as lança na atmosfera, onde se resfriam de forma abrupta. Até a divulgação deste estudo, apenas cinco grandes campos de tectitos eram reconhecidos globalmente: Australásia, Europa Central, Costa do Marfim, América do Norte e Belize. A inclusão do território brasileiro nessa lista amplia o mapa de eventos de alta energia responsáveis por modificar a geologia do planeta.
A designação “geraisitos” homenageia a região dos Gerais, no norte de Minas Gerais, onde os primeiros fragmentos foram localizados. O impacto responsável por sua formação ocorreu há aproximadamente 6,3 milhões de anos, período posterior à maior parte dos eventos que criaram campos semelhantes em outros continentes, mas ainda dentro da escala de grandes transformações geológicas do Neógeno.
Quem descobre e conduz a pesquisa sobre geraisitos
A equipe liderada pelo geólogo Álvaro Penteado Crósta, da Unicamp, reuniu mais de 600 exemplares durante campanhas de campo em três estados brasileiros. O trabalho foi submetido e aceito na revista Geology, um dos periódicos de maior referência em ciências da Terra, consolidando a descoberta perante a comunidade internacional. O grupo multidisciplinar inclui pesquisadores e estudantes que, além da investigação acadêmica, utilizam redes sociais para difundir informações confiáveis sobre riscos de impactos de asteroides.
Ao longo da pesquisa, os cientistas concentraram esforços em municípios do norte mineiro — Taiobeiras, Curral de Dentro e São João do Paraíso — expandindo posteriormente a prospecção para áreas da Bahia e do Piauí. Essa progressão confirma o padrão observado em outros continentes: quanto maior a energia liberada no choque, maior a extensão percorrida pelos fragmentos ejectados.
Como os geraisitos se formaram durante o impacto cósmico
A formação de um tectito requer condições extremamente específicas. O objeto extraterrestre, ao atingir a superfície, gera temperaturas suficientes para derreter a rocha local. O material fundido é arremessado a grandes altitudes, onde a pressão atmosférica menor provoca resfriamento súbito. Esse processo impede que cristais se desenvolvam plenamente, resultando em um vidro natural homogêneo.
No caso brasileiro, análises isotópicas revelaram que a fonte do material fundido pertence a uma crosta continental com idade entre 3 e 3,3 bilhões de anos. Essa assinatura química aponta para o cráton do São Francisco, bloco geológico estável que ocupa parte do leste e nordeste do país. A origem continental granítica é compatível com os teores de sílica observados nos geraisitos e restringe a busca pela cratera a domínios específicos do cráton.
Distribuição dos geraisitos em Minas Gerais, Bahia e Piauí
O campo brasileiro já contabiliza uma faixa de dispersão superior a 900 quilômetros, cobrindo porções de três estados. Esse alcance se iguala a extensões observadas em campos consagrados, como o da Europa Central, e reforça a estimativa de alta energia para o evento gerador. Entre os fragmentos coletados, o peso varia de menos de 1 grama a 85,4 gramas, enquanto o maior eixo chega a 5 centímetros.
As formas aerodinâmicas predominantes incluem esferas, gotas, discos e halteres, estruturas moldadas pela interação entre dinâmica de voo e viscosidade do material fundido. A coloração negra opaca na superfície contrasta com o verde-acinzentado translúcido que surge sob luz intensa, característica típica de tectitos com baixo teor de água.
Análises laboratoriais e diferenciação dos geraisitos
A semelhança visual entre vidros de impacto e vidros vulcânicos, como a obsidiana, exige exames químicos precisos para confirmar a origem. Nos geraisitos, a quantidade de água dissolvida varia de 71 a 107 partes por milhão, muito inferior às concentrações verificadas em produtos de erupções. Esse índice baixo resulta do aquecimento extremo e da rápida expulsão de voláteis durante a trajetória atmosférica.
Microscopia eletrônica revelou pequenas cavidades na superfície dos fragmentos, marcas deixadas pela liberação de bolhas gasosas enquanto o material ainda estava plástico. A ausência de minerais cristalinos destacáveis, aliada à composição rica em sílica e ao empobrecimento em elementos voláteis, ratifica a classificação dos geraisitos como tectitos genuínos.
Próximos passos: localizar a cratera e ampliar o conhecimento sobre geraisitos
Apesar da quantidade expressiva de espécimes, a cratera que originou os geraisitos permanece indeterminada, cenário que já ocorreu com o maior campo mundial, o da Australásia. A equipe planeja utilizar levantamentos aerogeofísicos para identificar anomalias circulares compatíveis com estruturas de impacto soterradas ou erodidas ao longo de milhões de anos.
Os resultados futuros poderão não apenas situar o ponto exato de colisão, mas também fornecer dados sobre o diâmetro da cratera, a velocidade do corpo celeste e as repercussões ambientais do evento. Até que esses levantamentos sejam concluídos, a descoberta dos geraisitos consolida um novo marco para a geologia brasileira e amplia a compreensão global sobre impactos de alta energia registradas na crosta continental.

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