Contingência da existência: como encontros aleatórios definem quem somos, explica Luiz Felipe Pondé

Contingência da existência: como encontros aleatórios definem quem somos, explica Luiz Felipe Pondé
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Palavra-chave principal: contingência da existência

O escritor e ensaísta Luiz Felipe Pondé, doutor em filosofia pela USP e autor de “Notas sobre a Esperança e o Desespero” e “A Era do Niilismo”, revisita o tema da contingência da existência ao discutir como fatores fortuitos — do encontro sexual entre dois indivíduos a eventos cósmicos — condicionam a presença de cada pessoa no mundo. O ponto de partida da reflexão parte de um exemplo simples: se a mãe não tivesse mantido relações com o pai naquele momento específico, o indivíduo, tal como é, não teria surgido.

Índice

O que é a contingência da existência

Na análise de Pondé, “contingência” e “fortuna” são termos equivalentes dentro da tradição filosófica. Eles descrevem a variabilidade incontrolável que perpassa a condição humana. A coluna menciona o filósofo húngaro-americano John Kekes, considerado um dos pensadores mais influentes em atividade e autor de obra intitulada “Condição Humana”. Kekes, segundo Pondé, descreve essa dependência estrutural do acaso como traço definidor da vida. Assim, reconhecer a contingência da existência não significa negar margens de ação, mas admitir que nenhuma decisão é tomada fora de um emaranhado de condições dadas.

Da concepção às heranças genéticas: a contingência da existência no nível biológico

A reflexão começa no instante da concepção. Para que um ser humano específico fosse gerado, um espermatozoide determinado — chamado no texto de “A” — precisou encontrar um óvulo igualmente singular — denominado “B”. Se qualquer um desses gametas fosse diferente, outra pessoa, e não a atual, poderia ter resultado dessa união. Essa constatação demonstra que o material genético não é apenas uma herança dos pais, mas o produto de um acontecimento biológico singular, dependente de um momento preciso.

Pondé estende o argumento ao enfatizar que, se a mãe tivesse sentido dor de cabeça, se o pai tivesse ficado preso em um engarrafamento ou se qualquer pequeno contratempo os tivesse impedido de se encontrar, a fertilização teria sido adiada ou sequer ocorreria. A consequência seria a inexistência do indivíduo que hoje reflete sobre o tema. O autor, portanto, aponta para a fragilidade da linha que separa a existência da não existência.

Interferências históricas, geográficas e políticas na contingência da existência

O ensaio não se limita ao âmbito biológico. Após o nascimento, a contingência da existência se amplia por meio de fatores sociais, econômicos, ambientais e políticos. O local onde a pessoa cresce, o regime governamental que vigora e até a ocorrência ou não de conflitos armados integram o rol de variáveis descritas. Viver sob líderes violentos, atravessar guerras ou habitar regiões pacíficas como Dinamarca, Escandinávia ou Nova Zelândia provoca efeitos diferentes sobre a formação de cada ser humano.

Segundo Pondé, países como o Brasil podem incentivar o ceticismo em relação às instituições, enquanto nações como a Dinamarca podem fomentar crença no sistema. Esses cenários não são selecionados pelo indivíduo; decorrem de processos históricos e geográficos anteriores ao seu nascimento. A análise sugere que a compreensão do próprio percurso exige considerar elementos que extrapolam a esfera privada e alcançam o coletivo.

A árvore genealógica e a sucessão infinita de casualidades

Para dimensionar a quantidade de variáveis envolvidas, o texto convida o leitor a percorrer a própria árvore genealógica. Cada ancestral precisou nascer, sobreviver e procriar em condições específicas para que um descendente, séculos depois, viesse a existir. Entre esses eventos, Pondé recorda possibilidades extremas, como a violência sexual em tempos de guerra. Ainda assim, cada acontecimento, por mais trágico, compôs a cadeia de causas que permitiu o surgimento das gerações posteriores.

O raciocínio amplia-se ao reconhecer que, a cada elo da linhagem, multiplicam-se os encontros entre milhões de espermatozoides e milhares de óvulos. A probabilidade estatística de repetir a combinação genética de um indivíduo torna-se praticamente nula, reforçando a noção de singularidade apoiada na contingência da existência.

Destino, temperamento e crença: interpretações possíveis para a contingência da existência

Depois de delinear as variáveis biológicas e socio-históricas, Pondé menciona outros elementos que entram em cena após o nascimento. Irmãos, separações conjugais, a presença de padrastos ou madrastas, situações de violência doméstica e condições econômicas influenciam o desenvolvimento de cada pessoa. O autor recorda a máxima “temperamento é destino”, indicando que traços inatos, uma vez confrontados com o ambiente, orientam escolhas futuras.

Na conclusão da exposição, o filósofo apresenta dois caminhos de interpretação. Quem possui fé religiosa pode atribuir a soma de contingências a uma ação calculada por Deus. Quem prefere perspectivas seculares considerará o resultado simples obra da deusa Fortuna. Em ambos os casos, porém, permanece o fato de que existir ou não existir dependeu de uma rede incontável de ocorrências independentes da vontade individual.

Referência às estatísticas familiares do Censo Demográfico 2022

O texto de Pondé remete ainda a dados sobre famílias e casamento coletados pelo Censo Demográfico 2022. Embora não detalhe números, o autor indica que informações demográficas ajudam a visualizar como arranjos familiares se modificam ao longo do tempo, somando novas camadas à discussão sobre a contingência da existência. Mudanças nos padrões de união, divórcio e constituição de lares, registradas pelo levantamento oficial, ilustram outras variáveis que podem determinar se, quando e em que condições novos indivíduos virão ao mundo.

Por fim, o artigo ressalta que a teia de contingências não se encerra em uma lista finita de fatores. Eventos climáticos, decisões econômicas globais e fenômenos astronômicos, como aqueles que originaram o próprio planeta, também integram a arquitetura que possibilitou cada vida humana. Ao enfatizar essa multiplicidade, Pondé convida o leitor a reconhecer a dependência radical de circunstâncias aparentemente triviais, mas decisivas para a existência de qualquer pessoa.

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