Fim da patente do Ozempic abre disputa de preços e pode dobrar o mercado de remédios para emagrecimento no Brasil

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fim da patente do Ozempic previsto para março deve alterar de forma profunda a dinâmica de preços, acesso e faturamento do mercado brasileiro de medicamentos voltados ao emagrecimento.
- Impacto imediato do fim da patente do Ozempic nos preços
- Corrida por registros na Anvisa após o fim da patente do Ozempic
- Projeções financeiras após a liberação da concorrência
- Barreiras de acesso apesar do fim da patente do Ozempic
- Consequências clínicas e necessidade de acompanhamento
- Próximos passos regulatórios e possíveis impactos do fim da patente do Ozempic no SUS
Impacto imediato do fim da patente do Ozempic nos preços
A proteção comercial que mantém a semaglutida exclusiva a poucas empresas chega ao limite legal dentro de poucas semanas. A partir desse momento, qualquer laboratório que tenha conseguido aprovação regulatória poderá ofertar versões genéricas ou similares do princípio ativo que se popularizou nos produtos Ozempic e Wegovy. A expectativa, segundo informações reportadas, é de que a concorrência resulte em um corte de 30 % a 50 % sobre os valores praticados hoje, que variam de R$ 900 a R$ 3.000 por caneta injetável. Em um cenário otimista, um tratamento mensal poderá cair para faixas mais próximas de R$ 450 a R$ 1.500, trazendo repercussões diretas para consumidores que, até então, encaravam o custo como principal barreira de adesão.
A estratégia de redução decorre de dois fatores: o menor custo de produção após a perda de exclusividade e a multiplicação de ofertantes disputando o mesmo público. Na prática, a semaglutida deixa de ser monopólio e passa a integrar o portfólio de empresas que já atuam no segmento de medicamentos para diabetes, obesidade e doenças crônicas relacionadas.
Corrida por registros na Anvisa após o fim da patente do Ozempic
Antecipando o novo cenário competitivo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária recebeu um volume expressivo de solicitações. No campo dos medicamentos sintéticos, há 11 pedidos de registro específicos para semaglutida e sete para liraglutida, princípio ativo que ficou conhecido pelos nomes Saxenda e Victoza e teve a patente encerrada em novembro passado. A autarquia também examina dossiês de produtos biológicos, que incluem a combinação semanal de semaglutida com insulina icodeca, além de versões isoladas de ambos os hormônios.
Entre as empresas que se posicionam para lançar as novas alternativas despontam EMS, Eurofarma e Hypera. Todas anunciaram investimentos robustos em infraestrutura de produção local, alinhando-se à estratégia de dominar fatias importantes de um mercado que se projeta bilionário. Para as companhias multinacionais, o Brasil surge como campo prioritário devido à grande base de pacientes potenciais que, até então, consumia a terapia em escala modesta.
Projeções financeiras após a liberação da concorrência
Um relatório elaborado pela UBS BB Corretora evidencia o salto que o setor pode registrar tão logo a exclusividade tecnicamente expire. O estudo calcula que a categoria de agonistas do receptor de GLP-1 — classe da qual faz parte a semaglutida — pode movimentar R$ 20 bilhões ainda neste ano, quase dobrando o resultado de R$ 11 bilhões estimado para 2025. O avanço será sustentado por dois pilares: a procura reprimida e a redução de preços que facilita a entrada de novos pacientes.
Atualmente, apenas 1,1 % dos adultos com sobrepeso e 2,5 % dos indivíduos obesos no país utilizam esses medicamentos. Esse índice subdimensiona o potencial de demanda, considerando que 68 % da população brasileira já se encontra acima do peso. Ao lado da queda de valores, a variedade de marcas deve impulsionar a penetração dos tratamentos, ampliando o público e elevando, consequentemente, o faturamento global do segmento.
Barreiras de acesso apesar do fim da patente do Ozempic
Especialistas do campo da endocrinologia ponderam que a simples redução de preços não garante abrangência massiva. Mesmo com a projeção de cortes, as faixas estimadas podem continuar restritivas para uma grande parcela dos brasileiros, mantendo o tratamento mais acessível às classes A e B. O setor público, por sua vez, ainda não oferece a semaglutida em seu elenco de medicamentos.
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde examinou a possibilidade de disponibilizar o fármaco em 2025. A proposta foi rejeitada por impacto orçamentário estimado em R$ 7 bilhões ao longo de cinco anos. O órgão admite que pode reavaliar o tema caso as versões genéricas provoquem recuo substancial nos custos unitários. Para viabilizar a produção interna, EMS e Fundação Oswaldo Cruz firmaram parceria com foco na transferência de tecnologia das canetas aplicadoras, iniciativa que, se aprovada, abrirá caminho para fabricação nacional dentro de laboratórios públicos.
No âmbito dos planos de saúde, decisões recentes do Supremo Tribunal Federal dificultam a obrigação de cobertura de medicamentos fora do rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar. Isso significa que, enquanto a semaglutida não entrar formalmente na lista da ANS, operadoras podem negar reembolso, empurrando beneficiários para desembolso próprio ou para disputas judiciais. Entre 2023 e 2025, a escalada de processos envolvendo as canetas emagrecedoras foi marcante: 67 % das ações demandaram o fornecimento pelo Estado, refletindo a pressão de pacientes que não encontraram alternativa de acesso administrativo.
Consequências clínicas e necessidade de acompanhamento
Embora a perspectiva de preços menores aumente a atração pelo tratamento, profissionais de saúde alertam que o sucesso terapêutico depende de orientação multidisciplinar. Sem ajuste alimentar, prática de atividade física e foco em indicadores como prevenção de eventos cardiovasculares ou patologia renal, o efeito do medicamento tende a ser apenas paliativo. A recomendação se torna ainda mais relevante diante de estudos que relacionam o uso prolongado desses hormônios a desafios como a sarcopenia — perda de massa muscular — quando não há suporte dietético adequado.
A experiência clínica também indica que a interrupção abrupta pode provocar recuperação rápida de peso, reforçando a necessidade de plano de desmame estruturado e supervisão constante. Assim, mesmo no cenário de maior disponibilidade, a abordagem deve permanecer centrada em estratégia de saúde integral, não em solução isolada.
Próximos passos regulatórios e possíveis impactos do fim da patente do Ozempic no SUS
Com o aumento do número de dossiês na Anvisa, o próximo evento a ser acompanhado é a conclusão das análises de cada pedido. A entrada efetiva dos genéricos no mercado depende da emissão do registro sanitário, etapa que valida qualidade, segurança e eficácia. Em paralelo, movimentos de fabricação local — especialmente aqueles vinculados a acordos de Parceria para o Desenvolvimento Produtivo — podem favorecer a discussão de nova submissão à Conitec.
Se as previsões de redução de até 50 % se confirmarem, o cálculo de custo-efetividade poderá mudar substancialmente, abrindo brecha para que a semaglutida seja reavaliada como opção no tratamento de obesidade no sistema público. Até lá, pacientes interessados deverão observar a chegada das primeiras versões genéricas nas farmácias, o que deve ocorrer logo após a expiração da patente em março.

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