Chips de memória em falta: expansão contida dos fabricantes mantém escassez causada pela corrida da IA

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O setor de chips de memória vive um paradoxo raro: a demanda cresce em ritmo acelerado graças ao avanço da inteligência artificial, mas as principais fabricantes optam por não ampliar suas linhas de produção com a mesma velocidade. Esse desalinhamento entre procura e oferta alimenta um cenário de escassez global, pressiona preços e redefine as estratégias de empresas que dependem de componentes como DRAM, NAND e discos rígidos.
- Demanda de IA pressiona oferta de chips de memória
- Ciclos históricos de excesso e escassez guiam a prudência
- Resultados recordes reforçam o dilema dos produtores de chips de memória
- Investimentos de big techs e projeções de crescimento sustentado
- Estratégias de capital e busca por compromissos de longo prazo no mercado de chips de memória
Demanda de IA pressiona oferta de chips de memória
O ponto de partida da atual escassez está na construção de data centers voltados a aplicações de IA. Sistemas desenvolvidos por empresas como Nvidia e AMD exigem grandes volumes de DRAM de alta largura de banda para processar modelos cada vez mais complexos. Ao mesmo tempo, o imenso fluxo de dados gerado precisa de espaço em unidades de estado sólido e em discos rígidos de elevada densidade. Essa soma de requisitos técnicos desloca boa parte da oferta de componentes para ambientes corporativos, restringindo o abastecimento de mercados tradicionais, como PCs, notebooks e smartphones.
Analistas destacam que a rápida renovação anual dos processadores gráficos, predominante no segmento de IA, aumenta ainda mais a pressão sobre os estoques. Cada nova geração chega acompanhada de exigências superiores de velocidade e de capacidade de memória, estimulando fabricantes de servidores a antecipar compras para não ficar atrás nas atualizações. O resultado imediato é a formação de gargalos no fornecimento, visíveis tanto em contratos corporativos quanto nas prateleiras do varejo.
Ciclos históricos de excesso e escassez guiam a prudência
A teoria econômica indicaria que preços elevados, como os observados em 2025, deveriam motivar um rápido aumento da produção. No entanto, a indústria de memória carrega um histórico de fortes oscilações que torna qualquer expansão um movimento calculado. Os ciclos anteriores, marcados por fases de excesso de oferta e quedas abruptas de preço, deixaram prejuízos bilionários e arrastaram ações para o campo negativo. O episódio mais recente ocorreu em 2023, quando empresas como Micron, Western Digital, Seagate e SK Hynix encerraram o ano no vermelho, mesmo após períodos de forte demanda.
Essa memória recente sustenta a cautela dos fabricantes. Construir uma planta de semicondutores exige investimento elevado e anos de execução. Um aumento acelerado da capacidade, seguido por eventual retração do mercado, agravaria desequilíbrios de caixa e pressionaria margens. Por isso, mesmo diante de encomendas crescentes, as companhias preferem adicionar equipamentos de maneira gradual, avaliando trimestre a trimestre a sustentabilidade dos preços.
Resultados recordes reforçam o dilema dos produtores de chips de memória
Embora contenham o ímpeto de investir, as fabricantes colhem lucros expressivos. A Micron alcançou receita e lucro operacional recordes no último trimestre, impulsionada pela valorização dos chips de memória. A Samsung projetou triplicar seu lucro operacional no quarto trimestre em comparação com o mesmo período do ano anterior. Essas cifras ilustram o impacto direto da escassez: menos componentes disponíveis elevam as cotações e ampliam as margens.
No mercado acionário, o momento é igualmente favorável. Desde o início de 2025, papéis de Micron, Seagate e Western Digital mais que dobraram de valor. A Sandisk, separada da Western Digital no começo do ano, multiplicou seu valor de mercado por dez em poucos meses, enquanto a SK Hynix registrou alta expressiva. Esse aquecimento nas bolsas contrasta com a contenção nos investimentos fabris, evidenciando o dilema estratégico: desfrutar dos ganhos atuais ou arriscar uma expansão que possa desencadear novo ciclo de excesso.
Investimentos de big techs e projeções de crescimento sustentado
O lado da demanda apresenta sinais de continuidade. Projeções da Bernstein indicam que os embarques de soluções de armazenamento devem crescer, em média, 19% ao ano até 2029, percentual acima da média da última década. Por trás desse avanço estão os investimentos robustos de Amazon, Google, Microsoft e Meta, que, juntos, destinaram cerca de US$ 407 bilhões a infraestrutura em 2025 e podem ultrapassar US$ 520 bilhões no ano corrente.
Esse fluxo de capital garante ritmo acelerado de criação de data centers, favorecendo a compra de memórias de alta performance. Além disso, a complexidade crescente dos modelos de IA — com conjuntos de parâmetros cada vez maiores — torna inevitável a expansão de capacidade de armazenamento. O resultado é uma demanda relativamente previsível por componentes, ainda que os ciclos do setor continuem sujeitos a incertezas macroeconômicas e tecnológicas.
Estratégias de capital e busca por compromissos de longo prazo no mercado de chips de memória
Apesar do cenário otimista, poucas empresas sinalizam aumentos significativos de capital. A Seagate é a exceção, planejando elevar aportes, mas ainda dentro de sua intensidade histórica de gastos. Na Sandisk, mesmo com salto de 44% na receita, o crescimento nos investimentos deve ficar em 18% no atual ano fiscal. Para o CEO David Goeckeler, a principal barreira é a inexistência de contratos de fornecimento de longo prazo. Segundo o executivo, compromissos de curto prazo não oferecem a garantia necessária para amortizar o custo de fábricas que levam anos até entrar em plena operação.
A declaração aponta para uma possível mudança de paradigma. Se empresas de tecnologia firmarem contratos plurianuais, podem dar previsibilidade às receitas das produtoras de memória, destravando novos projetos sem repetir ciclos prolongados de prejuízo. Enquanto essa segurança não se materializa, a indústria opta por prudência, mesmo em plena expansão.
A soma desses elementos — demanda firme de IA, preços elevados e ritmos de investimento moderados — sugere que a escassez de chips de memória deve permanecer no horizonte. Alguns fabricantes já admitem, com base em dados atuais, que o desequilíbrio pode avançar até 2026, prolongando um ciclo de alta que ainda não encontrou ponto de equilíbrio.

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