Centro de São Paulo vibra com axé, forró e blocos tradicionais no domingo de carnaval

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O domingo de carnaval no Centro de São Paulo transformou o circuito da República em um corredor de ritmos nordestinos, mobilidade surpreendentemente tranquila e blocos que atraíram tanto frequentadores antigos quanto novos foliões. Entre trios elétricos, fantasias inspiradas na cultura popular e vendedores ambulantes espalhados pelas vias, a tarde mostrou que a região central ainda guarda espaço para festas de rua mais acessíveis, mesmo sob a concorrência dos megablocos espalhados pela cidade.
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Pelo segundo ano consecutivo, os blocos Domingo Ela Não Vai e Explode Coração assumiram o protagonismo do percurso que se estende ao redor da Praça da República. A dupla de trios elétricos reuniu um público numeroso, mas que se movimentou com facilidade graças ao planejamento da organização, permitindo circulação constante entre as ruas São Luiz e Consolação. O repertório, centrado no axé, fez coro com foliões que traziam bandeiras, estandartes artesanais e adereços coloridos, compondo um visual que lembrava os carnavais de bairro de décadas passadas.
Embora houvesse concentração significativa de pessoas, o público relatou boa fluidez nos deslocamentos, fato atribuído à largura das vias e à proximidade de estações de metrô. A combinação entre acesso facilitado e ritmos festivos fortaleceu o caráter democrático da festa, onde famílias com crianças, idosos e grupos de amigos circularam sem dificuldades importantes.
A atmosfera leve foi notada por foliões como a estudante de jornalismo Luma Gregório. Presente desde a infância no carnaval paulistano — período em que integrou a ala mirim da escola de samba Tom Maior —, ela identificou no axé a sonoridade que, em sua percepção, melhor representa a folia de rua. Ao lado de parentes e colegas de faculdade, ela percorreu o trajeto do Domingo Ela Não Vai com planos de seguir para o Explode Coração no mesmo dia, reforçando a disposição do público em aproveitar múltiplos blocos em sequência.
Luma também antecipou uma agenda estendida: marchinhas com a Charanga do França na segunda-feira e, na terça, a busca por blocos menores ainda não definidos. A jovem, entretanto, declarou preferência por eventos de porte médio, após uma experiência negativa em um megabloco realizado na avenida Consolação no pré-carnaval. Na ocasião, parte do público ficou espremida junto às grades de contenção, quadro que ela evitou deslocando-se para a calçada próxima ao cemitério, onde foi possível acompanhar o desfile com mais segurança.
Por volta das 14 horas, a esquina da rua São Luiz com a avenida Consolação recebeu o Bloco Afro Tô na Rua. O grupo apresentou duas baterias, além de atabaque, guitarra, baixo e teclado, base instrumental que sustentou sucessos de axé interpretados por três vocalistas: Lia, Paula e Marcos. O sol forte não desanimou músicos nem público, que reduziu o passo para dançar e, posteriormente, começou a dispersar em direção a bares e restaurantes da região — pontos que, tradicionalmente fechados aos domingos, abriram as portas para atender a demanda extra de foliões.
A dinâmica de apresentação do bloco — com pausas estratégicas entre uma música e outra — favoreceu a rotatividade de espectadores. Quem chegava aproveitava a parada para fotografar ou repor líquidos, enquanto quem já estava no local seguia em cortejo até uma nova seção de som. O formato reafirmou o apelo dos blocos afro, que unem percussão robusta a letras celebratórias voltadas ao pertencimento cultural.
Nos arredores da Biblioteca Mário de Andrade, as irmãs Estela e Josy Madeira trouxeram outra perspectiva sobre a tarde. Bibliotecária de formação, Estela já trabalhou na instituição e contabilizou a participação em três blocos somente naquele fim de semana. Ambas acompanham o carnaval de rua desde antes da popularização maciça dos desfiles, processo que se intensificou há cerca de dez anos. O contraste com períodos anteriores, quando a festa se concentrava na Praça Tiradentes, ficou evidente para elas: apesar da concorrência dos megablocos, o circuito da República continua maior do que no passado.
Entre suas escolhas recentes estiveram o bloco Bollywood, que mescla influências indianas, e o Perdi Tudo na Augusta, conhecido por percorrer a via repleta de bares e casas noturnas. Para a segunda-feira, cogitavam comparecer ao tradicional bloco do Bixiga, em atividade desde 1947 e parceiro da escola de samba Vai-Vai. A indefinição quanto ao roteiro seguinte demonstra a natureza espontânea do público, que decide o percurso conforme a disposição física e as opções disponíveis na malha urbana.
Já passava das 15 horas quando o Bloco SP Forró começou a desfilar diante de um contingente moderado de foliões. Vestidos como Lampião e Maria Bonita, o arte-educador baiano Juarez Martins dos Anjos — residente na Zona Leste de São Paulo desde 1973 — e a musicista paraibana Ana Freire lideraram o cortejo. A dupla integra o Trio da Lua ao longo do ano e, no carnaval, colabora com o produtor cultural Zé da Lua para manter viva a tradição do forró pé-de-serra.
O SP Forró acumula seis anos de presença no circuito e se consolida como alternativa para quem busca ritmos nordestinos além do axé. A formação compacta permite maior interação entre músicos e público, característica que estimulou pares a dançar arrasta-pé em meio à multidão. Mesmo com vendedores ambulantes reclamando de fluxo reduzido em alguns pontos — consequência da grande quantidade de guarda-sóis instalados nas calçadas —, o bloco manteve a animação até o início da noite.
O balanço do domingo de carnaval evidenciou que, quando o planejamento de tráfego e de equipamentos urbanos funciona, é possível acomodar grandes blocos e permitir que expressões culturais menores coexistam no mesmo território. A proximidade de duas linhas de metrô, sinalização de rotas de emergência e concentração de banheiros químicos ajudaram a diluir aglomerações mais críticas, ainda que vendedores tenham relatado pontos de estrangulamento na circulação.
Para a segunda-feira, a tradição aponta para o desfile no bairro do Bixiga a partir das 10 horas, quando o bloco fundado em 1947 voltará às ruas ao som dos sambas da Vai-Vai. Foliões que percorreram o centro neste domingo indicaram interesse em continuar a maratona, reforçando a expectativa de que o carnaval de rua paulistano mantenha a vitalidade até o encerramento oficial na terça-feira.

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