Geólogos detectam “batimento cardíaco da Terra” sob a África e revelam processo que divide o continente

Geólogos detectam “batimento cardíaco da Terra” sob a África e revelam processo que divide o continente
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O “batimento cardíaco da Terra” — expressão usada por uma equipe internacional de geólogos para descrever pulsos rítmicos no interior do planeta — foi identificado sob a região de Afar, no nordeste da África. A descoberta, detalhada em artigo de julho na revista Nature Geoscience, mostra que esses pulsos de rocha quente ascendem pelo manto, atravessam a crosta continental etíope e influenciam diretamente a formação de fendas, vulcões e terremotos que, a longo prazo, estão fragmentando o continente africano.

Índice

Onde surge o batimento cardíaco da Terra e quem o investigou

O estudo concentrou-se no Triângulo de Afar, área que se estende por Etiópia, Eritreia e Djibuti e é considerada um dos ambientes tectônicos mais ativos do planeta. A investigação foi liderada pela geóloga Emma Watts, da Universidade de Southampton, com a participação de pesquisadores da Universidade de Swansea e de outras instituições. A equipe analisou rochas vulcânicas recentes e antigas para rastrear as oscilações químicas que funcionam como marcadores temporais do batimento cardíaco da Terra.

Como o batimento cardíaco da Terra foi detectado em Afar

Para revelar o padrão rítmico, os cientistas coletaram 130 amostras de lavas com menos de 2,6 milhões de anos e as compararam com rochas mais antigas da mesma área. As análises mostraram variações periódicas na composição química, especialmente em elementos traço e isotópicos, indicando que a pluma do manto de Afar envia pulsos de material parcialmente derretido de forma cíclica. Cada pulso chega à base da crosta continental, alimenta câmaras magmáticas e eventualmente provoca erupções basálticas na superfície.

Esse comportamento contrasta com a visão tradicional de que as plumas do manto seriam fluxos contínuos. Em Afar, o interior da Terra se assemelha a uma “bomba” que injeta magma em intervalos relativamente regulares, fenômeno comparado pelos autores ao fluxo sanguíneo em uma artéria.

Por que o batimento cardíaco da Terra ocorre na pluma do manto de Afar

A pluma de Afar origina-se em profundidades de centenas de quilômetros, possivelmente na fronteira entre manto e núcleo. Durante a ascensão, o material quente encontra zonas do manto com composições distintas, resultado de milhões de anos de reciclagem de placas tectônicas e de bolsões que permaneceram quase inalterados desde a formação do planeta. Esses contrastes produzem uma estrutura heterogênea e geram pulsos separados, cada qual com assinatura geoquímica própria.

Quando os pulsos atingem a crosta continental, que é mais espessa que a crosta oceânica, parte do calor e do magma fica represada. Mesmo assim, fendas já existentes — formadas pela interação de três grandes zonas de rifte que se cruzam em Afar — canalizam o magma para a superfície. Isso explica por que a região apresenta erupções frequentes, terremotos rasos e subsidência do terreno.

Impactos do batimento cardíaco da Terra na superfície africana

Os pulsos identificados vêm contribuindo para a abertura das fendas do Rift Etíope, do Mar Vermelho e do Golfo de Áden. Essas três zonas divergentes se encontram em Afar, configurando um verdadeiro laboratório natural para processos de separação continental. À medida que o magma sobe e solidifica, ele empurra as placas tectônicas vizinhas, ampliando as fraturas. Geólogos calculam que, mantido esse ritmo, um novo oceano deve surgir no local em escala de dezenas de milhões de anos.

Além das fendas, o batimento cardíaco da Terra influencia a distribuição dos vulcões da Etiópia. O fluxo de magma preferencial ocorre onde a crosta é mais fina, concentrando extravasamentos de basalto em regiões específicas. Esse padrão foi observado, por exemplo, no vulcão Boset, de onde parte das amostras foi coletada. Tremores de pequena a média magnitude, comuns em Afar, também são produto direto da injeção rítmica de magma.

Comparação com outras plumas e próximos passos da pesquisa sobre o batimento cardíaco da Terra

Pulsos de composição variável já haviam sido relatados em ilhas oceânicas formadas por plumas, como Canárias, mas em Afar o fenômeno demonstra um componente temporal mais marcado do que espacial. No Havaí, por exemplo, a heterogeneidade ocorre primordialmente entre diferentes porções da pluma ao longo de distâncias laterais. Em Afar, a periodicidade química sugere um mecanismo de pulso regular. Isso reforça a ideia de que cada pluma tem dinâmica própria, governada por condições locais no manto profundo.

Os pesquisadores agora pretendem quantificar a velocidade de ascensão dos pulsos e determinar se eles chegam à superfície como ondas discretas ou se se dispersam antes de alimentar os vulcões. Para isso, planejam combinar estudos geoquímicos com tomografia sísmica, capaz de mapear a temperatura e a densidade do manto. Entender essa velocidade deverá esclarecer como a energia interna da Terra se converte em deformação tectônica observável.

Contexto geológico: como plumas do manto moldam a crosta terrestre

Plumas do manto são colunas de rocha sólida aquecida que se tornam menos densas do que o material ao redor e, por convecção, sobem em direção à superfície. Quando atingem profundidades próximas a 100 quilômetros, a queda de pressão favorece a fusão parcial, gerando magma basáltico. Em crosta oceânica, esse magma normalmente forma cadeias de ilhas vulcânicas. Já em crosta continental, mais espessa e rígida, o magma tende a acumular-se em câmaras, provocando abalos sísmicos, afinamento da crosta e eventual ruptura.

O caso de Afar exemplifica esse segundo cenário. A presença simultânea de três riftes cria um ponto frágil onde a pluma consegue penetrar. Com o batimento cardíaco da Terra transportando calor adicional, o afinamento da crosta acelera. Em longos períodos geológicos, esse processo gera subsidência, entrada de águas oceânicas e iniciação de um novo segmento de crosta marinha.

Consequências futuras para a África e para a pesquisa geodinâmica

A separação progressiva já produz sinais visíveis, como o vale de Daressalamu, onde o terreno afunda e a crosta se estica. Modelos tectônicos apontam que a África Oriental poderá se destacar do restante do continente, formando um novo bloco tectônico e permitindo a infiltração de águas do Mar Vermelho. Monitorar o batimento cardíaco da Terra em Afar é, portanto, fundamental para prever riscos vulcânicos e sísmicos que afetam populações locais e para entender a evolução futura da paisagem africana.

Os autores destacam que fenômenos análogos podem ocorrer em outras zonas de rifte continental ainda pouco estudadas. Investigações futuras, baseadas na mesma metodologia geoquímica aplicada na Etiópia, devem verificar se outros “pulsos” subterrâneos influenciam a dinâmica de continentes em diferentes partes do globo.

O próximo estágio dessa linha de pesquisa inclui a medição detalhada da frequência dos pulsos, o refinamento de modelos de convecção do manto e a verificação de como cada pulso afeta diretamente vulcões ativos do Rift Etíope Principal.

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