Feminicídios na Paraíba atingem recorde histórico em 2025 e superam média nacional

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No ano de 2025, os feminicídios na Paraíba alcançaram o maior patamar já registrado desde que a tipificação foi criada em 2015. De janeiro a dezembro, 36 mulheres foram mortas por razões de gênero, número que iguala o pico de 2019 e representa aumento de 38% em comparação a 2024, quando 25 casos haviam sido confirmados.
- Panorama dos feminicídios na Paraíba em 2025
- Distribuição mensal dos feminicídios na Paraíba
- Cidades alcançadas pela onda de feminicídios na Paraíba
- Leis de combate e definição do feminicídio
- Perfil das vítimas e autores segundo dados oficiais
- Tendência nacional e comparação com 2024
- Canais de denúncia e importância da educação
Panorama dos feminicídios na Paraíba em 2025
O levantamento foi obtido junto à Secretaria de Estado da Segurança e Defesa Social por meio da Lei de Acesso à Informação. A estatística de 36 ocorrências torna 2025 o ano mais letal para mulheres no estado desde a entrada em vigor da Lei nº 13.104, que incluiu o feminicídio no rol dos crimes hediondos. Também marca a consolidação de uma trajetória de alta após a breve retração observada em 2024, quando os registros caíram 26,47% frente a 2023.
O volume de assassinatos equivale a média de três casos a cada cinco semanas. Para efeito de proporção, o estado concentrou praticamente uma morte a cada dez dias, ritmo superior ao de anos anteriores e alinhado à progressão nacional de quatro vítimas diárias apontada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Distribuição mensal dos feminicídios na Paraíba
A análise mensal evidencia que o comportamento do crime não foi linear ao longo do ano. Fevereiro despontou como o mês mais violento, com seis ocorrências, seguido de novembro, que somou cinco casos. Março e dezembro tiveram quatro registros cada, enquanto os demais meses oscilaram entre um e três episódios.
O quadro mensal reforça a necessidade de monitoramento constante, pois os picos indicam períodos de maior vulnerabilidade. Além disso, os dados mostram que não há um intervalo prolongado livre de feminicídios, revelando a permanência da ameaça em todas as estações.
Cidades alcançadas pela onda de feminicídios na Paraíba
Os feminicídios na Paraíba de 2025 ocorreram em 24 municípios, demonstrando capilaridade geográfica. Entre eles figuram João Pessoa, Campina Grande, Patos e Santa Rita, que historicamente concentram grande parte da população do estado. Regiões de menor porte, como Araçagi, Capim, Juru ou Pilões, também registraram casos, evidenciando que a violência de gênero não se restringe a áreas metropolitanas ou de alta densidade populacional.
Nesse cenário, a pesquisadora de gênero Glória Rabay destaca que a cultura machista perpassa todos os estratos sociais e territórios. Segundo ela, “tanto as vítimas quanto os agressores apresentam perfis variados”, o que explica a dispersão geográfica dos crimes. A avaliação reforça a abrangência do problema e a impossibilidade de vinculá-lo a um único grupo ou localidade.
Leis de combate e definição do feminicídio
O enquadramento legal dos casos é regido por duas normas centrais. A primeira é a Lei nº 13.104/2015, que qualificou o feminicídio como circunstância de homicídio qualificado e classificou o delito como hediondo. Em 2024, entrou em vigor a Lei nº 14.994, transformando o feminicídio em crime autônomo e ampliando as ferramentas de prevenção. Pela legislação, é considerado feminicídio o assassinato motivado por violência doméstica, familiar, menosprezo ou discriminação à condição de mulher.
A pena pode alcançar 40 anos de reclusão, superior ao intervalo de 12 a 30 anos previsto para o homicídio qualificado. Esse endurecimento busca tanto punir com mais rigor quanto sinalizar o caráter específico da violência de gênero, que historicamente não recebia nomenclatura nem estatística próprias.
Perfil das vítimas e autores segundo dados oficiais
O levantamento do Núcleo de Dados da Rede Paraíba de Comunicação aponta que a maior parte das vítimas possuía relação afetiva ou familiar com o agressor. A modalidade predominante de arma utilizada foi a de fogo. Embora mulheres negras, pobres e periféricas integrem o grupo mais vulnerável, os registros de 2025 incluíram vítimas com perfis socioeconômicos distintos, reforçando o alerta de que nenhuma camada social está imune.
Glória Rabay observa que a violência letal contra mulheres se alimenta de práticas misóginas disseminadas na sociedade. Para a pesquisadora, o combate exige processo educativo em múltiplos espaços: escolas, mídia, igrejas, famílias e empresas privadas. A responsabilidade, portanto, distribui-se por toda a coletividade.
Tendência nacional e comparação com 2024
Os 36 feminicídios na Paraíba acompanham a escalada verificada no país. O Brasil contabilizou mais de 1.470 ocorrências em 2025, novo recorde e ligeiramente acima dos 1.464 casos de 2024. A curva ascendente reforça que o fenômeno estadual não é isolado, mas parte de um contexto nacional de recrudescimento da violência de gênero.
Quando se analisam apenas os números da Paraíba, observa-se que 2024 havia registrado 25 feminicídios, distribuídos por 19 municípios. Naquele ano, os meses mais críticos foram fevereiro e setembro, responsáveis por nove ocorrências no total. Embora 2024 tenha tido um mês — agosto — sem registros, 2025 não apresentou interrupções comparáveis, demonstrando piora nos indicadores.
Além dos feminicídios, 2024 terminou com 41 homicídios dolosos de mulheres, sinalizando que a letalidade ainda se expressa em outras tipificações. O histórico revela que 2012 foi o período mais violento da década anterior, reforçando a persistência do problema ao longo dos anos.
Canais de denúncia e importância da educação
A legislação prevê uma série de ferramentas para vítimas e testemunhas denunciarem agressões. Três telefones concentram o recebimento de relatos: o 197, Disque Denúncia da Polícia Civil; o 180, Central de Atendimento à Mulher; e o 190, canal emergencial da Polícia Militar. Esses serviços são gratuitos e funcionam 24 horas, oferecendo rota imediata para registro e apuração dos casos.
Ao lado da repressão, especialistas indicam a educação como eixo decisivo para reduzir os feminicídios na Paraíba. O entendimento é que o problema não se resolve apenas com punição. Para Glória Rabay, a desconstrução do machismo institucionalizado deve ser conduzida por escolas, meios de comunicação, famílias e organizações religiosas ou privadas, criando uma cultura de respeito à autonomia feminina.
Embora 2025 encerre com a confirmação de 36 feminicídios, a implementação da Lei nº 14.994 e a ampliação de mecanismos de denúncia indicam passos institucionais em curso. Os dados oficiais sobre 2026, quando consolidados, permitirão verificar se essas medidas produzirão impacto na trajetória da violência de gênero no estado.

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