Desfile da Grande Rio leva Manguebeat de Pernambuco à Sapucaí e projeta bicampeonato

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O desfile da Grande Rio em 17 de fevereiro, na Marquês de Sapucaí, terá como eixo o Manguebeat, movimento musical surgido nos manguezais do Recife nos anos 1990, e promete unir simbolicamente as lamas do Rio Capibaribe, na capital pernambucana, e do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias. A proposta encerra um amplo diálogo entre cultura, geografia e transformação social, elementos que, segundo os responsáveis pelo enredo “A Nação do Mangue”, convergem para fortalecer a disputa da escola pelo bicampeonato.
- Desfile da Grande Rio: sinopse e conceito “A Nação do Mangue”
- Desfile da Grande Rio e o Manguebeat: raízes na lama criativa de Recife
- Conexões sociais entre Duque de Caxias e o enredo do desfile da Grande Rio
- Preparação musical: bateria leva Manguebeat ao desfile da Grande Rio
- Logística e cronograma do desfile da Grande Rio na Sapucaí
- Entidades e carreiras envolvidas no desfile da Grande Rio
- Expectativa para o bicampeonato e próximos compromissos
Desfile da Grande Rio: sinopse e conceito “A Nação do Mangue”
Concebido pelo carnavalesco Antônio Gonzaga, o enredo parte da metáfora da lama fértil dos manguezais para narrar resistência, criatividade e inclusão. Em seis setores, cinco carros alegóricos e três tripés, o enredo apresentará personalidades recifenses e referências diretas às bandas Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, pilares do Manguebeat. O desfile da Grande Rio, escola sediada em Duque de Caxias, pretende demonstrar como periferias urbanas distantes compartilham desafios e potências culturais semelhantes.
Gonzaga, nascido em 1994, teve a ideia a partir de uma conversa com seu pai, o jornalista e escritor Renato Lemos, autor de uma obra sobre invenções carnavalescas e admirador confesso dos grupos que fundaram o Manguebeat. Seguindo a sinopse assinada em conjunto pelo pai, o carnavalesco afirma que a inexistência prévia de um enredo dedicado a esse movimento reforçou a relevância do tema em 2026.
Desfile da Grande Rio e o Manguebeat: raízes na lama criativa de Recife
O Manguebeat nasceu quando músicos recifenses observaram a imensa biodiversidade dos manguezais banhados pelo Rio Capibaribe. Inspirados por caranguejos, raízes aéreas e águas turvas, artistas como Chico Science, Fred Zero Quatro e seus colegas combinaram guitarras influenciadas por heavy metal e reggae com tambores de maracatu, coco e ciranda. O resultado foi um som híbrido, que ganhou projeção nacional ao final da década de 1990 e reposicionou o Recife no mapa cultural brasileiro.
A lama, símbolo de aparente estagnação, transformou-se em metáfora de fertilidade criativa. Manifestos como “Caranguejos com Cérebro”, redigido em 1992, defendiam que a energia musical seria capaz de revitalizar uma cidade marcada por desigualdades estruturais. A Grande Rio retoma essa lógica para mostrar que, assim como a periferia recifense, a Baixada Fluminense tem potencial cultural latente, apesar das adversidades socioeconômicas.
Conexões sociais entre Duque de Caxias e o enredo do desfile da Grande Rio
O Jardim Gramacho, antigo lixão de Duque de Caxias, abrange extensas áreas de manguezal, tal qual o ambiente em que floresceu o Manguebeat. Ao identificar essa coincidência geográfica, o carnavalesco concluiu que ambas as regiões compartilham trajetórias de marginalização e resistência. No desfile da Grande Rio, o mangue fluminense serve como espelho do mangue pernambucano, reforçando a ideia de uma “nação” que transcende os limites estaduais.
Além do paralelo ambiental, Gonzaga destaca a força dos coletivos periféricos de Caxias, em especial aqueles vinculados à própria escola de samba. Essa ligação confere autenticidade à narrativa, pois o samba-enredo, assinado por Ailson Picanço, Marquinho Paloma, Davison Wendel, Xande Pieroni, Marcelo Moraes e Guga Martins, exalta trabalhadores que vivem da coleta de resíduos nas marés, tema corrente na Baixada Fluminense.
Preparação musical: bateria leva Manguebeat ao desfile da Grande Rio
O mestre de bateria Fabrício Machado de Lima, conhecido como Mestre Fafá, coordena 270 ritmistas incumbidos de traduzir sonoramente as fusões do Manguebeat. A cozinha da escola apresentará surdos de primeira, segunda e terceira, caixas, repiques, agogôs, chocalhos e tamborins em arranjos que dialogam com frevo e maracatu, além de remeter às experimentações conduzidas por Chico Science na década de 1990.
Para incorporar a estética mangue, a própria ala da bateria vestirá fantasias que homenageiam o bloco afro Lamento Negro, coletivo do bairro olindense na divisa com Recife que teria contado com o apoio de Chico Science em sua fundação. A ambientação visual, somada às batidas sincopadas, busca criar, na Avenida, a mesma atmosfera híbrida que marcou a gênese do movimento musical.
Logística e cronograma do desfile da Grande Rio na Sapucaí
O desfile da Grande Rio será a penúltima apresentação da terceira noite de disputas do Grupo Especial, marcada para a terça-feira, 17 de fevereiro. A ordem completa da data inclui Paraíso do Tuiuti, Unidos de Vila Isabel, Grande Rio e, fechando os trabalhos, Acadêmicos do Salgueiro. A escolha da posição tende a favorecer a escola caxiense, que poderá aproveitar o clima de expectativa acumulado ao longo dos dois primeiros dias de apresentações.
Para suportar a complexidade do enredo, a comissão de carnaval da Grande Rio dividiu o espetáculo em seis blocos temáticos. Cada setor abordará um recorte do Manguebeat: origem natural do manguezal, efervescência cultural do Recife, manifesto de resistência, expansão estética, conexão com Duque de Caxias e celebração da “nação do mangue” como metáfora inclusiva. Os cinco carros alegóricos devem ilustrar, entre outros elementos, crustáceos gigantes, tambores ancestrais e guitarras estilizadas, sempre sob forte paleta de cores quentes.
Entidades e carreiras envolvidas no desfile da Grande Rio
Antônio Gonzaga, apesar da juventude, já possui histórico de desenvolvimento de enredos voltados a temáticas sociais. O suporte de Renato Lemos, pesquisador de carnaval e autor de “Inventores do Carnaval”, confere profundidade documental à sinopse. Na esfera musical, Chico Science & Nação Zumbi despontaram no álbum “Da Lama ao Caos” (1994) – referência presente no título do enredo – enquanto Mundo Livre S/A lançou “Samba Esquema Noise” (1994), ambos marcos para a crítica cultural dos anos 1990. Esses antecedentes consolidam a legitimidade artística do projeto na Marquês de Sapucaí.
No núcleo rítmico, Mestre Fafá comanda a bateria da Grande Rio desde 2020, período no qual a escola conquistou regularidade técnica. A integração de frevo e maracatu já vinha sendo testada em oficinas internas, tornando-se agora peça central do espetáculo. A letra do samba reforça o pertencimento dos sambistas ao retratar a figura do “caranguejo” que labuta à beira de igarapés, expressão que remete tanto ao catador de mariscos recifense quanto ao trabalhador que recolhe resíduos nas margens da Baixada.
Expectativa para o bicampeonato e próximos compromissos
Em 2025, a Grande Rio alcançou o topo da tabela do Grupo Especial – dado que sustenta a meta de bicampeonato em 2026. A diretoria aposta no enredo inédito sobre o Manguebeat para repetir o desempenho e, dessa vez, projetar a escola como ponte cultural entre o Norte / Nordeste e o Sudeste. Caso obtenha sucesso, a agremiação consolidará Duque de Caxias como polo de inovação temática no carnaval carioca.
Após o desfile da Grande Rio, o calendário do Grupo Especial prosseguirá com a apuração dos resultados em data imediatamente posterior ao encerramento dos desfiles. A comunidade da escola e o público em geral aguardam, portanto, a leitura das notas que definirá se “A Nação do Mangue” garantirá a permanência da coroa na Baixada Fluminense.
Próximo evento a observar: apuração oficial dos jurados, que ocorrerá logo após o término dos desfiles na Marquês de Sapucaí.

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