Evidência inédita aponta vasto oceano em Marte há 3 bilhões de anos

|
Getting your Trinity Audio player ready... |
Palavra-chave principal: oceano em Marte
Um estudo geológico conduzido por especialistas europeus reuniu o conjunto mais sólido de indicações até hoje de que um oceano em Marte dominou a paisagem do hemisfério norte há aproximadamente 3 bilhões de anos. A análise, centrada em formações sedimentares do sistema de cânions Valles Marineris, sugere que o Planeta Vermelho, hoje árido e frio, já ostentou condições físicas semelhantes às de um ambiente costeiro terrestre, com lâminas d’água de até um quilômetro de profundidade.
- Oceano em Marte: características gerais da descoberta
- Metodologia e registro sedimentar do oceano em Marte
- Localização e extensão: do cânion às planícies setentrionais
- Profundidade, idade e transformação climática do oceano em Marte
- Implicações biológicas: habitabilidade potencial do oceano em Marte
- Próximos passos: sondas orbitais e análise mineralógica
- Contexto da exploração marciana e desafios recentes
Oceano em Marte: características gerais da descoberta
O fato central da pesquisa é a identificação de Depósitos Frontais de Escarpa (SFDs) dispostos em Coprates Chasma, segmento oriental de Valles Marineris. Todos os SFDs mapeados aparecem entre –3.750 e –3.650 metros de altitude, formando um traço horizontal praticamente uniforme em dezenas de quilômetros. Para os sedimentólogos, o alinhamento sugere a ação prolongada de um corpo líquido extenso e estável. Em termos geológicos, um nível constante desse tipo costuma sinalizar linha de costa ou fundo marinho, hipótese que confere um novo significado ao relevo marciano.
Metodologia e registro sedimentar do oceano em Marte
A equipe liderada pela Universidade de Berna adotou protocolos de sedimentologia comparáveis aos empregados no estudo de bacias aquáticas da Terra. Os pesquisadores inspecionaram imagens de alta resolução e modelos digitais de elevação coletados por sondas orbitais. Em seguida, reconstruíram camadas estratigráficas para avaliar granulometria, inclinação e espessura dos SFDs. A uniformidade vertical desses depósitos sugere deposição rápida e homogênea sob um grande volume de água, algo coerente com ambientes lacustres ou marinhos. Ao descartar cenários de lagoas isoladas, o estudo reforça a tese de que o oceano em Marte era um elemento dominante no passado planetário.
Localização e extensão: do cânion às planícies setentrionais
Coprates Chasma, onde as evidências foram observadas, faz parte de Valles Marineris, um sistema de falhas com cerca de 4 mil quilômetros de comprimento. A pesquisa argumenta que a altitude fixa dos SFDs no cânion deve ser extrapolada para as terras baixas situadas ao norte. Dessa forma, as planícies Borealis, principal depressão do hemisfério setentrional, possivelmente ficaram submersas sob centenas de metros de água. A combinação entre profundidade estimada no cânion (até 1 km) e área potencial inundada equivale a uma inundação continental em escala marciana, transformando radicalmente a percepção tradicional do planeta.
Profundidade, idade e transformação climática do oceano em Marte
Os dados indicam que o oceano em Marte surgiu durante o período Hesperiano tardio, cerca de 3 bilhões de anos atrás. Nessa fase, o planeta ainda mantinha atividade vulcânica, atmosfera mais densa e temperaturas possibilitando água líquida. A presença de um nível estável por tempo geologicamente significativo implica aporte hídrico constante, talvez proveniente de degelo polar, precipitação ou descarga subterrânea. O subsequente desaparecimento desse reservatório marca uma transição de um “Marte azul” para o ambiente desértico atual, questão que adquire importância global ao comparar a fugacidade da água em escalas planetárias.
Implicações biológicas: habitabilidade potencial do oceano em Marte
A confirmação de condições aquosas extensas e duradouras fortalece discussões sobre a possível emergência de processos biológicos. Sistemas marinhos, pela diversidade de nichos e estabilidade térmica, são ambientes favoráveis ao aparecimento de organismos unicelulares. Embora o estudo não aborde diretamente biossinais, a constatação de um oceano profundo indica que, no passado, Marte reuniu pressão, temperatura e disponibilidade química comparáveis às de ambientes precoces da Terra. Isso orienta futuras missões robóticas a investigar minerais associados a atividade hidrotermal ou sedimentos finos capazes de preservar matéria orgânica.
Próximos passos: sondas orbitais e análise mineralógica
O grupo científico planeja agora caracterizar a composição dos SFDs utilizando espectrometria das sondas ExoMars Trace Gas Orbiter e Mars Express, ambas da Agência Espacial Europeia, além da Mars Reconnaissance Orbiter, da NASA. A meta é identificar argilominerais, sulfatos ou carbonatos que corroborem deposição subaquática longa. A verificação mineralógica pode, por exemplo, revelar interações químicas típicas de água neutra ou salobra, fornecendo detalhes sobre salinidade e pH do antigo corpo hidrográfico.
Contexto da exploração marciana e desafios recentes
A publicação dos resultados na revista npj Space Exploration coincide com discussões sobre a próxima fase da exploração humana e robótica de Marte. Enquanto a descoberta amplia o interesse científico, o segmento enfrenta entraves orçamentários, como o recente cancelamento do programa norte-americano de retorno de amostras. Ainda assim, a confirmação de um oceano em Marte renova o apoio a missões focadas em geologia e astrobiologia, pois aponta locais prioritários onde vestígios de vida, se existiram, podem ter sido preservados.
Com o levantamento sedimentológico estabelecendo uma linha d’água clara e a futura análise mineral planejada, a comunidade científica aguarda os próximos relatórios das sondas europeias e norte-americanas para consolidar o cenário hidrográfico que redefinirá nossa compreensão sobre Marte e sobre a presença de água em planetas rochosos.

Conteúdo Relacionado