Disputa por ‘Cavalo na Paisagem’ de US$ 36 milhões expõe impasse entre herdeiros de refugiado e Museu Folkwang

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O quadro Cavalo na Paisagem, avaliado em 36 milhões de dólares, está no centro de uma contenda que já se estende por quase duas décadas entre os herdeiros do banqueiro judeu Hugo Simon e o Museu Folkwang, em Essen. A discussão gira em torno da propriedade legítima da obra assinada por Franz Marc, cuja trajetória entre o final dos anos 1930 e o início dos anos 1950 permanece sem registro conclusivo.
- Origem de ‘Cavalo na Paisagem’ e ligação com Hugo Simon
- A fuga de Hugo Simon e o destino incerto da obra
- Como a pintura ‘Cavalo na Paisagem’ chegou ao Museu Folkwang
- Argumentos dos herdeiros e as exigências de restituição
- Posicionamento do Museu Folkwang sobre ‘Cavalo na Paisagem’
- Pesquisas de proveniência em andamento e próximos passos
Origem de ‘Cavalo na Paisagem’ e ligação com Hugo Simon
Hugo Simon, banqueiro estabelecido em Berlim, figurava como dono indiscutível de Cavalo na Paisagem quando deixou a Alemanha semanas após a ascensão nazista em 1933. Naquele momento, o colecionador detinha diversas pinturas de valor, incluindo a obra de Franz Marc. Dois anos depois da fuga inicial, Simon enviou a tela ao genro que residia no sul da França, preservando assim a posse familiar. Documentos de 1938 ainda apontavam Simon como proprietário quando organizadores de exposições sobre arte alemã do século XX listaram a pintura para possíveis mostras em Londres e Paris.
A fuga de Hugo Simon e o destino incerto da obra
Com o avanço da perseguição nazista, Simon e a esposa Gertrud atravessaram sucessivas rotas de exílio. Após o exército alemão ocupar Paris em 1940, o casal se deslocou ao sul da França, prosseguiu clandestinamente até Portugal e, finalmente, embarcou para o Brasil. Já em território brasileiro, Simon não conseguiu regularizar a situação migratória e, por certo período, viveu escondido em Barbacena, onde sobreviveu criando bicho-da-seda. Ele faleceu em 1950, sem que a família recuperasse a pintura. Nesse intervalo, a obra deixara de aparecer em registros públicos; nem exposições nem inventários museológicos informavam o paradeiro da tela.
Como a pintura ‘Cavalo na Paisagem’ chegou ao Museu Folkwang
A ausência de pistas durou até 1953, ano em que o marchand alemão Werner Rusche vendeu Cavalo na Paisagem ao Museu Folkwang, em parceria com Hermann Abels. Rusche comunicou à instituição que adquirira a obra de um colecionador privado no sul da França, alegando “grande dificuldade e trabalho”. No entanto, jamais identificou o vendedor nem explicou como aquele colecionador obtivera a tela. O museu, satisfeito com o relato parcial, incorporou a pintura ao acervo sem documentação adicional. Desde então, a obra permanece exposta em Essen sob a guarda compartilhada da cidade e da Associação do Museu Folkwang.
Argumentos dos herdeiros e as exigências de restituição
Em 2007, a neta de Simon, Nadya Cardoso Denis, contatou o museu solicitando informações sobre Cavalo na Paisagem. Após a morte dela, em 2022, o filho Rafael Cardoso passou a liderar a reivindicação. Os familiares sustentam que, diante da lacuna documental entre 1938 e 1953, a obra só pode ter sido abandonada em circunstâncias de fuga e subsequente saque. Para os herdeiros, o ônus da prova recai sobre o Museu Folkwang, que deveria apresentar evidência formal de transferência de titularidade. Sem tal comprovação, argumentam, a tela deve ser restituída.
Posicionamento do Museu Folkwang sobre ‘Cavalo na Paisagem’
O Museu Folkwang considera insuficientes as evidências disponíveis para renunciar à posse. A instituição e a cidade de Essen já financiaram três estudos externos de proveniência, além de pesquisas internas detalhadas. Segundo a porta-voz Silke Lenz, mesmo com recursos humanos e financeiros expressivos, não foi possível preencher a lacuna entre 1937/1938 e 1953. A advogada Friederike von Brühl, que defende o museu, afirma que, nos termos atuais, não se recomenda a restituição porque persistem dúvidas essenciais. Embora o museu declare abertura para uma “solução justa e imparcial” se surgirem novos elementos que provem perda por perseguição nazista, mantém o quadro.
Pesquisas de proveniência em andamento e próximos passos
O estudo mais recente sobre a proveniência, conduzido pela pesquisadora independente Isabel von Klitzing, permanece em curso e tem conclusão prevista para o fim deste ano. O diretor do museu, Peter Gorschlüter, afirma que ainda existem “pistas promissoras” que podem esclarecer o itinerário da obra. Entre os possíveis caminhos investigados estão arquivos comerciais de marchands ativos na França ocupada, correspondências privadas de colecionadores da época e registros alfandegários pós-guerra. Qualquer documentação que aponte transferência legal de propriedade poderá alterar o cenário; do contrário, a pressão dos herdeiros tende a aumentar.
Neste momento, portanto, todas as atenções se voltam aos resultados da pesquisa de Isabel von Klitzing, cujo desfecho poderá definir o futuro de Cavalo na Paisagem no acervo do Museu Folkwang.

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