Endividamento dos Idosos no RS: 23% Comprometem a Renda e Recorrem a Empréstimos Consignados

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O endividamento dos idosos no RS alcançou um patamar que chama a atenção de especialistas e órgãos de defesa do consumidor. Levantamento do Serasa revela que 23% dos gaúchos com mais de 60 anos mantêm pendências financeiras, cenário que pressiona aposentados e pensionistas a buscarem alternativas de crédito para cobrir despesas essenciais.
- Panorama do endividamento dos idosos no RS
- Quem são os 23% de idosos endividados no RS
- Como o crédito consignado aprofunda o endividamento dos idosos no RS
- Três perfis de endividamento identificados
- Caminhos legais para idosos endividados no RS repactuarem dívidas
- Demandas por orientação e políticas públicas
Panorama do endividamento dos idosos no RS
O dado de que quase um quarto da população idosa do Rio Grande do Sul carrega dívidas mostra, de forma objetiva, a extensão do problema. A pesquisa do Serasa, que mensurou a inadimplência entre essa faixa etária, confirma a percepção cotidiana de instituições públicas e entidades de classe: a renda proveniente de aposentadorias e pensões não tem sido suficiente para acomodar custos básicos de moradia, alimentação e medicamentos.
Com valores mensais considerados baixos pelos próprios beneficiários, muitos recorrem a modalidades de crédito com desconto direto em folha, principalmente o empréstimo consignado. Entre janeiro e 31 de dezembro do último ano, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) liberou R$ 800 milhões em consignados no estado, reforçando a dimensão do recurso como complemento de renda.
Quem são os 23% de idosos endividados no RS
Relatos de aposentados que buscam crédito ajudam a ilustrar as circunstâncias que levam à dívida. Há casos de famílias que dependem do benefício de um único idoso para sustentar mais de uma geração, como filhos e netos que dividem o mesmo teto e as mesmas contas. Nesses lares, o valor da aposentadoria, já fixo, precisa cobrir aluguel, alimentação e despesas imprevistas, ampliando a dificuldade de fechar o mês.
O fluxo de entrada e saída de recursos nesses orçamentos é muitas vezes restrito. Assim que o pagamento é depositado, parcelas de empréstimos já contraídos são imediatamente abatidas, reduzindo o valor disponível para os demais gastos. Quando a quantia remanescente não supre as necessidades mínimas, o ciclo se reinicia com a procura por novo crédito, situação descrita por moradores que recorrem inclusive ao cheque especial.
Como o crédito consignado aprofunda o endividamento dos idosos no RS
A atratividade do consignado reside em taxas menores quando comparadas a linhas de crédito tradicionais, fator reconhecido pelo representante do INSS ouvido na reportagem. No entanto, apesar do custo aparentemente mais baixo, o desconto feito diretamente do benefício diminui, a cada novo contrato, a liquidez disponível para despesas imediatas.
Outro ponto sensível é a chamada violência financeira. Autoridades alertam que familiares podem utilizar o nome do aposentado para contrair empréstimos, transferindo para ele todo o encargo da dívida. Como consequência, idosos se veem obrigados a arcar com prestações que não contraíram para uso próprio, agravando a vulnerabilidade econômica.
Para amenizar o impacto, alguns beneficiários buscam renda extra em atividades informais, como pequenos serviços de jardinagem ou manutenção. Embora esses trabalhos acrescentem algum recurso, o esforço nem sempre cobre o valor já comprometido em parcelas, mantendo o orçamento em limite crítico.
Três perfis de endividamento identificados
A Defensoria Pública categorizou o problema em três grupos, com base em atendimentos prestados:
1. Vítimas de descontos indevidos: beneficiários que sofrem com golpes ou autorizações de débito não reconhecidas. A perda financeira ocorre antes mesmo de o dinheiro chegar às mãos do aposentado.
2. Contratantes de empréstimos com juros considerados abusivos: consumidores que firmam acordos sem plena ciência do custo efetivo total, descobrindo depois que as condições superam o previsto.
3. Superendividados: pessoas que já comprometem a maior parte da renda em contratos anteriores e não conseguem custear despesas fundamentais.
Para o terceiro grupo, a defensora pública responsável pelos casos destaca a aplicação da lei do superendividamento. O dispositivo jurídico permite convocar todos os credores e propor um plano de pagamento coletivo, com prazo máximo de cinco anos. A renegociação tenta restabelecer condições mínimas de subsistência ao aposentado, preservando parte da renda para itens essenciais.
Caminhos legais para idosos endividados no RS repactuarem dívidas
Além da mediação da Defensoria Pública, a legislação vigente oferece instrumentos que podem ser acionados para conter abusos. Um deles é a suspensão de cobranças que resultem em retenção de quase toda a renda do beneficiário, hipótese que fere o princípio da dignidade humana. Outra medida é a revisão de contratos quando demonstrado desequilíbrio significativo entre as partes.
Na prática, a convocação dos credores, mencionada por especialistas, tem o objetivo de unificar débitos dispersos em um único acordo, facilitando o controle financeiro. Com um plano de pagamentos, o idoso visualiza o término das obrigações e evita contratar novos financiamentos para cobrir parcelas antigas, estratégia recomendada contra o círculo vicioso do endividamento contínuo.
Demandas por orientação e políticas públicas
Para a Federação dos Trabalhadores Aposentados e Pensionistas do Rio Grande do Sul (Fetapergs), falta aos beneficiários treinamento específico sobre administração de renda antes e depois do ato de se aposentar. A entidade critica a ausência de programas permanentes de educação financeira direcionados a quem vive de proventos fixos.
Sem iniciativas de formação contínua, muitos idosos se surpreendem com a redução de renda na passagem da vida laboral para a aposentadoria. O impacto fica evidente quando comparado ao aumento do custo de vida, sobretudo em itens que registram reajustes superiores à inflação, como medicamentos, apontados por entrevistados como despesa relevante.
A frustração expressa por aposentados de 60 anos ou mais resume a expectativa de descanso que não se concretiza. Ao constatarem que o benefício previdenciário não cobre compras básicas de supermercado, os idosos percebem a necessidade de permanecer ativos no mercado ou recorrer a empréstimos. O quadro reforça a importância de políticas públicas que estimulem tanto a educação financeira quanto a criação de mecanismos de renda complementar.
Enquanto a execução de programas governamentais de orientação não avança, o sistema de crédito consignado permanece como principal canal de socorro para quem precisa pagar contas imediatas. Até que novas medidas de prevenção e renegociação se consolidem, o número de idosos endividados no RS segue representando 23% da população acima de 60 anos, segundo o Serasa.

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