Chuva, frevo e madrugada: como o carnaval do Recife no Marco Zero venceu o relógio e consagrou 20 anos do Orquestrão

Chuva, frevo e madrugada: como o carnaval do Recife no Marco Zero venceu o relógio e consagrou 20 anos do Orquestrão
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O carnaval do Recife encerrou a programação oficial com uma celebração que atravessou a madrugada entre 17 e 18 de fevereiro, no Marco Zero, reunindo milhares de foliões que permaneceram no local mesmo sob chuva forte. A maratona de shows, coroada pelo Orquestrão do Frevo em seu vigésimo ano de apresentações, contou com nomes consagrados da música nordestina e marcou o ponto final de mais uma edição da festa que só volta em 6 de fevereiro de 2027, data do próximo Sábado de Zé Pereira.

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Resistência dos foliões marca o carnaval do Recife no Marco Zero

Quem esteve na praça símbolo da capital pernambucana testemunhou um público determinado a prolongar cada minuto do calendário momesco. A dispersão habitual após a meia-noite não ocorreu: famílias, grupos de amigos e turistas permaneceram concentrados diante do palco principal até por volta das 4h. Mesmo quando a chuva ganhou intensidade às 3h30, guarda-chuvas improvisados, capas plásticas e a própria empolgação coletiva evitaram que o espaço se esvaziasse. Esse comportamento reforça uma característica histórica do carnaval do Recife: a valorização do encontro popular no espaço público, independentemente das condições climáticas.

Foliões como o designer Paulo Sérgio expressaram tristeza pela despedida, enquanto outros, a exemplo de Tiago Pereira, exibiam estandartes e bandeiras de Pernambuco para enfatizar o orgulho cultural. O cenário de emoção mista — nostalgia pela partida do carnaval e satisfação por vivenciar a derradeira noite — tornou-se um retrato sociocultural recorrente na Quarta-feira de Cinzas recifense.

Orquestrão do Frevo celebra 20 anos de história no carnaval do Recife

Ponto alto da madrugada, o Orquestrão do Frevo comemorou duas décadas de atuação contínua no Marco Zero. Criado e conduzido pelo Maestro Spok, saxofonista com carreira reconhecida nas principais capitais brasileiras e também no exterior, o grupo reúne dezenas de instrumentistas em uma formação sinfônica dedicada ao ritmo que compõe a identidade sonora de Pernambuco. Ao completar vinte anos, o projeto recebeu convidados que ajudaram a escrever capítulos fundamentais da tradição: os maestros Duda e Edson Rodrigues, além de artistas como Lucy Alves e a banda Som da Terra.

O repertório manteve o frevo como fio condutor, reforçando o compromisso do Orquestrão em preservar e atualizar o gênero. A química entre músicos veteranos e novos talentos colabora para o frescor das releituras, ao mesmo tempo em que consolida a prática do frevo como manifestação coletiva. Para o Maestro Spok, a longevidade do formato confirma a relevância pedagógica da orquestra, pois gera experiências de palco para jovens instrumentistas e assegura que o ritmo chegue a públicos diversificados.

Performances de Alceu Valença e Elba Ramalho elevam o carnaval do Recife

Antes do Orquestrão tomar a cena, dois nomes de projeção nacional conduziram shows que provocaram coro uníssono entre os presentes. Alceu Valença, cantor e compositor nascido em São Bento do Una, subiu ao palco pouco depois da 1h. O artista — cuja discografia inclui hinos como “Anunciação” e “La Belle de Jour” — transformou a praça em um grande canto compartilhado. Ao convocar o público para o frevo, Alceu reiterou a afinidade histórica com o gênero que sempre permeou suas composições, mesmo quando transitou por rock, bossa e MPB.

Na sequência, a paraibana Elba Ramalho apresentou um mosaico de ritmos que dialogam com sua trajetória de mais de quatro décadas. Além de clássicos carnavalescos como “Frevo Mulher” — composta por Zé Ramalho e imortalizada na voz da cantora — Elba homenageou ícones da música brasileira, entre eles Jorge Ben Jor, Tim Maia e O Rappa. O gesto ilustrou a versatilidade da artista, conhecida por incorporar forró, xote e pop em seus discos premiados com certificados de ouro e indicações ao Grammy Latino.

O line-up do encerramento contou ainda com Nena Queiroga, vocalista pernambucana que há anos enriquece a programação oficial do carnaval, e Geraldo Azevedo, conterrâneo de Petrolina, cujas baladas intimistas e influência na cena folk nordestina trouxeram momentos de respiro poético durante a noite.

Encontro de Maracatus reforça diversidade cultural durante o carnaval do Recife

O último dia de apresentações foi aberto pelo Encontro de Maracatus de Baque Solto, reunião que em 2024 trouxe 11 nações para o Marco Zero. Integrado por grupos como Piaba de Ouro, Cambindinha, Leão do Norte e Leão Vencedor, o evento evidencia a herança afro-indígena presente no estado. Diferentemente do maracatu de baque virado — caracterizado por cortejos que representam corte real — o baque solto, também chamado rural, tem nos caboclos-de-lança sua maior expressão. Essas figuras simbólicas, adornadas com lanças coloridas e chapéus cravejados de espelhos, dançam ao som de loas que narram feitos míticos.

Ao inserir o Encontro na programação principal, o carnaval do Recife reforça o papel do maracatu como pilar de resistência cultural. A presença de 11 nações em 2024 indica vitalidade do segmento, que se renova anualmente sem perder o vínculo com comunidades rurais da Zona da Mata e do Agreste. A manutenção desse espaço ajuda a difundir entre turistas o entendimento de que a folia pernambucana se estende para além do frevo, abrangendo expressões seculares que dialogam com questões de identidade, memória e pertencimento.

Chuva, fogos e frevo: bastidores da madrugada final no Marco Zero

Às 2h30, o Maestro Spok assumiu o comando do palco para anunciar que a música seguiria até o amanhecer. Esse cronograma, tradicional na Quarta-feira de Cinzas recifense, cria uma atmosfera semelhante a uma virada de ano. E não faltou simbolismo: fogos de artifício iluminaram o início do set do Orquestrão, estabelecendo paralelos com a celebração de Réveillon. O momento marcou a transição entre o clima carnavalesco e o retorno à rotina, sensação compartilhada pelas famílias que levaram crianças ao evento, como a professora Rosemary Mendes, que levou o filho Yan, de 11 anos, para vivenciar a festa.

A logística da produção também chama atenção. Manter a estrutura de som e iluminação funcionando durante uma tempestade repentina exige protocolos de segurança rígidos. Equipes técnicas isolaram pontos vulneráveis e monitoraram cabos para evitar panes. O planejamento inclui roteiros de escoamento de água e tendas de apoio, o que tornou possível a continuidade dos shows mesmo com o palco encharcado. Essa eficiência operacional sustenta a reputação do Marco Zero como espaço adaptado a grandes concentrações, balizando futuras edições do carnaval.

Próximo encontro confirmado para 6 de fevereiro de 2027

Após a marcha final do Maestro Spok em direção ao público, o cronômetro simbólico do calendário carnavalesco iniciou nova contagem regressiva. O próximo Sábado de Zé Pereira, marco de abertura da folia, cairá em 6 de fevereiro de 2027. Até lá, a Secretaria de Cultura do Recife e artistas locais costumam promover eventos preparatórios, como as prévias de bairro e ensaios de maracatu, que mantêm viva a expectativa do retorno dos clarins do frevo ao centro histórico.

Enquanto isso, o registro de uma noite em que chuva e cansaço perderam força diante da música consolida o episódio como mais um capítulo de resistência cultural. O encerramento de 2024 reafirma o protagonismo do carnaval do Recife na cena nacional, sustentado por artistas com carreiras consolidadas, pelo vigor do frevo e pela participação popular que transforma a praça do Marco Zero em um palco aberto de celebração coletiva.

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