Coqueluche: força-tarefa federal desembarca na Terra Yanomami para conter novos casos e reforçar a vacinação

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O aumento de infecções por coqueluche entre crianças na Terra Indígena Yanomami levou o Governo Federal a deslocar, nesta semana, uma força-tarefa de 50 profissionais de saúde até a base polo de Surucucu, em Roraima. A equipe, formada por servidores do Ministério da Saúde e especialistas em vigilância epidemiológica, atua desde segunda-feira em parceria com o Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Yanomami para conter o avanço da doença, que já soma oito casos confirmados e três óbitos.
- Coqueluche: características da infecção e impacto nas crianças yanomami
- Ação emergencial federal contra a coqueluche na Terra Yanomami
- Estrutura da força-tarefa: profissionais, recursos e integração com o Dsei
- Vacinação: principal barreira contra a coqueluche e evolução dos indicadores
- Contexto sanitário mais amplo: da emergência de 2023 ao reforço de 2026
- Atendimento hospitalar em Boa Vista e evolução clínica dos casos
- Próximas etapas: monitoramento intensificado e metas de vacinação até o fim do semestre
Coqueluche: características da infecção e impacto nas crianças yanomami
A coqueluche é uma infecção respiratória bacteriana causada pela Bordetella pertussis. Altamente contagiosa, manifesta-se inicialmente por crises de tosse seca que podem evoluir para quadros graves de insuficiência respiratória, sobretudo em menores de cinco anos. Na Terra Yanomami, onde as comunidades se distribuem em 376 aldeias de difícil acesso e convivem com histórico de vulnerabilidade sanitária, a doença encontra terreno favorável para disseminação rápida. A confirmação de oito episódios clínicos em curto intervalo acendeu o alerta, levando o Ministério da Saúde a classificar a situação como potencial surto.
Ação emergencial federal contra a coqueluche na Terra Yanomami
O plano de contingência foi articulado após reuniões técnicas entre a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e o Programa de Treinamento em Epidemiologia Aplicada aos Serviços do SUS (EpiSUS). A comitiva enviada a Surucucu reúne médicos, enfermeiros, vacinadores, bioquímicos, técnicos de laboratório e sanitaristas com experiência no manejo de doenças infecciosas em áreas remotas. O deslocamento aéreo foi realizado com apoio logístico do Comando da Aeronáutica, já que o território não possui acesso rodoviário regular.
No local, o grupo reforça dois eixos prioritários: assistência direta aos pacientes e bloqueio epidemiológico. O primeiro engloba triagem clínica, coleta de material para exames laboratoriais e monitoramento domiciliar de pessoas que apresentam sinais precoces. O segundo abrange vacinação de bloqueio nas aldeias adjacentes, rastreamento de contatos próximos e orientação comunitária para reconhecimento imediato dos sintomas.
Estrutura da força-tarefa: profissionais, recursos e integração com o Dsei
Dos 50 integrantes mobilizados, 20 pertencem ao quadro permanente do Dsei Yanomami, enquanto 30 foram convocados em regime temporário pelo Ministério da Saúde. Entre eles há cinco pediatras, quatro infectologistas, três biomédicos, oito enfermeiros vacinadores, dez agentes de vigilância ambiental e vinte auxiliares logísticos. Essa composição visa cobrir toda a cadeia de resposta, do diagnóstico rápido ao transporte de insumos.
Equipamentos como concentradores de oxigênio portátil, kits de coleta de secreção nasofaríngea, antibióticos de primeira linha e 3.000 doses adicionais de vacina tríplice bacteriana (DTP) chegaram no mesmo voo. A base de Surucucu foi equipada, ainda, com teste rápido molecular que reduz de dias para horas o tempo de confirmação laboratorial, fundamental para iniciar tratamento e isolar casos positivos.
Vacinação: principal barreira contra a coqueluche e evolução dos indicadores
A vacinação é considerada a intervenção mais eficaz para interromper a transmissão da coqueluche. No Sistema Único de Saúde, o esquema infantil prevê três doses da DTP aos 2, 4 e 6 meses, reforços aos 15 meses e entre 4 e 6 anos, além da aplicação em gestantes a cada gravidez. Dados do Dsei Yanomami apontam que, entre 2022 e 2025, a cobertura completa em crianças menores de 1 ano subiu de 29,8% para 57,8%. Entre os menores de 5 anos, a taxa passou de aproximadamente 52% para 73%.
Apesar do avanço, especialistas consideram que índices ideais para bloqueio comunitário de doenças respiratórias deveriam superar 90%. A força-tarefa leva em conta essa lacuna para estabelecer metas de curto prazo: vacinar, no mínimo, 95% das crianças ainda desprotegidas em Surucucu e aldeias vizinhas nos próximos 30 dias. Paralelamente, grávidas estão sendo orientadas sobre a importância da dose materna, que confere anticorpos ao bebê nos primeiros meses de vida.
Contexto sanitário mais amplo: da emergência de 2023 ao reforço de 2026
Em 2023, o Governo Federal decretou estado de emergência na Terra Yanomami diante do aumento de desnutrição, malária e óbitos relacionados a doenças evitáveis. A medida desencadeou operação interministerial que interditou garimpos ilegais, ampliou o controle do espaço aéreo e destinou recursos para saneamento básico e construção de unidades de saúde. De lá para cá, o Dsei Yanomami expandiu seu quadro de 690 para 1.855 profissionais, crescimento de 169%, segundo relatórios de 2025.
O resultado foi queda de 27,6% na mortalidade geral da região. Entretanto, lideranças indígenas relatam desafios persistentes, como a necessidade de transporte aéreo regular para doentes graves, formação continuada de agentes de saúde indígena e manutenção de estoque de medicamentos. A atual ocorrência de coqueluche ressalta que surtos podem emergir mesmo com a queda global de óbitos, exigindo vigilância constante.
Atendimento hospitalar em Boa Vista e evolução clínica dos casos
Das oito crianças infectadas, todas foram evacuadas para hospitais de referência em Boa Vista. Duas já receberam alta e retornaram às aldeias após completar o esquema antibiótico. As demais permanecem em observação, com quadro estável e sem necessidade de suporte ventilatório invasivo. Casos suspeitos seguem em investigação; amostras coletadas estão sendo processadas pelo Laboratório Central de Roraima, com prioridade máxima para liberação de resultados.
Profissionais que acompanham os pacientes relatam que a principal complicação tem sido o risco de pneumonia secundária. Para reduzir essa evolução, a equipe hospitalar adota protocolo que combina macrolídeos específicos, fisioterapia respiratória e monitoramento diário de saturação de oxigênio. Pais e cuidadores recebem orientações sobre sinais de alerta e necessidade de retorno imediato em caso de agravamento.
Próximas etapas: monitoramento intensificado e metas de vacinação até o fim do semestre
O Ministério da Saúde estabeleceu cronograma que prevê, até o término do primeiro semestre, três ações sequenciais: completar esquema vacinal de todas as crianças identificadas sem dose recente, treinar 100 agentes de saúde indígena em coleta de amostras para diagnóstico rápido e instalar unidades sentinela de vigilância respiratória em pontos estratégicos da Terra Yanomami. Relatórios quinzenais serão enviados a Brasília para avaliação da curva epidemiológica.
A depender da evolução dos índices de transmissão, uma nova missão poderá ser organizada para abranger comunidades mais distantes de Surucucu. Enquanto isso, as equipes permanentes do Dsei deverão manter a busca ativa por sintomas de coqueluche, consolidar dados de cobertura vacinal em tempo real e garantir o abastecimento de antibióticos essenciais. O objetivo declarado é alcançar, até a próxima temporada chuvosa, cobertura mínima de 90% e nenhum óbito adicional atribuído à doença.

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