Escassez de chips de memória convive com disparada de ações no setor de semicondutores

O mercado global de chips de memória entrou em 2026 exibindo um contraste marcado: de um lado, a oferta limitada do componente pressiona fabricantes e encarece produtos; de outro, investidores ampliam a confiança em gigantes do setor, cujos papéis já acumulam ganhos de dois dígitos no ano. A combinação de demanda crescente — alimentada por cargas de trabalho de inteligência artificial (IA) — e oferta restrita ressignifica a dinâmica de todo o ecossistema de semicondutores.
- Demanda de IA impulsiona escassez de chips de memória
- Ações de fabricantes de chips de memória avançam no início de 2026
- Preços de DRAM sobem e podem aumentar 40% até o segundo trimestre
- Efeitos em toda a cadeia de suprimentos de semicondutores
- Lucros projetados indicam superciclo para chips de memória
- Expansão de capacidade e papel crítico da ASML
Demanda de IA impulsiona escassez de chips de memória
Desde o ano passado, fornecedores de semicondutores acompanham com apreensão a escassez de chips de memória. O avanço exponencial da IA intensificou a procura, porque grandes modelos dependem de elevada capacidade de armazenamento temporário para treinamento e inferência. Empresas de tecnologia continuam a investir bilhões de dólares na aquisição desses dispositivos e na construção de data centers focados em IA, esgotando rapidamente o estoque disponível.
O tipo de componente que mais sente o impacto é a memória de acesso aleatório (DRAM). Essencial para operar conjuntos de dados extensos, a DRAM tornou-se peça-chave em placas aceleradoras e servidores dedicados à IA. Com a demanda superando a oferta, o desequilíbrio se reflete em preços que já subiram em 2025 e, segundo estimativa da Counterpoint Research, podem avançar mais 40% até o segundo trimestre de 2026.
Ações de fabricantes de chips de memória avançam no início de 2026
Embora a escassez preocupe fabricantes, o sentimento no mercado financeiro é oposto. No acumulado de 2026, as ações da SK Hynix cresceram 11,5%, as da Samsung dispararam 15,9% e as da Micron lideraram com 16,3%. O movimento ocorre porque investidores projetam que a oferta limitada permitirá às empresas praticar preços elevados sem previsão de recuo na procura.
Essas três companhias concentram parcela significativa da produção global de memória. Quanto mais intensas se tornam as necessidades de IA, maior é a capacidade de repasse de custos para o cliente final. Isso sustenta uma expectativa de margens robustas, justificando o apetite dos compradores de ações mesmo diante do desafio logístico.
Preços de DRAM sobem e podem aumentar 40% até o segundo trimestre
A escassez não se restringe ao volume. O gargalo recai, sobretudo, sobre a memória de alta largura de banda — crucial para processar grandes volumes de dados em velocidades compatíveis com algoritmos avançados. Analistas observam que o desequilíbrio entre oferta e demanda é estrutural, pois elevar a capacidade fabril exige investimentos bilionários e prazos longos de construção.
Em 2025, o valor dos módulos DRAM já havia registrado acréscimo expressivo. A projeção de novos 40% de alta até junho de 2026 reforça a pressão sobre fabricantes de dispositivos finais, que precisam repassar parte desse custo ou absorvê-lo, reduzindo margem. Ao mesmo tempo, para Samsung, SK Hynix e Micron, a escalada de preços deve ampliar receitas, compensando a limitação de volumes.
Efeitos em toda a cadeia de suprimentos de semicondutores
O otimismo não se restringe aos produtores diretos de chips de memória. Outras empresas da cadeia de semicondutores testemunham valorização expressiva. A Intel, por exemplo, avançou 7,6% em 2026. A taiwanesa TSMC, principal fabricante terceirizada de circuitos integrados, subiu 10% no mesmo intervalo. Ambas se beneficiam da necessidade persistente de hardware para atender projetos de IA.
A holandesa ASML, única fornecedora mundial de sistemas de litografia ultravioleta extrema — imprescindíveis para a fabricação dos chips mais sofisticados —, viu suas ações saltarem 15,2% no ano. A consultoria Bernstein revisou a meta de preço da companhia de 800 euros para 1,3 mil euros, indicando potencial de alta de cerca de 24% sobre a cotação observada em 6 de fevereiro. O reajuste reflete a convicção de que a expansão planejada de capacidade fabril para 2026 e 2027 demandará um volume maior das máquinas produzidas pela ASML.
Lucros projetados indicam superciclo para chips de memória
A estimativa de lucros reforça a hipótese de um superciclo. Dados da LSEG apontam que a Samsung pode reportar aumento de 140% no lucro operacional referente ao último trimestre de 2025. A Micron, por seu lado, projeta crescimento superior a 400% no lucro por ação quando comparado ao mesmo período de 2024. Essa expectativa sólida sustenta novas entradas de capital, elevando ainda mais as cotações.
Em paralelo, declarações recentes da SK Hynix sugerem a possibilidade de um superciclo específico para a memória de alta largura de banda (HBM). Analistas interpretam os comentários como evidência de que o movimento não se limitará a uma recuperação temporária pós-crise, mas sim a uma tendência estrutural associada à expansão contínua da infraestrutura de IA.
Expansão de capacidade e papel crítico da ASML
Para acomodar a procura, fabricantes planejam ampliar linhas de produção entre 2026 e 2027, prioritariamente voltadas para chips de memória. Esse esforço depende de equipamentos de litografia avançada, segmento em que a ASML detém posição dominante. Os analistas da Bernstein destacam que o fornecedor holandês “tem tudo para se beneficiar enormemente” dessa expansão, especialmente se concretizado o próximo superciclo de DRAM.
Sem as máquinas da ASML, produzir nós de memória avançados seria inviável, o que torna a companhia peça estratégica na resposta à escassez global. Dessa forma, qualquer aumento na capacidade de Samsung, SK Hynix ou Micron tende a refletir diretamente na carteira de pedidos da empresa europeia.
O reajuste na meta de preço da ASML para 1,3 mil euros — equivalente a cerca de R$ 8,1 mil — representa potencial de valorização de aproximadamente 24% em relação ao valor negociado na terça-feira, 6, sinalizando a confiança de que o cenário favorável aos chips de memória deve perdurar.

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