Descoberta de cremação mais antiga da África revela ritual singular de 9.500 anos no Malawi

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cremação mais antiga da África acaba de ser confirmada por arqueólogos que escavaram o sítio Hora 1, no Monte Hora, no norte do Malawi. A partir de restos ósseos carbonizados, a equipa de pesquisa concluiu que um grupo de caçadores-coletores realizou, há aproximadamente 9.500 anos, um ritual funerário intencional envolvendo a queima completa do corpo de uma mulher adulta cuja cabeça foi removida antes da cerimônia.
- Contexto arqueológico da cremação mais antiga da África
- Detalhes do esqueleto sem cabeça e do local Hora 1
- Construção da pira funerária e operação da cremação mais antiga da África
- Comparação com outros registros de cremação mais antiga na África e no mundo
- Significado social e continuidade de uso do Monte Hora
- Processo analítico e técnicas empregadas
- Repercussões para o estudo dos rituais funerários pré-históricos
Contexto arqueológico da cremação mais antiga da África
O Monte Hora é uma elevação rochosa próxima ao Lago Malawi, região onde comunidades de caçadores-coletores da Idade da Pedra estabeleceram acampamentos sazonais por milênios. Até a presente descoberta, as evidências funerárias locais incluíam sepultamentos convencionais, mas nenhuma indicação clara de cremação deliberada. A nova análise, publicada na revista científica Science Advances, redefine esse cenário ao demonstrar que, já no Holoceno inicial, práticas complexas estavam em vigor na área.
Os pesquisadores sublinham que rituais que envolvem queima de cadáveres demandam esforços logísticos consideráveis: coleta de lenha, preparação de uma pira estável e manutenção de calor elevado por tempo suficiente para consumir tecidos e ossos. Em sociedades que dependiam amplamente da caça e da coleta, a alocação de energia e recursos para tal procedimento era vista como improvável. Por isso, a confirmação de uma cremação intencional datada de 9.500 anos constitui um marco para o entendimento dos comportamentos simbólicos desses grupos.
Detalhes do esqueleto sem cabeça e do local Hora 1
No ponto de escavação identificado como Hora 1, as equipes localizaram fragmentos de ossos humanos dispersos entre camadas de cinza e carvão vegetal. A análise anatômica indicou que pertenciam a uma única mulher adulta, de baixa estatura, com altura estimada entre 1,45 m e 1,55 m. Todos os fragmentos estavam parcialmente vitrificados, sinal de exposição prolongada a temperaturas altas.
A ausência completa de dentes e ossos cranianos chamou a atenção dos especialistas. Crânios tendem a preservar-se melhor em eventos de queima, pois a caixa craniana protege estruturas internas contra fragmentação. A hipótese apresentada é que a cabeça tenha sido separada do corpo antes da colocação na pira. Contudo, até o momento, o destino do crânio permanece desconhecido, visto que nenhum indício dele foi encontrado no sítio.
Outro aspecto incomum foi a possível remoção de tecidos moles antes do funeral. Pequenas marcas nas superfícies ósseas sugerem a raspagem de carne, indício de que o corpo pode ter sido esfolado ou parcialmente de-fleshed previamente. Tal preparação reforça o caráter ritualizado do evento, diferindo de incinerações incidentais causadas por incêndios naturais.
Construção da pira funerária e operação da cremação mais antiga da África
A investigação sedimentar apontou a presença de aproximadamente 30 quilos de madeira misturada a capim seco compactados numa estrutura circular. Esse volume de combustível seria suficiente para manter chamas intensas por várias horas, requisito para a calcinação completa de ossos adultos. As amostras de carvão indicam que espécies arbóreas locais foram selecionadas, possivelmente pela capacidade de gerar calor elevado.
Os restos foram encontrados exatamente sobre a camada de lenha queimada, evidência de que a pira foi construída “in situ” e não deslocada após o fogo. Essa configuração representa a mais antiga pira funerária de adulto identificada no registro arqueológico mundial. Comparativamente, o exemplo mais antigo conhecido até então ficava no Alasca, com 11.500 anos, mas envolvia restos de uma criança.
A cronologia foi estabelecida por datação por radiocarbono aplicada tanto aos ossos quanto ao carvão vegetal. Os resultados convergiram para cerca de 9.500 anos, reforçando a confiabilidade da estimativa. Essa idade coloca o evento na fase final do período Mesolítico africano.
Comparação com outros registros de cremação mais antiga na África e no mundo
Antes da evidência do Malawi, o exemplo africano mais antigo de restos humanos queimados vinha do Egito e tinha idade aproximada de 7.500 anos. No entanto, não havia pira associada, de modo que os pesquisadores não podiam afirmar se houve intenção ritual. No Quênia, práticas de cremação só se encontram documentadas a partir de 3.300 anos atrás, já em comunidades pastorais do Neolítico tardio. Isso torna a cremação do Monte Hora a mais remota do continente e preenche uma lacuna temporal de mais de 6.000 anos entre o Holoceno inicial e o Neolítico.
Em escala global, a cremação possui registros esporádicos durante o Pleistoceno e o Holoceno inicial, mas com baixa frequência, sobretudo entre sociedades de subsistência móvel. O custo energético e o tempo investido são apontados como fatores limitantes. Assim, o caso de Hora 1 não apenas amplia o mapa cronológico da prática, como desafia a noção de que grupos caçadores-coletores evitavam rituais laboriosos.
A pesquisa sustenta que o investimento em lenha, preparação da pira e retirada do crânio indica a importância social da mulher cremada. A conclusão decorre do contraste entre a exigência de trabalho coletivo e a raridade do procedimento em contextos equivalentes. Embora inexistam indícios diretos da posição que ela ocupava, a hipótese de status elevado é considerada plausível dentro dos limites dos dados.
Pós-cremação, o sítio continuou ativo por séculos. Camadas de cinzas subsequentes mostram que grandes fogueiras foram acesas repetidas vezes no mesmo local, porém sem novos funerais. Os autores da investigação sugerem que essas fogueiras secundárias podem ter funcionado como cerimônias comemorativas, reforçando a memória do evento original. Essa reutilização prolongada demonstra que o Monte Hora adquiriu significado simbólico duradouro para a comunidade.
Processo analítico e técnicas empregadas
Para confirmar a identidade biológica e a integridade do conjunto ósseo, a equipe realizou análises microscópicas de coloração térmica nos fragmentos. A variação de tons negro, cinza e branco indicou temperaturas superiores a 700 °C, compatíveis com a combustão em pira aberta. Além disso, a distribuição dos fragmentos corroborou a hipótese de que o corpo estava posicionado sobre a madeira e não enterrado previamente.
A classificação sexual foi possível por meio de métricas de ossos longos preservados. A estatura estimada pela medida do fêmur situa a mulher na faixa baixa, coerente com padrões populacionais regionais do Holoceno. Nenhuma patologia marcante foi observada, o que impede deduzir causa de morte.
Repercussões para o estudo dos rituais funerários pré-históricos
A cremação mais antiga da África revelada no Malawi acrescenta evidências de que a diversidade de rituais mortuários entre caçadores-coletores é maior do que supunha a literatura. A prática demonstra planejamento comunitário, manipulação específica do cadáver e seleção de matéria-prima, elementos típicos de sociedades com tradições simbólicas complexas.
Com base na cronologia estabelecida, os pesquisadores defendem que discussões sobre evolução cultural precisam incorporar cenários de colaboração intensiva muito antes do advento da agricultura. Esse achado, portanto, reorienta investigações sobre organização social no início do Holoceno e cria novas perguntas a respeito de mobilidade, gestão de recursos e transmissão de memória coletiva.
As escavações permanecem ativas no Monte Hora, e as próximas etapas incluem a procura de vestígios do crânio removido e de eventuais artefatos associados ao ritual, itens que podem aprofundar a compreensão sobre o significado pleno dessa cremação de 9.500 anos.

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