Classe dominante brasileira e o controle do Estado: lançamento de “Capitalismo Superindustrial” aprofunda debate sobre desigualdade

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A declaração de que a classe dominante brasileira encara o Estado como uma extensão de seus próprios interesses marcou o lançamento do livro “Capitalismo Superindustrial”, obra em que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reúne estudos sobre economia política iniciados nos anos 1980 e 1990. O evento ocorreu no Sesc 14 Bis, na cidade de São Paulo, e contou com a presença do sociólogo Celso Rocha de Barros e da antropóloga Lilia Schwarcz na mediação da conversa com o autor.
- A classe dominante brasileira e a posse simbólica do Estado
- Contexto histórico: da Lei Áurea à Proclamação da República e o papel da classe dominante
- “Capitalismo Superindustrial”: premissas centrais da nova obra
- Desigualdade estrutural e novas configurações de classe
- Revoluções no Oriente, industrialização acelerada e influência sobre a classe dominante brasileira
- Entidades envolvidas: trajetórias que reforçam a autoridade do debate
- Interação entre política econômica e crítica social
- Perspectivas futuras e próximo passo na divulgação da obra
A classe dominante brasileira e a posse simbólica do Estado
No encontro, Haddad sustentou a tese de que, após a abolição da escravidão, o aparelho estatal foi entregue aos grandes proprietários rurais como forma de compensação econômica. Segundo o ministro, essa transferência informal de poder estabeleceu uma dinâmica em que as elites passaram a considerar a máquina pública como patrimônio privado. A percepção persiste, afirma ele, alimentando resistências sempre que mecanismos institucionais pretendem questionar privilégios ou redistribuir poder.
Para ilustrar o raciocínio, Haddad mencionou que o movimento republicano brasileiro surgiu em 14 de maio de 1888, um dia depois da assinatura da Lei Áurea, e obteve êxito no ano seguinte, reforçando a substituição da antiga aristocracia monárquica por uma nova elite agrária. Na leitura do ministro, a ruptura com a monarquia não significou maior democratização, mas a continuidade do comando oligárquico, agora sob o selo republicano.
Contexto histórico: da Lei Áurea à Proclamação da República e o papel da classe dominante
A narrativa defendida por Haddad destaca o breve intervalo de tempo entre a libertação formal dos escravizados e a proclamação da República. O ministro enxerga esse período como o momento em que as Forças Armadas mediaram um acordo tácito: manter os privilégios da elite agroexportadora enquanto reorganizavam o regime político. Na prática, observa ele, esse pacto conferiu aos fazendeiros influências decisivas sobre órgãos estatais, políticas públicas e diretrizes econômicas.
Tal arranjo contribuiria, na opinião do autor, para explicar a recorrente fragilidade das instituições democráticas brasileiras. Sempre que movimentos sociais ou governos electivamente legitimados tentam alterar o equilíbrio de forças, surgiria uma reação imediata de setores que se entendem possuidores do Estado. Esse choque permanente limitou, ao longo da história, reformas de distribuição de renda, acesso à terra e expansão de direitos sociais.
“Capitalismo Superindustrial”: premissas centrais da nova obra
Em “Capitalismo Superindustrial”, publicado pela Companhia das Letras, Haddad retoma pesquisas conduzidas durante sua trajetória acadêmica, quando se dedicou à economia política e ao estudo do sistema soviético. Os textos foram revistos, ampliados e conectados a reflexões atuais sobre transformações tecnológicas, financeirização e desigualdade internacional. O autor propõe que a fase superindustrial do capitalismo é caracterizada por dois fatores principais: a incorporação do conhecimento como meio de produção e a competição crescente por recursos estratégicos.
A obra também discute as diferentes formas de acumulação primitiva de capital nas periferias do sistema, tema que o ministro considera crucial para compreender disparidades regionais. Analisando casos da Ásia, da Europa Oriental e das Américas, Haddad sugere que a violência de Estado assumiu contornos diversos, mas frequentemente teve o mesmo objetivo: acelerar a industrialização, muitas vezes à custa de direitos humanos e de coerção social.
Desigualdade estrutural e novas configurações de classe
Outro eixo do livro aborda a intensificação da desigualdade. Haddad argumenta que, quando políticas estatais suavizam os impactos do desenvolvimento capitalista, as tensões sociais tendem a recuar; porém, sem assistência pública consistente, o processo leva à ampliação de disparidades absolutas. Para ele, o mundo vive atualmente um ponto de inflexão em que diferenças de renda evoluem para contradições estruturais entre grupos sociais.
O autor descreve o surgimento de novas frações de classe impulsionadas pela economia do conhecimento. Pesquisadores, tecnólogos e gestores de plataformas digitais compõem, segundo o livro, um estrato que se beneficia da captura de informação e da propriedade intelectual. Paralelamente, trabalhadores submetidos a formas precárias de emprego digitalizado enfrentam queda relativa de remuneração e proteção social.
Revoluções no Oriente, industrialização acelerada e influência sobre a classe dominante brasileira
A análise se estende às transformações do século XX na Ásia. Haddad compara as revoluções antissistêmicas do continente com modelos adotados na Europa Oriental e nas Américas. Ele aponta que, no Oriente, a violência estatal foi direcionada sobretudo à construção de infraestrutura industrial, gerando resultados expressivos na ampliação das forças produtivas. Tais processos, contudo, não concretizaram plenamente os ideais originais de emancipação humana, permanecendo contradições entre rápido crescimento econômico e persistência de autoritarismo.
O autor interpreta a ascensão da China como potência global dentro desse panorama. O país, observa, alcançou significativa modernização produtiva sem abandonar instrumentos de planejamento central. Esse precedente pressiona economias ocidentais, redesenha cadeias globais de valor e inspira debates sobre soberania tecnológica. Ao mesmo tempo, expõe dilemas relacionados à sustentabilidade ambiental, direitos lavorais e governança multilateral.
Entidades envolvidas: trajetórias que reforçam a autoridade do debate
Fernando Haddad, além de liderar o Ministério da Fazenda, já ocupou a prefeitura de São Paulo e o Ministério da Educação, funções em que contribuiu para a implementação do Prouni e a expansão de universidades federais. Celso Rocha de Barros, presente no lançamento, é sociólogo especializado em política brasileira e colunista de jornal de grande circulação, conhecido por análises centradas em desigualdade e comportamento eleitoral. A mediação ficou a cargo de Lilia Schwarcz, antropóloga e historiadora com extensa produção sobre questões raciais e sociais no Brasil.
A editora Companhia das Letras, responsável pela publicação, reúne um catálogo de autores de referência em ciências humanas, enquanto o Sesc 14 Bis, palco do evento, é reconhecido por abrigar atividades culturais voltadas ao debate público. Esses elementos reforçam a relevância institucional do lançamento, ampliando a repercussão das ideias discutidas.
O cargo ocupado atualmente por Haddad coloca o autor em posição singular: além de analisar estruturalmente o capitalismo, ele conduz a pauta macroeconômica do governo federal. Durante o diálogo, o ministro citou que a política fiscal, quando orientada para reduzir assimetrias de renda, pode amenizar conflitos sociais. Em sentido oposto, alertou, a ausência de mecanismos estatais aprofunda a concentração de riqueza, situação que historicamente provoca instabilidade ou crises institucionais.
Ao mencionar a influência recorrente das Forças Armadas no arbitramento das disputas entre grupos sociais, Haddad reforçou que mudanças na correlação de forças costumam encontrar barreiras dentro do próprio aparelho estatal. Essa constatação se conecta à tese central do evento: a classe dominante brasileira reage prontamente sempre que percebe ameaças a seu controle sobre a máquina pública.
Perspectivas futuras e próximo passo na divulgação da obra
Com circulação inicial prevista para todo o território nacional, “Capitalismo Superindustrial” integra agora o portfólio de lançamentos do primeiro semestre editorial. O debate inaugurado no Sesc 14 Bis servirá de base para outras mesas-redondas que deverão ocorrer em universidades, centros de pesquisa e feiras literárias ao longo do ano. Nessas ocasiões, o autor pretende detalhar os estudos que compõem a obra e dialogar com especialistas em história, sociologia e economia.
Entre os temas destacados para as próximas discussões estão a aplicabilidade de políticas públicas voltadas à redução da desigualdade e o papel do Estado diante dos avanços tecnológicos. Assim, leitores e pesquisadores poderão acompanhar o aprofundamento das reflexões sobre a relação entre elites econômicas, estrutura estatal e transformações do capitalismo em escala global.

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