Evidência de flechas envenenadas recua uso de veneno na caça para 60 mil anos

Flechas envenenadas fabricadas há aproximadamente 60 000 anos no sul da África acabam de ganhar status de registro mais antigo já encontrado do uso de venenos em armas de caça, segundo a análise detalhada de pontas arqueológicas que ainda preservam resíduos tóxicos de origem vegetal.
- O que as novas evidências de flechas envenenadas revelam
- Como os pesquisadores identificaram veneno em flechas envenenadas de 60 mil anos
- Por que o uso de flechas envenenadas representa avanço tecnológico
- Onde os artefatos com flechas envenenadas foram encontrados e guardados
- Quando o registro de flechas envenenadas foi revisado e ampliado
- Detalhes sobre o veneno e seus efeitos na caça
- Próximos passos da pesquisa sobre flechas envenenadas
O que as novas evidências de flechas envenenadas revelam
O estudo reporta que cinco de dez pontas de flecha analisadas mantêm traços de alcaloides bufandrina e epibufanisina, substâncias capazes de matar um roedor em cerca de meia hora. Esses compostos sugerem que as populações do Pleistoceno tardio recorriam a estratégias químicas para incapacitar presas, em vez de confiar somente no impacto físico da seta. Até então, a menção mais antiga a flechas envenenadas no continente remontava ao médio Holoceno, por volta de sete mil anos atrás. Com a nova datação, o marco histórico é adiantado em mais de cinquenta milênios, reposicionando a cronologia das primeiras aplicações de toxinas em atividades de subsistência humana.
Como os pesquisadores identificaram veneno em flechas envenenadas de 60 mil anos
A investigação coube a uma equipe internacional vinculada à Universidade de Estocolmo, à Universidade Linnaeus e à Universidade de Joanesburgo. Os cientistas selecionaram dez artefatos guardados desde 1985 em um museu da província de KwaZulu-Natal. Em laboratório, cada peça passou por cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massa, método capaz de separar e reconhecer moléculas orgânicas em níveis traço. A presença de bufandrina em metade das pontas, associada à detecção de epibufanisina em uma delas, constitui a primeira evidência direta de venenos vegetais aplicados a instrumentos de caça do período Pleistoceno.
A fonte provável da toxina é a planta Boophone disticha, comum no sul da África e historicamente empregada por caçadores locais em preparações de veneno. A correspondência entre alcaloides da amostra de 60 000 anos e das flechas utilizadas há apenas 250 anos fortalece a conclusão de que ambas derivam da mesma espécie vegetal, indicando continuidade cultural no aproveitamento das propriedades químicas da flora regional.
Por que o uso de flechas envenenadas representa avanço tecnológico
Acoplar veneno a projéteis exige domínio de conhecimento botânico, capacidade de planejamento e compreensão de causalidade química. Ao contrário de armas que dependem somente de força mecânica, as flechas envenenadas atuam depois do impacto, prolongando o efeito letal e permitindo que o caçador acompanhe o animal ferido até sua queda. Essa técnica amplia o raio de ação do grupo humano e eleva a taxa de sucesso na obtenção de carne, couro e ossos. Para os autores do estudo, o achado confirma que, há 60 milênios, populações de caçadores-coletores já exibiam complexidade tecnocomportamental comparável à de sociedades posteriores, evidência de rápida inovação cumulativa na região.
Os dados ainda sugerem que a introdução de toxinas em flechas não foi um evento isolado. Entre 269 grupos de arqueiros historicamente documentados no sul da África, 168 empregam veneno em suas armas. A identificação dos mesmos alcaloides em artefatos de idades tão distintas sustenta a hipótese de que o conhecimento sobre plantas tóxicas foi transmitido por gerações, consolidando-se como componente estável da estratégia de caça.
Onde os artefatos com flechas envenenadas foram encontrados e guardados
As pontas que protagonizam a descoberta vieram do abrigo rochoso de Umhlatuzana, situado em uma encosta da província de KwaZulu-Natal, África do Sul. Escavadas em 1985, elas foram classificadas inicialmente como simples instrumentos líticos associados ao Pleistoceno tardio e, desde então, permaneceram sob a guarda de um acervo museológico. A recente investigação resgatou esse material do anonimato, aplicando tecnologias analíticas inexistentes à época da coleta. O abrigo, portanto, confirma-se como sítio chave para compreender a evolução das práticas de caça no subcontinente.
Além dos resíduos químicos, as pontas trazem cicatrizes microscópicas de impacto que, combinadas às análises de forma, reforçam sua função como projéteis verdadeiros. Esses vestígios contribuem para distinguir flechas de lanças ou dardos, permitindo inferir que o arco já fazia parte do repertório tecnológico quando o veneno começou a ser empregado.
Quando o registro de flechas envenenadas foi revisado e ampliado
Antes do estudo, o consenso arqueológico situava o uso mais antigo de flechas envenenadas no médio Holoceno, cerca de sete mil anos atrás. Essa referência baseava-se em artefatos que exibiam desgaste sugestivo de toxinas, mas sem comprovação química. A nova datação de 60 mil anos deriva de camadas sedimentares atribuídas ao Pleistoceno tardio, fase marcada por mudanças climáticas e crescimento populacional na África austral. A diferença cronológica de dezenas de milhares de anos reconfigura o entendimento sobre a origem desse tipo de armamento e pressiona pesquisadores a reexaminar coleções semelhantes guardadas em outros museus.
A expectativa é que a mesma abordagem instrumental aplicada em Umhlatuzana venha a ser estendida a pontas de flecha encontradas em sítios contemporâneos ou mais antigos. Caso resultados equivalentes sejam obtidos, o início da cultura de venenos pode retroceder ainda mais, remodelando narrativas sobre a capacidade de inovação do Homo sapiens.
Detalhes sobre o veneno e seus efeitos na caça
A bufandrina e a epibufanisina pertencem à classe dos alcaloides tóxicos que interferem no sistema nervoso central de vertebrados. Testes modernos indicam que a ação não é fulminante; um animal pequeno sucumbe em torno de trinta minutos. Para grupos humanos pré-históricos, esse intervalo bastava para localizar e acompanhar a presa já debilitada, economizando energia e reduzindo riscos. A configuração sugere caça planejada em equipe, distribuição de tarefas e monitoramento do animal a distância.
O fato de o veneno não ser imediatamente letal preservava a carne em bom estado, evitando o rápido acúmulo de toxinas nos tecidos. Essa característica pode ter favorecido a adoção ampla da técnica, uma vez que assegurava recursos alimentares seguros e estáveis. A planta Boophone disticha, por sua vez, era abundante na paisagem, facilitando coletas frequentes para a produção de novas doses.
Próximos passos da pesquisa sobre flechas envenenadas
Com a publicação na revista Science Advances, os autores pretendem agora replicar o protocolo de cromatografia em materiais de outros sítios do sul da África que datam do mesmo período. Se a presença de bufandrina ou compostos relacionados for confirmada em objetos adicionais, o banco de dados sobre flechas envenenadas do Pleistoceno crescerá substancialmente, permitindo análises estatísticas sobre distribuição geográfica e frequência de uso. Essa próxima fase deve esclarecer se o conhecimento sobre venenos estava restrito a grupos específicos ou se espalhou amplamente pela região durante a expansão do Homo sapiens.

Conteúdo Relacionado