Danielle Winits desafia estereótipos em monólogo ambientado num lixão futurista sobre consumismo e alienígenas

Danielle Winits desafia estereótipos em monólogo ambientado num lixão futurista sobre consumismo e alienígenas
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Danielle Winits está de volta aos palcos paulistanos com “Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente”, primeiro monólogo de sua carreira, em cartaz no Teatro FAAP. A atriz incorpora Trudy, uma catadora que perambula por um lixão a céu aberto e insiste em enxergar evidências de visitantes extraterrestres enquanto questiona os excessos da sociedade de consumo e da era digital.

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Danielle Winits assume personagem oposta aos papéis que a consagraram

Ao longo de três décadas na televisão, Danielle Winits ficou marcada por personagens glamorosas, como as modelos de “Sex Appeal” e “Corpo Dourado”, produções da TV Globo em que a beleza era instrumento de poder. A atriz, porém, vem procurando romper expectativas e declara que “furar bolhas” se tornou parte de sua missão artística. O papel de Trudy—a catadora descabelada e sem maquiagem que vasculha restos de comida, latas amassadas e sacolas de lixo—vai na direção oposta à imagem de sensualidade que a consagrou.

Trudy não apenas abandona o visual reluzente; ela também carrega um passado corporativo. Antes de trocar a consultoria criativa em marketing por vida errante num “fim de mundo”, a personagem orbitava os mesmos ambientes materialistas que agora repudia. A mudança brusca de cenário permite que Winits explore fragilidades humanas, ironize o culto à aparência e reflita sobre as pressões impostas principalmente às mulheres quanto à perfeição física.

Enredo de “Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente” expõe um lixão pós-consumo

O ambiente concebido para a encenação é apresentado como o resultado extremo do consumo em massa. Sobre o palco, não há móveis elegantes nem projeções de metrópoles cintilantes; apenas resíduos. Essa paisagem sugere que a civilização produziu, descartou e finalmente transformou a própria casa num depósito global de sobras. É nesse território hostil que Trudy conversa, devaneia e constrói analogias entre alienígenas e usuários de redes sociais.

A montagem, inspirada em texto de 1985 da dramaturga norte-americana Jane Wagner, condensa várias figuras do original numa só voz. A adaptação recorre a efeitos de luz, canções e referências visuais que vão de Andy Warhol a emojis populares, para tensionar a fronteira entre obra de arte e mercadoria. Ao zombar de influenciadores digitais e plataformas como o Instagram, o espetáculo sugere que as “presenças” invisíveis — sejam alienígenas ou seguidores online — definem comportamentos tanto quanto seres tangíveis.

Gerald Thomas dirige Danielle Winits em montagem repleta de provocação

O comando artístico é de Gerald Thomas, diretor célebre por criações radicais e episódios polêmicos, como a apresentação de “Tristão e Isolda” em 2003, em que exibiu as nádegas diante de um Theatro Municipal do Rio lotado. Sua assinatura continua ligada a excessos cênicos e à recusa de respostas fáceis para o público. Winits afirma que trabalhar com Thomas era um objetivo antigo e que enxerga nele a capacidade de “desmembrar o que foi feito para ser belo o tempo todo”.

Thomas, por sua vez, relata que não conhecia a atriz antes do convite. Após assistir a três cenas eróticas e intensas de Winits na internet, convenceu-se da adequação dela ao projeto. O processo criativo incluiu ensaios presenciais no Brasil e orientação remota de Nova York, onde o diretor acompanhou a fase final por telas, enquanto seu assistente Osni Silva permaneceu em São Paulo.

Provocações conceituais também surgem em falas do diretor fora de cena. Thomas compara a cacofonia de discursos nas redes sociais ao Speaker’s Corner londrino, onde cidadãos bradam convicções múltiplas lado a lado. Para ele, o impulso de “vomitar verdades”, tanto presencial quanto online, alimenta a atmosfera de choque permanente que o espetáculo busca retratar.

Trajetória de Danielle Winits: da TV aos palcos e à produção artística

Muito antes de vasculhar um lixão fictício, Danielle Winits exercia funções de bastidor. Dona da Winits Produções Artísticas, a atriz estreou como produtora em 2006, com “Amo-Te”, texto de Marcelo Rubens Paiva que abordava relacionamentos abusivos. Em seguida, passou a investir em musicais, assumindo papéis como a Bruxa Má do Oeste em “O Mágico de Oz” e participando da versão brasileira de “Meninas Malvadas”. Essas experiências diversificaram seu repertório e reforçaram sua atuação executiva.

Em “Choque!”, a responsabilidade se multiplica porque Winits é também coprodutora. Durante a temporada carioca do ano anterior, ela administrou a bilheteria, cuidou da divulgação e supervisionou detalhes técnicos, tudo enquanto se preparava para ficar sozinha em cena. A artista revela que, mesmo habituada a companhias teatrais numerosas, não experimenta solidão no monólogo, uma vez que luzes, efeitos sonoros e estruturas metálicas “preenchem” o espaço ao redor.

Além da faceta empresarial, Winits se dedica a revisitar a própria imagem pública. Ela admite ter recorrido a procedimentos estéticos no passado, mas afirma estar em “eterna construção” e recusar qualquer zona de conforto. O discurso ecoa na dramaturgia: a transformação da personagem Trudy espelha a evolução pessoal da intérprete, que vê na mudança de rota uma forma de abrir caminhos para outras mulheres.

Temas atuais: consumismo, influenciadores e a busca por vida inteligente

O fio condutor da peça é a pergunta que dá título ao espetáculo: há sinais concretos de inteligência no planeta? A partir desse mote, o texto atualiza questionamentos de 1985, relacionando-os à hiperconexão. A menção a Andy Warhol — ícone que transformou itens cotidianos em arte — surge em quadros projetados sobre pilhas de lixo, lembrando que as fronteiras entre conteúdo e produto foram borradas há décadas.

Numa das passagens, enormes vestimentas caem do teto, sugerindo formas alienígenas que se materializam a partir de resíduos. O recurso visual reforça a comparação com perfis digitais: assim como ETs hipotéticos, influenciadores aparecem em flashes, ditam tendências e desaparecem, deixando rastros de consumo.

Para Thomas, o resultado é um retrato de uma sociedade que “constrói o quarto Reich dentro da própria casa”, metáfora que ele usa para ilustrar a ascensão de lideranças autoritárias e a indiferença diante de crises humanas, como as mortes recentes em Minneapolis. Já Winits sustenta que o espetáculo denuncia a distância entre discursos de mudança e ações efetivas, reafirmando que sua “marcha não possui linha de chegada”.

Serviço: onde assistir Danielle Winits no Teatro FAAP

O público de São Paulo pode conferir Danielle Winits em “Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente” no Teatro FAAP, localizado na Rua Alagoas, 903. As sessões ocorrem às sextas e sábados, às 20h, e aos domingos, às 17h, até 29 de março. Os ingressos custam R$ 160, e a classificação indicativa é de 12 anos. O texto original é de Jane Wagner, a direção é de Gerald Thomas e o elenco se resume à própria Winits, que encara seu primeiro solo diante do público.

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