Como a força das redes sociais impulsiona o Brasil no Oscar, segundo a revista The New Yorker

O termo Brasil no Oscar deixou de ser apenas um desejo recorrente dos cinéfilos locais e passou a descrever, com dados e exemplos concretos, um fenômeno analisado pela revista norte-americana The New Yorker: a mobilização massiva de fãs brasileiros nas redes sociais, decisiva para o destaque de produções como “Ainda Estou Aqui”, vencedor de estatueta na edição passada, e “O Agente Secreto”, candidato que acumula quatro indicações neste ano.
- Brasil no Oscar: a intensidade das torcidas digitais
- Vitória de “Ainda Estou Aqui” reacende o entusiasmo
- “O Agente Secreto” e quatro indicações: nova onda do Brasil no Oscar
- Wagner Moura: rosto emblemático do atual momento
- Da celebração à defesa: o fervor que também rebate críticas
- Brasil no Oscar e a abertura internacional da Academia
- Futebol, “complexo de vira-lata” e a fome de validação externa
- O papel de produtores e críticos na narrativa recente
- Perspectivas imediatas: o que esperar da cerimônia
Brasil no Oscar: a intensidade das torcidas digitais
A reportagem assinada por Michael Schulman parte de uma constatação visível nas transmissões oficiais da Academia: emojis da bandeira verde-amarela inundam chats e comentários sempre que títulos brasileiros aparecem. Esse comportamento, disseminado em plataformas como TikTok, YouTube e X, é descrito pela publicação como um “clima de Copa do Mundo”. O texto lembra que o país figura como o terceiro maior usuário do TikTok — atrás apenas de Estados Unidos e Indonésia — e ressalta a cultura fanática de seus grupos de fãs, que agem de forma coordenada para promover ou defender artistas e filmes nacionais.
Vitória de “Ainda Estou Aqui” reacende o entusiasmo
O ciclo analisado começa com o sucesso de “Ainda Estou Aqui”, longa-metragem que garantiu a primeira estatueta para o país no ano passado. A repercussão da conquista foi catalisada pelo carnaval, período em que foliões incorporaram elementos visuais do filme e espalharam referências nas redes. A celebração foi tão abrangente que a The New Yorker comparou o momento a um grande evento esportivo, elevando o sentimento de orgulho nacional e reforçando o engajamento para ciclos seguintes da premiação.
“O Agente Secreto” e quatro indicações: nova onda do Brasil no Oscar
A temporada atual repete o padrão de mobilização, agora impulsionada por “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. Com quatro nomeações, o título se tornou o foco central da torcida virtual, que novamente tomou as redes no anúncio dos indicados. Schulman descreve que a caixa de comentários foi tomada por ícones da bandeira do Brasil, evidenciando o empenho de usuários para manter o filme em destaque. A repercussão transcendeu o ambiente online: fantasias inspiradas em figuras do longa, como a folclórica “perna cabeluda”, ganharam as ruas durante o carnaval, reforçando a proximidade entre cultura popular e cinema.
Wagner Moura: rosto emblemático do atual momento
Entre os nomes citados pela revista, o ator Wagner Moura aparece como símbolo da ascensão recente do país na premiação. A publicação aponta o artista como um dos grandes destaques da temporada, colocando-o lado a lado com o diretor Kleber Mendonça Filho. Embora o texto se concentre na euforia das redes, o simples destaque dado ao intérprete reforça a tese de que personalidades brasileiras ganham visibilidade proporcional ao impulso proporcionado por seus próprios compatriotas, que inundam timelines, fóruns e transmissões ao vivo em defesa de seus representantes.
Da celebração à defesa: o fervor que também rebate críticas
A mesma energia empregada para promover filmes e artistas brasileiros é canalizada na defesa contra ataques percebidos como injustos. A reportagem recorda dois episódios recentes. O primeiro envolve a atriz Karla Sofía Gascón, associada ao longa “Emilia Pérez”; após sugerir, em entrevista, que a equipe de “Ainda Estou Aqui” tentava prejudicar sua campanha, a artista se tornou alvo de fortes reações virtuais. Internautas brasileiros recuperaram postagens antigas atribuídas a Gascón consideradas ofensivas, ampliando o desgaste em torno de seu nome.
O segundo caso citado inclui o diretor Oliver Laxe, concorrente com “Sirât”. Ao afirmar que “se os brasileiros indicassem um sapato, todos votariam nele”, o cineasta classificou o país como ufanista. A fala gerou críticas expressivas, induzindo Laxe a divulgar pedido de desculpas. Esses episódios ilustram o duplo papel da torcida: celebração intensa de feitos nacionais e prontidão para confrontar comentários depreciativos.
Brasil no Oscar e a abertura internacional da Academia
A análise da The New Yorker contextualiza o avanço brasileiro dentro de um movimento mais amplo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Após a campanha “Oscar So White”, impulsionada por denúncias de falta de diversidade, o corpo votante passou por expansão internacional. Esse redesenho elevou a representatividade de diferentes cinematografias, abrindo espaço para produções fora do eixo norte-americano — cenário no qual filmes brasileiros vêm conquistando atenção renovada.
Futebol, “complexo de vira-lata” e a fome de validação externa
A reportagem traça ainda um paralelo histórico com o futebol dos anos 1950. Naquele período, o escritor Nelson Rodrigues cunhou a expressão “complexo de vira-lata” para descrever a busca incessante por reconhecimento estrangeiro. Segundo Schulman, a lógica se repete no campo cultural: a aclamação internacional funciona como gatilho para que a própria audiência doméstica redescubra e celebre seus artistas. Ao mesmo tempo em que torce por prêmios, o público usa a visibilidade global para reafirmar identidade e competência criativa.
O papel de produtores e críticos na narrativa recente
Além dos fãs, a The New Yorker ouviu profissionais diretamente ligados às obras em destaque. O produtor Rodrigo Teixeira, envolvido em “Ainda Estou Aqui”, aparece no texto como voz que confirma a relevância do engajamento digital oriundo do Brasil. Críticos e jornalistas mencionados reforçam a ideia de que o tráfego nas redes funciona como termômetro para campanhas de premiação, influenciando a percepção de eleitores da Academia e favorecendo a sustentação de buzz midiático até a noite da entrega dos prêmios.
Perspectivas imediatas: o que esperar da cerimônia
Com “O Agente Secreto” concorrendo em quatro categorias e Wagner Moura listado entre os destaques da temporada, a expectativa é de que a participação brasileira continue a atrair olhares até a abertura dos envelopes. A análise da The New Yorker posiciona o país como protagonista de uma nova dinâmica de mobilização virtual, marcada pela combinação de celebração festiva e defesa combativa de seus indicados. A atenção agora se volta para a cerimônia, quando será possível medir o peso efetivo dessa presença digital no resultado final.

Conteúdo Relacionado