Filme Yes: Nadav Lapid transforma caos em sátira para criticar os “sins” de Israel na guerra

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O filme Yes, novo longa-metragem do cineasta israelense Nadav Lapid, chegou ao circuito brasileiro com a proposta de usar humor ácido e imagens caóticas para refletir sobre a adesão de Israel à guerra. Partindo do colapso pessoal de um músico de jazz, a produção amplia a lente para discutir nacionalismo, autoritarismo e a sensação de que a violência se normalizou no cotidiano.
- Enredo de filme Yes expõe decadência e dilemas morais
- Nadav Lapid usa filme Yes para questionar os “sins” de Israel
- Carreira de Nadav Lapid: da repercussão de “Synonymes” ao caos de Yes
- Recepção internacional de filme Yes e controvérsias em festivais
- Elementos técnicos: classificação, elenco e coprodução
- Impacto cultural e possível trajetória futura
Enredo de filme Yes expõe decadência e dilemas morais
O protagonista, identificado apenas como Y., é um saxofonista em franca decadência. Ao lado da mulher, a dançarina Jasmine, ele busca sustento vendendo arte e o próprio corpo a clientes diversos. A sobrevivência do casal depende da aceitação constante de propostas alheias: eles dizem “sim” a convites, festas e aventuras sexuais, evitando frontalmente qualquer “não”. Esse padrão de submissão encontra seu ponto crítico quando surge uma oferta milionária: compor o novo hino nacional de Israel.
A tentadora quantia colocaria fim às dificuldades financeiras, mas a encomenda fere o âmago das convicções políticas de Y. e Jasmine. A dúvida passa a reger a narrativa: vale sacrificar a integridade para prosperar? A pergunta move cenas em que o casal oscila entre o impulso de resistir e o medo de afundar ainda mais na penúria. Lapid acentua o conflito ao inserir acontecimentos do noticiário real, criando um paralelo entre a crise íntima dos personagens e as convulsões externas provocadas pela guerra.
Nadav Lapid usa filme Yes para questionar os “sins” de Israel
Segundo o próprio diretor, a escolha do título “Yes” não é fortuita. Lapid entende que a sociedade israelense vem acumulando “sins” ao aceitar atos de violência, discursos nacionalistas e medidas que ampliam o autoritarismo. Para ilustrar essa tese, ele conecta ficção e realidade já nos minutos iniciais, inserindo ataques do Hamas contra Israel e, posteriormente, bombardeios na Faixa de Gaza. A montagem alterna as imagens de conflito com a rotina corrompida de Y., sugerindo que a palavra “sim” assume facetas distintas: cumplicidade política em escala nacional e capitulação moral em esfera privada.
A estética acompanha o discurso. A câmera se recusa a permanecer estática; treme, gira e busca ângulos desconfortáveis, traduzindo no enquadramento a instabilidade de um país que, na visão do realizador, resvala para a brutalidade. Lapid declara que não pretende apenas relatar o horror, mas mostrá-lo visceralmente para tornar concreto o que, de outra forma, poderia soar abstrato. Sentimento, ideia e choque visual se combinam, criando um conjunto que beira o delírio.
Carreira de Nadav Lapid: da repercussão de “Synonymes” ao caos de Yes
Nascido em Tel Aviv, Nadav Lapid consolidou-se como um dos nomes mais combativos do cinema israelense contemporâneo. Seu reconhecimento internacional ganhou impulso definitivo em 2019, quando “Synonymes” recebeu o Urso de Ouro, principal prêmio do Festival de Berlim. Naquele trabalho, o cineasta já ironizava políticas governamentais e questionava identidades nacionais, características que reaparecem ampliadas em filme Yes.
Entre “Synonymes” e o lançamento atual, Lapid percorreu mostras de prestígio. “Yes” estreou no Festival de Cannes, circulou pelo Festival de Veneza e integrou a programação do Festival do Rio, para onde o diretor viajou em outubro do ano passado. Apesar de algumas críticas menos entusiasmadas em comparação a seus filmes anteriores, Lapid demonstra confiança na recepção latino-americana, argumentando que públicos de sociedades “fracassadas que seguem fracassando” compreendem melhor o absurdo presente em suas narrativas.
Recepção internacional de filme Yes e controvérsias em festivais
A carreira de “Yes” pelos circuitos de premiação coincidiu com debates públicos sobre a postura de eventos culturais diante da guerra no Oriente Médio. A edição atual do Festival de Berlim, que se encerra neste domingo, afirmou que artistas não são obrigados a comentar questões políticas. A declaração motivou um abaixo-assinado de cineastas e atores contrários ao silêncio institucional. Lapid, entretanto, relativiza o impacto dessas iniciativas, lembrando que já assinou inúmeras petições sem notar efeitos concretos.
O diretor menciona ainda a recente polêmica em Veneza, onde parte da imprensa questionou a vitória de uma produção norte-americana em detrimento de “A Voz de Hind Rajab”, filme tunisiano sobre tragédias em Gaza. Para o israelense, celebridades poderiam empregar sua reputação de forma mais efetiva na pressão por mudanças; do contrário, os breves cessar-fogos conquistados seguem prenunciando novas catástrofes.
Elementos técnicos: classificação, elenco e coprodução
Filme Yes recebeu classificação indicativa de 16 anos. No elenco figuram Ariel Bronz, Efrat Dor e Naama Preis, todos incorporando personagens que transitam entre o realismo e a performance quase teatral exigida pela estética caótica de Lapid. A produção reúne recursos de Israel, França, Chipre e Alemanha, reforçando o caráter internacional do projeto e viabilizando sua circulação em diferentes mercados.
A trilha sonora, centrada no jazz que ainda ressoa na memória profissional de Y., reforça o tom de decadência: a música que um dia simbolizou liberdade converte-se em registro de uma carreira em ruínas. Já a fotografia alterna luzes de festa e tons sombrios, sublinhando o contraste entre a aparente celebração dos personagens e a angústia política que permeia cada decisão.
Impacto cultural e possível trajetória futura
Embora “Yes” tenha recebido avaliações mais díspares do que “Synonymes”, o próprio Lapid reconhece que a mistura de sátira, cenas documentais e câmera nervosa pode gerar desconforto. A abordagem, porém, serve ao propósito de questionar o conformismo diante da guerra e do autoritarismo. O filme passa a integrar um conjunto de obras contemporâneas que, em meio a conflitos no Oriente Médio, buscam refletir sobre identidades nacionais, limites éticos e a potência da arte como forma de resistência.
Nos próximos dias, a discussão sobre a presença ou ausência de manifestações políticas em festivais deve continuar. O desfecho do Festival de Berlim, que encerra programação neste domingo, indicará se a diretoria manterá o posicionamento inicial ou cederá à pressão dos signatários do abaixo-assinado. Enquanto isso, filme Yes segue em exibição nos cinemas brasileiros, oferecendo ao público a oportunidade de confrontar, na tela grande, a pergunta que atormenta seu protagonista: até que ponto vale dizer “sim”?

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