Conceição Evaristo conquista Berlinale, Sapucaí e palco lírico: filme, samba-enredo e ópera evidenciam a força de sua escrita

Conceição Evaristo conquista Berlinale, Sapucaí e palco lírico: filme, samba-enredo e ópera evidenciam a força de sua escrita
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Conceição Evaristo, referência da literatura contemporânea brasileira, vive em 2026 uma sequência rara de celebrações que atravessa cinema, Carnaval e música erudita. Aos 79 anos, a escritora assume o primeiro papel como atriz no longa “Se Eu Fosse Vivo Vivia”, exibido na mostra Panorama do Festival de Berlim; recebe homenagem da escola de samba Império Serrano na Marquês de Sapucaí; e participa da criação de uma ópera sobre a própria trajetória, programada para novembro, quando completará 80 anos.

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Conceição Evaristo estreia como atriz em “Se Eu Fosse Vivo Vivia”

No centro dessa agenda está a participação inédita da autora no filme dirigido pelo mineiro André Novais Oliveira. A produção, gravada há dois anos na cidade de Contagem, coloca Conceição Evaristo na pele de Jacira, uma dona de casa que compartilha rotinas de cumplicidade com o marido Gilberto, vivido por Norberto Novais Oliveira, pai do diretor. A decisão de aceitar o convite surpreendeu a própria escritora, que nunca havia atuado diante das câmeras e manifestou insegurança inicial. Mesmo assim, ela abraçou a proposta após perceber que o método do realizador, conhecido por privilegiar a espontaneidade e selecionar intérpretes sem experiência prévia, criaria um ambiente acolhedor para a estreia.

O enredo acompanha o envelhecimento do casal e intercala cenas cotidianas – como idas ao médico ou conversas domésticas – com elementos inesperados de ficção científica. À medida que Jacira adoece, o roteiro abre uma série de interrogações que envolvem memória e luto, oferecendo espaço para que o público construa suas próprias respostas. Esse aspecto de ambiguidades seduziu a escritora, que costuma lidar com dores e afetos semelhantes em suas narrativas literárias.

Direção de André Novais Oliveira valoriza naturalidade do elenco

A filmografia de André Novais Oliveira é marcada por elencos formados por familiares e amigos, recurso repetido aqui ao escalar o próprio pai como protagonista. Esse procedimento, segundo o diretor, busca eliminar barreiras entre personagem e pessoa, permitindo que gestos simples revelem vínculos profundos. Ao lado de atores não profissionais, Conceição Evaristo experimentou um processo de criação fundamentado na observação do cotidiano, alinhado à forma como ela escreve seus livros. A adaptação da autora ao set passou pelo desafio adicional da caracterização: roupas, penteado e postura que diferiam de sua personalidade real precisaram ser incorporados para dar vida a Jacira. Uma vez superada a estranheza inicial, ela relatou sentir a dor e a ternura da personagem no próprio corpo, numa experiência que ecoa o conceito de “escrevivência” que consagrou sua obra.

A primeira metade do filme se dedica a mostrar pequenos gestos de cuidado mútuo, sem didatismo: basta observar como o casal prepara refeições ou distribui abraços para entender que ali existe amor. A virada dramática surge quando sinais misteriosos afetam Gilberto, incapaz de localizar a esposa ou a própria casa. Para a escritora, esse estado de incerteza permite múltiplas leituras, inclusive a recusa do protagonista em aceitar o destino de Jacira.

Filme apresentado na Berlinale explora memória, luto e ficção científica

Ao integrar a mostra Panorama do Festival de Berlim, “Se Eu Fosse Vivo Vivia” insere-se num circuito internacional que valoriza produções com abordagens autorais. A presença de Conceição Evaristo no elenco amplia o alcance cultural do longa, já que sua literatura é reconhecida por retratar experiências negras no Brasil. No festival, o choque entre a calma das cenas domésticas e a irrupção de situações quase surreais chama a atenção para o modo como a lembrança e a perda moldam subjetividades na terceira idade. Os organizadores destacaram a habilidade do diretor em conduzir temas densos por meio de rotinas simples, estratégia que encontra ressonância na obra da escritora, sempre ancorada no cotidiano, porém aberta a dimensões simbólicas.

O recorte espacial – a cidade de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte – também reforça o compromisso do projeto com narrativas locais. Ao filmar em ruas, consultórios e mercados reais, a equipe sustenta a autenticidade visual que se tornou marca de André Novais. Dentro desse cenário, a escolha de incluir ficção científica funciona como contraponto: fenômenos estranhos surgem sem explicação, sugerindo que a dor do luto pode distorcer a própria percepção da realidade.

Homenagem a Conceição Evaristo no Carnaval do Rio de Janeiro

Paralelamente ao circuito cinematográfico, a autora é celebrada na Marquês de Sapucaí com o enredo “Ponciá Evaristo Flor do Mulungu”, preparado pela Império Serrano para o desfile de sábado de Carnaval. A escola, que compete na Série Ouro e almeja retornar ao Grupo Especial, dedica o espetáculo à trajetória literária da escritora, enfatizando temas de ancestralidade e resistência femininas que atravessam seus livros. Essa é a primeira vez que a vida de Conceição Evaristo estrutura um samba-enredo completo; em 2022, ela já havia aparecido entre vários autores homenageados pela Beija-Flor, mas agora ocupa lugar exclusivo de destaque.

Para a escritora, ver a própria obra transformada em imagens, fantasias e ritmos representa um movimento de ida e volta. Sua escrita nasce nas ruas e no cotidiano de comunidades negras; retornar a esses espaços por meio do samba, um dos pilares da cultura popular brasileira, reafirma a circularidade de seu trabalho. Ela sublinha ainda que o desfile envolve música, dança e performance corporal, aspectos que dialogam com seu compromisso de produzir arte universal sem renunciar às particularidades que a constituem enquanto mulher negra.

Ópera sobre Conceição Evaristo chega aos palcos em novembro de 2026

A celebração culmina na estreia de “Conceição Evaristo – Uma Ópera Escrevivência”, produção do Theatro São Pedro, em São Paulo. O espetáculo tem data marcada para 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, coincidindo com o aniversário de 80 anos da homenageada. Conceição Evaristo colabora diretamente com duas musicistas na elaboração do libreto, reafirmando a intenção de manter fidelidade à sua história. Segundo ela, um dos objetivos centrais é democratizar o acesso: além dos palcos tradicionais de música clássica, a obra deverá circular por espaços periféricos, aproximando-se de públicos que frequentemente permanecem distantes desse gênero artístico.

A escolha do formato lírico amplia a diversidade de linguagens que já reinterpretam a autora. Samba e cinema dialogam com massas populares, enquanto a ópera injeta sua narrativa no repertório erudito. Essa multiplicidade converge para a ideia de que a experiência negra, mesmo forjada em contextos específicos, pode alcançar dimensão universal quando exposta com honestidade. A escritora observa que muitos leitores encontram pontos de identificação em personagens diferentes de si, e esse reconhecimento consolida seu entendimento de arte como exercício de humanidade compartilhada.

A escrita de “escrevivência” ganha novas linguagens artísticas

O termo “escrevivência”, cunhado pela própria autora, norteia suas criações ao privilegiar relatos que emergem de vivências concretas. Em 2026, esse conceito atravessa literalmente três palcos: telas de cinema, avenida do samba e cena operística. Cada suporte oferece uma forma particular de traduzir memórias, dores e afetos contidos nos livros. No filme, o silêncio dos corpos envelhecidos comunica o cuidado entre Jacira e Gilberto; no desfile, o ritmo do samba-enredo associa tambor, canto coletivo e fantasia para evocar ancestralidade; na ópera, a voz treinada dos cantores ampliará nuances emocionais por meio de orquestra. Todas essas apropriações reforçam a tese de Conceição Evaristo de que arte universal nasce quando as singularidades não são apagadas, mas colocadas em diálogo aberto com outras experiências humanas.

Mesmo declarando-se tímida e pouco dada a gestos expansivos, a autora confirma que compartilha com Jacira um traço de introspecção. Tal semelhança facilitou a incorporação do papel cinematográfico, embora o processo de gravação tenha exigido mais exposição física do que a escrita. Ela lembra que, na composição literária, a dor costuma ocorrer internamente; diante das câmeras, porém, cada emoção precisa se manifestar em expressões e movimentos visíveis.

Quanto ao futuro imediato, a agenda permanece ancorada em duas datas. A primeira é o desfile da Império Serrano, que definirá o retorno ou não da escola ao Grupo Especial. A segunda, já confirmada, é a estreia da ópera em 20 de novembro. Esses marcos sintetizam o alcance da obra e da figura pública de Conceição Evaristo, cuja trajetória literária continua a gerar novos desdobramentos artísticos.

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