Cientistas localizam indícios do DNA de Leonardo da Vinci em desenho e cartas familiares

|
Getting your Trinity Audio player ready... |
DNA de Leonardo da Vinci pode finalmente estar ao alcance da ciência: um grupo internacional de pesquisadores relata ter identificado sequências genéticas que se alinham à linhagem paterna do artista, após examinar amostras retiradas de um desenho atribuído a ele e de correspondências de um primo próximo.
- Quem lidera a busca pelo DNA de Leonardo da Vinci
- Como os cientistas isolaram possíveis fragmentos do DNA de Leonardo da Vinci
- Por que o cromossomo Y é peça-chave na procura pelo DNA de Leonardo da Vinci
- Limitações, cautelas e incertezas na identificação do DNA de Leonardo da Vinci
- Informações secundárias reveladas pelo material genético
- Impacto potencial para autenticação de obras e combate a fraudes
- Próximos passos do Leonardo da Vinci DNA Project
Quem lidera a busca pelo DNA de Leonardo da Vinci
O trabalho é conduzido pelo consórcio Leonardo da Vinci DNA Project, equipe multidisciplinar que reúne especialistas em microbiologia, genética, história da arte e conservação de patrimônio. O estudo foi divulgado como artigo preliminar em um repositório científico de acesso aberto, prática que antecipa resultados à comunidade para revisão independente. Entre os autores, o microbiologista Norberto Gonzalez-Juarbe, da Universidade de Maryland, coordena a análise molecular, enquanto historiadores italianos contribuem com a curadoria dos materiais familiares.
Ao adotar uma abordagem que combina biologia molecular e pesquisa arquivística, o grupo pretende reconstruir a trajetória genética de uma das figuras mais proeminentes do Renascimento, operação complicada pela ausência de restos mortais confirmados e pela inexistência de descendentes diretos.
Como os cientistas isolaram possíveis fragmentos do DNA de Leonardo da Vinci
A estratégia começou com a seleção de um desenho em giz vermelho conhecido como “Holy Child”, que integra a antiga coleção privada do marchand Fred Kline. Antes de falecer, Kline autorizou exames minimamente invasivos, permitindo que pequenos fragmentos de fibras de papel fossem removidos em abril de 2024. Por ser poroso, o suporte absorve suor e micro-escamas de pele, potenciais fontes de material genético humano depositado durante o manuseio original.
Paralelamente, a equipe obteve acesso a cartas trocadas entre integrantes da família da Vinci. Documentos desse tipo costumavam ser lacrados com o polegar, preservando traços de epitélio nos resquícios de cera ou no próprio papel. A lógica era simples: se houvesse correspondência genética entre o material das cartas e o do desenho, aumentaria a probabilidade de ambos estarem ligados à mesma linhagem masculina.
Com as amostras em mãos, os cientistas aplicaram o sequenciamento genômico “shotgun”. A técnica lê todo o DNA presente, sem pré-selecionar regiões específicas. Esse método produz milhões de pequenas sequências que são posteriormente ordenadas por softwares de bioinformática, permitindo distinguir entre material humano, microbiano, vegetal ou animal.
Por que o cromossomo Y é peça-chave na procura pelo DNA de Leonardo da Vinci
O ponto central da investigação recai sobre o cromossomo Y, transmitido quase inalterado de pai para filho. Nas amostras analisadas, apareceram segmentos pertencentes ao haplogrupo E1b1b, linhagem frequente na bacia do Mediterrâneo e, em particular, na Toscana — região natal de Leonardo da Vinci. O mesmo marcador genético emergiu tanto no desenho quanto nas cartas familiares, sugerindo ancestralidade comum.
Essa convergência fortalece a hipótese de que o artista ou, no mínimo, homens de seu círculo consanguíneo manipularam o papel examinado. Ao mesmo tempo, a descoberta não equivale a uma confirmação absoluta, pois ainda faltam elementos para excluir contaminações posteriores. Os próprios autores do artigo salientam que o rastreamento do cromossomo Y fornece um sinal robusto de linhagem, porém não descarta coincidências ocasionais dentro de uma população geográfica limitada.
Limitações, cautelas e incertezas na identificação do DNA de Leonardo da Vinci
O estudo enfatiza diversos desafios. Primeiro, estima-se que aproximadamente 99 % do material recuperado do desenho não seja humano, mas provenha de bactérias, fungos, plantas e partículas ambientais acumuladas em séculos de armazenamento. Esse ruído biológico exige filtros computacionais rigorosos para separar sequências relevantes.
Segundo, não existe sepultura confirmada do artista para comparação direta. Após a Revolução Francesa, a igreja em que ele foi enterrado entrou em ruínas, e o túmulo atribuído a ele em Amboise, França, permanece inacessível para escavações. A impossibilidade de coletar DNA ósseo coloca todo o peso da prova em vestígios indiretos.
Terceiro, Leonardo da Vinci não teve filhos conhecidos. Sem descendentes diretos, qualquer validação precisa recorrer a parentes colaterais ou a objetos que ele possa ter tocado. As cartas de um primo tornam-se, assim, referência indireta, mas ainda suscetível a contaminações posteriores em arquivos e bibliotecas.
Por fim, a própria natureza porosa do papel, que viabiliza a coleta de células humanas, também permite que gerações sucessivas de manipuladores depositem seus próprios perfis genéticos. Consequentemente, o estudo adota uma postura conservadora: classifica os achados como indícios sólidos, mas provisórios, à espera de reproduções em novos conjuntos de amostras.
Informações secundárias reveladas pelo material genético
Embora a procura pelo DNA humano seja o foco principal, a varredura metagenômica forneceu dados que ajudam a contextualizar a obra “Holy Child”. Foram identificadas sequências de Citrus sinensis, a laranjeira-doce cultivada nos jardins dos Médici na Itália central durante os séculos XV e XVI. A presença desses fragmentos sugere contato do papel com ambientes ligados a essa família, contemporânea de Leonardo.
Além disso, surgiram traços do parasita Plasmodium, agente da malária endêmica na região toscana à época. A detecção reforça a cronologia geográfica, pois registros históricos apontam óbitos por malária entre membros dos Médici. Esses dados não humanos ilustram como a genética pode iluminar aspectos de transporte, armazenamento e condições sanitárias que circundaram a peça artística.
Impacto potencial para autenticação de obras e combate a fraudes
A equipe defende que a integração de metagenômica com marcadores humanos cria uma nova camada de evidência em estudos de patrimônio cultural. Até hoje, a autenticidade de uma pintura ou desenho repousa sobretudo na análise de estilo, pigmentos e registro documental. A possibilidade de extrair assinaturas biológicas do autor acrescenta um indicador objetivo, difícil de replicar em falsificações.
No mercado de arte, onde valores milionários circulam, fraudes sofisticadas desafiam peritos. Uma vez estabelecida uma “impressão digital” genética de Leonardo da Vinci, pesquisadores poderiam comparar traços encontrados em obras controversas, reduzindo a margem de dúvida. Além disso, protocolos semelhantes poderiam ser aplicados a artistas de outras épocas, desde que haja material comparativo de familiares ou objetos pessoais autênticos.
Próximos passos do Leonardo da Vinci DNA Project
Segundo os coordenadores, a prioridade imediata é ampliar a amostragem. O consórcio busca autorização para examinar mais desenhos atribuídos ao mestre renascentista e cartas preservadas em arquivos europeus. Novas leituras do cromossomo Y em diferentes suportes permitirão avaliar se o padrão identificado em “Holy Child” se repete de forma consistente.
Em horizonte mais distante, caso a quantidade de DNA recuperado seja suficiente, os cientistas planejam montar um rascunho do genoma completo de Leonardo da Vinci. A expectativa é extrair informações sobre características físicas — cor dos olhos, tonalidade de cabelo, estatura — e investigar hipóteses formuladas por historiadores, como a possível acuidade visual superior do artista. Esses dados poderiam enriquecer reconstituições faciais e análises de técnicas de pintura que supostamente dependiam de percepção avançada de detalhes.
Até a obtenção de novas autorizações e amostras, a comunidade científica aguarda a validação dos resultados preliminares apresentados nesta semana no servidor de pré-publicações.

Conteúdo Relacionado