Dia de Reis: tradição centenária mobiliza folias e patrimônios culturais em todo o Brasil

Dia de Reis, celebrado anualmente em 6 de janeiro, encerra o ciclo natalino brasileiro com cortejos de cantadores, instrumentos e máscaras que atravessam ruas e comunidades em homenagem aos três reis magos Baltazar, Belchior e Gaspar. A data, de origem lusitana, transformou-se em um extenso mosaico de expressões populares que persistem desde o período colonial e se espalham por diferentes regiões do país.
- Dia de Reis: origem litúrgica e significado cultural
- A Folia de Reis: como o Dia de Reis se manifesta nas ruas
- Geografia das folias: o Dia de Reis em diferentes estados
- Exemplos de celebrações: do Maranhão ao Rio Grande do Norte
- Reconhecimento institucional e proteção patrimonial do Dia de Reis
- Personagens, instrumentos e símbolos que compõem o Dia de Reis
Dia de Reis: origem litúrgica e significado cultural
A comemoração tem raiz na tradição católica que relata a viagem de três reis do Oriente, guiados por uma estrela, até Belém. Segundo a narrativa religiosa, Baltazar, Belchior e Gaspar chegaram ao local de nascimento de Jesus oferecendo ouro, incenso e mirra, representações simbólicas de realeza, imortalidade e espiritualidade. No calendário devocional, o Dia de Reis marca o momento final dos festejos natalinos, iniciados quatro domingos antes de 25 de dezembro. Por esse motivo, presépios, árvores e adornos natalinos são tradicionalmente desmontados na mesma data.
A Folia de Reis: como o Dia de Reis se manifesta nas ruas
A manifestação mais visível da celebração é a Folia de Reis, também chamada de Reisado, Rancho de Reis, Terno de Reis, Guerreiros ou Tiração de Reis, conforme a localidade. Durante o cortejo, músicos com violas, sanfonas, tambores e outros instrumentos percorrem residências entoando louvores relacionados aos reis magos. Integrantes trajam fardas coloridas, máscaras elaboradas e chapéus adornados, enquanto personagens como reis, palhaços, bastiões e o boi interagem com moradores.
O roteiro inclui pedidos de donativos destinados a promessas ou a pessoas em situação de vulnerabilidade, reforçando o caráter solidário que permeia a tradição desde a era colonial. Em muitas localidades, a visita das folias é aguardada como bênção e, em contrapartida, os anfitriões oferecem alimentos ou pequenas contribuições financeiras.
Geografia das folias: o Dia de Reis em diferentes estados
Embora presente em praticamente todas as regiões, a prática ganha destaque no Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste. No Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, grupos percorrem bairros urbanos e zonas rurais com repertórios que mesclam cantos religiosos e toadas regionais. No Nordeste, Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Piauí mantêm variantes que dialogam com outras tradições locais, como o bumba-meu-boi.
O Centro-Oeste também preserva festejos, sobretudo em municípios de Goiás, nos quais o cortejo permanece como parte essencial do calendário comunitário. Dessa forma, o Dia de Reis configura-se como um ponto de convergência cultural que conecta estados distantes a partir de referências comuns, adaptadas a sotaques, instrumentos e ritmos específicos.
Exemplos de celebrações: do Maranhão ao Rio Grande do Norte
Em Caxias, Maranhão, a Praça da Matriz abriga diversos folguedos no dia 6 de janeiro, entre eles Encanto da Terra, Jacar, Reisado Mirim, Encanto dos Corais, Filomena, os Três Reis Magos e Dona Joaninha. Cada grupo apresenta coreografias próprias, reforçando a riqueza plástica do evento.
Na capital potiguar, Natal, o Santuário de Santos Reis concentra atividades desde a madrugada. A liturgia inclui missa de vigília à meia-noite, celebração da alvorada às 6h, missa dos enfermos às 7h, dos peregrinos às 9h e, por fim, a eucaristia de encerramento às 16h, seguida de procissão nas ruas do bairro que leva o mesmo nome dos magos.
No Piauí, Boa Hora promove o 26º Festival de Reisado. A arena do evento recebe grupos como Boi Maravilha, Boi Estrela e Boi Esperança, que se apresentam diante de comissão julgadora em disputa por prêmios em dinheiro. Após as performances, ocorre o ritual da “morte dos bois” nas residências de devotos que cumprem promessas.
Pernambuco realiza folias tanto na capital quanto no interior. No Recife, a tradicional Queima da Lapinha encerra as celebrações natalinas e sinaliza a abertura simbólica do Carnaval. A concentração acontece na Rua Nova, em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares, a partir das 16h.
Reconhecimento institucional e proteção patrimonial do Dia de Reis
O levantamento do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) identificou mais de 1,6 mil grupos ativos em aproximadamente 400 municípios, declarados patrimônio cultural imaterial em 2017. O inventário mineiro destaca, além dos reis magos, devoções ao Divino Espírito Santo, São Sebastião, São Benedito e Nossa Senhora da Conceição, que se estendem para além do ciclo natalino.
No âmbito federal, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registra três processos abertos para reconhecimento: Reisados de Pernambuco; Folias de Reis Fluminenses; e Folias de Reis do Estado de São Paulo. A chancela nacional visa garantir salvaguarda e visibilidade às práticas e aos saberes envolvidos.
Em 2022, Pernambuco concedeu ao seu Reisado o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Estado, resultado de mapeamento conduzido pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). O estudo contemplou Recife, Garanhuns, Maniçoba (Capoeiras), Paranatama, Águas Belas, Arcoverde, Sertânia, Pedra, Petrolina, Santa Maria da Boa Vista, Lagoa Grande e Tacaratu, abrangendo Agreste e Região Metropolitana.
No Rio de Janeiro, pesquisa desenvolvida pelo Iphan em parceria com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) encontrou folias em cidades como Angra dos Reis, Cabo Frio, Paraty, Petrópolis e a capital, entre outras. Em São Paulo, o mapeamento destaca expressões no interior, especificamente nas microrregiões de Ourinhos e Assis. Entre os grupos identificados estão Bandeiras de Santos Reis de Ribeirão Grande, Companhia de Reis Água das Anhumas, Família Faceiros e Faceiros Jr., além da Companhia de Reis Três Ilhas.
Personagens, instrumentos e símbolos que compõem o Dia de Reis
Cada folia apresenta formação que varia conforme a região, mas há elementos recorrentes. Os cantadores lideram o cortejo, seguidos por tocadores de viola, violão, cavaquinho, sanfona e percussão. Palhaços, com máscaras coloridas, garantem o aspecto lúdico e, ao mesmo tempo, cumprem função de proteção simbólica, mantendo a ordem durante a visita às residências. Os bastiões carregam bastões decorados que marcam o compasso das danças.
Os personagens centrais são representações dos próprios reis magos, trajados com coroas e mantos que lembram a iconografia religiosa. Em eventos que incluem o boi, como no Piauí, a figura tem papel dramático importante, participando da encenação que culmina no ritual da morte simbólica do animal, seguido de renascimento ou celebração coletiva.
Os presentes oferecidos aos magos na narrativa bíblica — ouro, incenso e mirra — aparecem em versos e dramatizações, reforçando o simbolismo de realeza, imortalidade e espiritualidade. A entrega de donativos pelas famílias visitadas reproduz, de modo comunitário, o gesto dos reis, mantendo viva a religiosidade popular.
Com festividades que atravessam a madrugada de 5 para 6 de janeiro, cortejos urbanos e rurais ao longo do dia e programações litúrgicas que se estendem até a noite, o Dia de Reis conclui oficialmente os festejos natalinos e, em determinadas localidades, sinaliza a transição para outras agendas festivas, como o Carnaval. Em âmbito institucional, três pedidos de reconhecimento de folias seguem em análise no Departamento de Patrimônio Imaterial do Iphan.

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