Classe C lidera o empreendedorismo no Brasil: estudo detalha motivações, desafios e expectativas

Empreendedorismo ganhou novo rosto no país: o das famílias da classe C, agora responsáveis por quase metade dos negócios em funcionamento, segundo levantamento do Instituto Locomotiva em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Índice

Empreendedorismo na classe C: panorama do estudo

O levantamento mapeou o perfil socioeconômico de empreendedores ou proprietários de negócios formais e informais em todo o território nacional. A principal conclusão indica que indivíduos classificados como classe C – faixa de renda popularmente identificada como classe média – respondem por parcela expressiva do universo empreendedor, aproximando-se de 50% do total pesquisado. Esse dado contrasta com a percepção histórica de que o empreendedor se concentraria nas camadas de renda mais alta ou permaneceria restrito à economia de subsistência em segmentos de baixo poder aquisitivo.

O estudo também demonstra que a prática de abrir empresa ou atuar por conta própria deixou de ser apenas solução emergencial de renda. Hoje, aparece como projeto de carreira planejado, sustentado por expectativas de mobilidade social e por uma avaliação crítica do emprego formal sob as regras da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Fatores que impulsionam o empreendedorismo na classe média

Três elementos se destacam no relatório ao explicar a migração de trabalhadores para atividades autônomas ou para a abertura de CNPJs: flexibilidade, autonomia e potencial de ganhos. Para o segmento analisado, esses atributos pesam mais do que a estabilidade tradicionalmente associada ao contrato celetista.

Flexibilidade refere-se à possibilidade de definir horários, volume de trabalho e local de atuação. Muitos entrevistados relataram que esse aspecto evita deslocamentos diários longos, reduz custos de transporte e diminui o desgaste gerado pelo trânsito dos grandes centros urbanos.

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Já a autonomia é vista como oportunidade de tomar decisões sem subordinação direta a gestores. Esse sentimento de independência ganha força em meio a relatos de ambientes de trabalho tóxicos ou abusivos, mencionados pelos participantes como motivadores da mudança de rumo profissional.

Por fim, há a expectativa de ganhos superiores aos oferecidos por posições formais. Mesmo sem garantia de renda fixa, o retorno financeiro variável é percebido como chance de elevar o padrão de vida e alcançar projetos de consumo, educação ou moradia.

Flexibilidade e autonomia: vantagens percebidas do empreendedorismo

Na prática, esses dois fatores aparecem interligados. Flexibilidade de agenda permite ao empreendedor compatibilizar obrigações familiares – cuidado com filhos ou idosos, por exemplo – com as demandas do negócio. Ao mesmo tempo, a autonomia amplia a sensação de controle sobre o próprio destino profissional, reforçando a motivação para investir tempo e recursos na empresa.

O relatório também observa que a rejeição a jornadas extensas se soma ao desejo de escapar de relações laborais consideradas hierárquicas em excesso. Assim, o trabalho por conta própria surge como caminho para equilibrar vida pessoal e metas financeiras.

Empreendedorismo, emprego e mobilidade social: o “porquê” da escolha

Historicamente, o emprego com carteira assinada simbolizou segurança e prestígio. Entretanto, o estudo indica erosão desse status, associada a remunerações que não acompanham o custo de vida, pressões de produtividade elevadas e menor percepção de reconhecimento. Nesse contexto, o empreendedorismo se consolida como alternativa plausível de ascensão social.

Para a classe C, abrir um negócio representa mais do que gerar renda imediata; significa perseguir independência financeira de longo prazo. O relato de participantes sugere que o simples fato de “ser dono” melhora a autoestima e reforça a ideia de conquistar espaço próprio no mercado.

Nota técnica do Sebrae: apoio e ambiente regulatório

Em posicionamento divulgado junto ao estudo, a presidência do Sebrae salientou que o crescimento do setor depende de estímulos concretos. Entre eles, merecem destaque as políticas públicas voltadas a crédito acessível, inovação e programas de capacitação. A afirmação ressalta que micro e pequenas empresas, muitas vezes comandadas por empreendedores da classe C, exigem condições adequadas para aumentar produtividade e competitividade.

O Serviçe Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, entidade dedicada ao suporte desse segmento, sinaliza que geração de emprego e inclusão social caminham ao lado do fortalecimento dos negócios de menor porte. Quanto mais estruturado for o ambiente empresarial, maiores as chances de expansão sustentável.

Olhar acadêmico: a importância de qualificar o empreendedorismo

Análise do economista e pesquisador Euzébio de Sousa, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), incorporada ao relatório, alerta para a necessidade de distinguir iniciativas genuinamente empreendedoras de formas de trabalho precarizadas. Segundo o especialista, nem toda abertura de CNPJ equivale a intenção inovadora ou aumento de capacidade produtiva.

Sousa divide o fenômeno em três categorias principais, todas observadas entre os respondentes:

1. Empreendedorismo inovador: caracteriza-se pela introdução de novos produtos, serviços ou processos que ampliam a eficiência do mercado. Para esse grupo, o negócio é concebido com planejamento de crescimento escalável.

2. Prestação de serviço sob pejotização: quando profissionais são contratados como pessoas jurídicas, mas permanecem economicamente dependentes de um único contratante, configurando relação de subordinação disfarçada.

3. Empreendedorismo por necessidade: ocorre quando indivíduos recorrem à atividade autônoma em razão de desemprego, baixos salários ou falta de proteção social. Nesses casos, o negócio funciona como estratégia de sobrevivência, sem perspectiva imediata de inovação.

Para o pesquisador, apenas a primeira categoria possui potencial efetivo de contribuir para o desenvolvimento nacional. As demais demandam políticas de amparo e regulação, a fim de evitar fragilização dos trabalhadores e estimular a transição para modelos mais produtivos.

Empreendedorismo por necessidade: contexto econômico e social

O levantamento reforça que o empreendedorismo motivado pela falta de opções no mercado de trabalho ganha corpo em cenários de desemprego elevado, informalidade persistente e remunerações insuficientes. A ausência de benefícios previdenciários, característica das atividades informais, amplia a vulnerabilidade desses trabalhadores.

Nesse sentido, a expansão do fenômeno na classe C não pode ser interpretada apenas como indicador de prosperidade. Parte expressiva desse grupo enxerga no negócio próprio um mecanismo defensivo diante da precarização das relações formais, e não necessariamente um trampolim para inovação.

Políticas públicas e caminhos de fortalecimento

À luz dos resultados, o Instituto Locomotiva e o Sebrae recomendam ações coordenadas para transformar micro e pequenos negócios em vetores de crescimento sustentável. Entre as sugestões presentes no documento, destacam-se:

Acesso a crédito simplificado: taxas compatíveis com a realidade de empreendedores de menor capital inicial.

Programa de capacitação contínua: cursos de gestão, finanças e marketing que orientem o empresário na profissionalização do empreendimento.

Ambiente regulatório desburocratizado: redução de etapas e custos na abertura, alteração e fechamento de empresas.

Inovação tecnológica acessível: incentivo à digitalização de processos e adoção de ferramentas que melhorem eficiência operacional.

Cenário futuro para a classe C empreendedora

A consolidação dos dados evidencia que a classe C ocupa posição central na dinâmica econômica brasileira. Se a tendência de migração para o empreendedorismo persistir, a qualidade das políticas de apoio determinará se esses negócios se transformarão em motores de geração de emprego ou permanecerão na esfera da subsistência.

Próximos passos incluem o acompanhamento dos indicadores de crédito, a evolução das iniciativas de capacitação oferecidas pelo Sebrae e a resposta do mercado de trabalho formal às demandas de flexibilidade e autonomia identificadas no estudo. Esses fatores indicarão se o desejo de ascensão social da classe C se materializará em crescimento sustentável ou em reforço de estratégias de sobrevivência.

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