FED alega que Trump usa acusação criminal como instrumento para forçar corte de juros

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O presidente do Federal Reserve (FED), Jerome Powell, afirmou ter sido alvo de uma acusação criminal que, segundo ele, estaria sendo utilizada pelo governo de Donald Trump como forma de pressionar a autoridade monetária a reduzir a taxa básica de juros dos Estados Unidos. A controvérsia envolve uma notificação recebida do Departamento de Justiça, associada a um projeto de reforma nos prédios do Banco Central norte-americano, mas classificada por Powell como mero pretexto para interferir na condução da política monetária.
Acusação criminal e ameaça de denúncia: o que o FED recebeu
O ponto de partida do impasse foi a chegada, neste domingo, de uma comunicação formal do Departamento de Justiça ao gabinete de Powell. O documento, descrito pelo presidente do FED como uma ameaça de abertura de processo, relacionava-se a supostas irregularidades em obras de revitalização das instalações da instituição. Embora não tenham sido divulgados detalhes técnicos da reforma, o aviso sinalizou possível responsabilização criminal do presidente do Banco Central.
De acordo com Powell, nenhum elemento novo foi apresentado que justificasse a adoção de um procedimento penal. Ele declarou que a iniciativa não guarda conexão real com o projeto de engenharia e sim com o descontentamento do Executivo em relação às decisões sobre juros. A notificação foi considerada por ele “sem precedentes”, indicando que não há registro histórico de ação semelhante contra um chefe do Federal Reserve.
O presidente do FED reforçou que qualquer autoridade pública está sujeita à lei, mas sustentou que a acusação criminal encontrada no documento seria consequência direta do fato de o Comitê Federal de Mercado Aberto ter mantido a política de juros baseada em indicadores econômicos, e não em preferências políticas.
Como a acusação criminal se conecta à política de juros
O Federal Reserve detém competência para definir a taxa básica de juros da maior economia do mundo, influenciando o crédito, os investimentos e o emprego. Powell reiterou que a instituição vem utilizando metodologias próprias de análise macroeconômica para calibrar os juros, buscando equilíbrio entre crescimento e estabilidade de preços. Nesse contexto, a notificação penal foi interpretada como instrumento de contenção da autonomia técnica do Banco Central.
A acusação criminal, na leitura de Powell, surge no momento em que o governo federal expressa insatisfação com o patamar considerado elevado dos juros. Donald Trump, em seu segundo mandato, havia feito críticas recorrentes à falta de cortes mais agressivos na taxa, chegando a cogitar a demissão do presidente do FED. Embora o Estatuto da instituição preveja mandato fixo, a ofensiva jurídica adiciona novo grau de pressão sobre a diretoria, sinalizando tentativa de acelerar a flexibilização monetária.
O episódio também lança dúvidas sobre a continuidade de uma tradição norte-americana: a de que a política econômica é conduzida por órgãos tecnicamente qualificados, apartados de ciclos eleitorais. Powell advertiu que a principal questão agora é se a definição de juros permanecerá apoiada em evidências ou passará a ser subordinada a estratégias políticas de curto prazo.
Reação de Donald Trump à acusação criminal
Confrontado sobre o envio de material investigativo ao Banco Central, o presidente norte-americano negou conhecimento prévio da medida. Em declaração a jornalistas, Trump afirmou desconhecer detalhes do caso e minimizou o desempenho de Powell, tanto na condução do FED quanto na supervisão de obras. Ele reforçou que a única pressão legítima sobre o presidente da autoridade monetária deveria estar relacionada ao nível considerado alto da taxa de juros.
Nas palavras do chefe do Executivo, não haveria intenção de utilizar expedientes jurídicos para influenciar a política econômica. Ainda assim, as críticas ao banco centralista permaneceram. Desde o início do segundo mandato, Trump reivindica cortes “significativos” na taxa, manifestando frustração com a resistência do FED em adotar estímulos monetários mais agressivos.
O contraste entre a negativa presidencial e a avaliação de Powell alimenta um cenário de incerteza institucional. De um lado, o Banco Central sustenta que uma acusação criminal foi instrumentalizada como chantagem; de outro, a Casa Branca declara que não recorreu a artifícios judiciais e apenas discorda da orientação de juros adotada.
Impasse põe em xeque a independência do Federal Reserve
A repercussão do caso extrapolou o núcleo Executivo-FED e alcançou o Congresso. O senador republicano Thom Tillis, membro do Comitê Bancário do Senado, declarou publicamente que irá bloquear qualquer indicação para substituir Powell enquanto a questão jurídica permanecer pendente. Ele argumentou que a dúvida sobre interferência política compromete não apenas o Federal Reserve, mas também a credibilidade do próprio Departamento de Justiça.
A manifestação de Tillis ilustra uma preocupação bipartidária frequente no ambiente político norte-americano: a manutenção da independência do Banco Central. O arranjo institucional que concede autonomia ao FED tem por objetivo afastar a definição da taxa básica de ciclos eleitorais e pressões de curto prazo. Quando um presidente em exercício mostra insatisfação ostensiva com a política monetária, a tensão entre autoridade política e autoridade técnica se intensifica.
No caso atual, a apresentação de uma eventual acusação pode abrir precedente preocupante. Se confirmada a tese de que procedimentos judiciais são usados como mecanismo de influência, outros presidentes do FED e de órgãos reguladores poderiam vir a enfrentar condicionamentos semelhantes, enfraquecendo o arcabouço de governança econômica.
Próximos passos: mandato de Powell e possível sucessão
A crise institucional ocorre a poucos meses do término do mandato de Jerome Powell, previsto para maio. Conforme determina a legislação, o ocupante da Casa Branca tem prerrogativa de indicar o próximo presidente do Banco Central, que precisará de aval do Senado. Em circunstâncias usuais, o processo é guiado por critérios técnicos e transcorre sem grandes impasses. Entretanto, a existência de investigação criminal contra o atual chefe do FED poderá influenciar tanto a escolha quanto a tramitação da nomeação.
Enquanto o desfecho jurídico não se consolida, o funcionamento rotineiro do Comitê Federal de Mercado Aberto permanece agendado. Até que nova decisão seja tomada, a autoridade monetária continuará avaliando inflação, crescimento e emprego para determinar a trajetória dos juros. A próxima reunião regular do colegiado está marcada no calendário interno do banco, mantendo a pauta de indicadores e projeções econômicas.
Paralelamente, a atenção do mercado e dos agentes políticos se dirige ao calendário de maio, quando expira o mandato de Powell e se abre oficialmente a vaga de presidente do Federal Reserve. Até lá, o Senado deverá definir se acolhe ou não a indicação do sucessor proposta por Trump, levando em conta a apuração relacionada à notificação sobre as obras nos prédios do Banco Central.
Com o mandato de Jerome Powell se encerrando em maio e a investigação ainda sem conclusão, o ambiente permanece marcado por incerteza sobre quem conduzirá a política monetária norte-americana no próximo ciclo.

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