Carnaval de Olinda: como frevo e samba dividem as ladeiras, o decreto municipal e os bastidores do financiamento público

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Carnaval de Olinda tornou-se cenário de um confronto entre tradições musicais e interesses logísticos: de um lado, troças e clubes de frevo; de outro, blocos de samba com baterias reforçadas e carros de som. A disputa, que tomou as ladeiras do sítio histórico e chegou às redes sociais, levou a prefeitura a publicar um decreto regulando som mecânico e prevendo multa de R$ 10 mil para quem bloquear o percurso de grupos de frevo, maracatu ou afoxé.
- O que está em jogo no Carnaval de Olinda
- A longa trajetória do frevo no Carnaval de Olinda
- Blocos de samba ganham espaço no Carnaval de Olinda
- Som mecânico, ladeiras íngremes e o novo decreto municipal
- Financiamento público: cifras, critérios e controvérsias
- Impacto cultural e estimativa de custos para as agremiações
- Possíveis caminhos de convivência no Carnaval de Olinda
O embate central envolve o Carnaval de Olinda e suas prévias. Foliões de frevo reclamam que as orquestras itinerantes, baseadas em instrumentos de sopro, têm dificuldade para avançar quando blocos de samba utilizam grandes baterias e sistemas sonoros eletrificados. Já os sambistas defendem que mantêm o fluxo de turistas, ampliam a diversidade musical e reforçam o caráter plural da festa.
A discussão extrapolou as ladeiras e foi parar na sede do Executivo municipal. Após reunião emergencial, a prefeita Mirella Almeida (PSD) determinou limites de volume para som mecânico e fixou penalidades financeiras caso agremiações impeçam a passagem de manifestações consideradas tradicionais.
A história do frevo, ritmo que rendeu à cidade o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, sustenta o argumento de prioridade usado pelos defensores das orquestras. Pesquisa da consultoria Quaest, divulgada em 2025, identificou 46 orquestras de frevo em atividade em Olinda e Recife. Essas formações são contratadas por centenas de troças, algumas centenárias, como a Troça Cariri, fundada em 1921.
Hilton Santana, diretor de comunicação da Cariri e vice-presidente da Afrevo (Associação das Agremiações de Frevo de Olinda), afirma que a potência dos carros de som cria uma competição desigual. Segundo ele, “instrumentos de sopro não conseguem rivalizar com caixas acústicas amplificadas”, tese que motivou o pedido formal por regras específicas.
Embora em menor número no século passado, as agremiações de samba expandiram-se nas últimas décadas. Blocos como D’Breck (2003) e Sambadeiras (2008) atraem multidões e já figuram entre as atrações mais procuradas do Carnaval de Olinda. Nos anos 1980 e 1990, o pagode cresceu na vizinha Recife, enquanto registros de escolas de samba locais remontam aos anos 1930, conforme o historiador Augusto Neves da Silva (UFPE).
A década de 1970 marcou a criação de nomes icônicos como GRES Preto Velho e Patusco. Diferentemente do modelo de desfiles competitivos do Rio e de São Paulo, esses grupos adotam repertório variado que inclui brega, rock adaptado e até frevo em arranjos de samba, conforme relata Múcio Mariano, diretor e mestre da Bateria Cabulosa, fundadora em 2013.
Som mecânico, ladeiras íngremes e o novo decreto municipal
A principal queixa dos frevistas recai sobre a junção entre volume sonoro e circulação de veículos. A “Lei do Carnaval”, aprovada em 2001, já proibia instalação fixa de amplificadores no sítio histórico, mas autorizava sistemas itinerantes nos focos oficiais da prefeitura, exigindo prevalência de repertório de frevo. A explosão de baterias amplificadas nos últimos anos gerou interpretações divergentes.
O decreto editado nesta semana reforça a vedação de som mecânico excessivo e estipula multa de R$ 10 mil para agremiações que impeçam o fluxo de frevo, maracatu ou afoxé. Também menciona prioridade às “manifestações culturais tradicionais”, expressão que gerou debates por parecer vaga. Para a Afrevo, além do volume, há risco estrutural: carros que puxam caixas acústicas sobem ruas de paralelepípedo e forte inclinação; uma falha mecânica poderia causar acidentes em meio à multidão.
Financiamento público: cifras, critérios e controvérsias
O Carnaval de Olinda depende de recursos que misturam editais públicos, contratação direta e patrocínios privados. Os valores pagos a cada agremiação variam sem critérios transparentes. Exemplos de 2025 ilustram a disparidade:
• Troça de frevo John Travolta (1970): R$ 15 mil da prefeitura.
• Troça Cariri (1921): R$ 40 mil para dois desfiles.
• Sambadeiras (2008): média de R$ 10 mil para três apresentações.
• D’Breck (2003): R$ 100 mil para três eventos.
Os contratos foram firmados como inexigibilidade de licitação, modalidade que dispensa concorrência. Não está claro o peso atribuído a fatores como tempo de existência, número de integrantes ou complexidade de ornamentação. Reportagem da Marco Zero Conteúdo apontou ainda que grupos ligados ao vereador Felipe Nascimento (PSD) e ao ex-prefeito Lupércio Nascimento receberam cachês de até R$ 50 mil no carnaval anterior. Lupércio é tio do vereador e marido da atual prefeita, enquanto o oponente de 2024, Vinicius Castelo (PT), foi apoiado por diversas troças de frevo, que desfilaram às vésperas da eleição.
Impacto cultural e estimativa de custos para as agremiações
Além do aporte do poder público, cada grupo arca com despesas próprias. Hilton Santana calcula que a Troça Cariri deve gastar em torno de R$ 150 mil no carnaval corrente, valor elevado para uma agremiação que, segundo ele, “há anos recebe a mesma quantia de subvenção”.
Já a Bateria Cabulosa anunciou que não desfilaria nas ladeiras neste ciclo, alegando sensação de segregação por parte de moradores que enxergam o samba como elemento externo. Mariano reforça, entretanto, que “o samba é Brasil” e que, em muitos desfiles, a bateria executa frevo, rock ou brega em formato percussivo, evidenciando intercâmbios musicais.
Apesar do clima de disputa, representantes de ambos os lados reconhecem a necessidade de coexistência. A Afrevo sugeriu direcionar cortejos de samba para áreas planas e asfaltadas próximas ao limite da cidade antiga, reduzindo riscos mecânicos e permitindo passagem das orquestras. Mariano, por sua vez, concorda que o frevo é “carro-chefe” do carnaval pernambucano, mas defende espaço igualitário: “Ninguém quer ter o brilho sozinho, o carnaval é para todos”.
Com o decreto já em vigor, a temporada de 2026 servirá de teste para as novas regras. Agremiações de frevo, maracatu, afoxé e samba ajustam roteiros, definem volumes sonoros e negociam horários para evitar interdições. O próximo grande desafio prático ocorrerá nas prévias marcadas para as semanas que antecedem o ponto alto do Carnaval de Olinda, quando orquestras e baterias voltarão a dividir cada centímetro das ladeiras históricas.

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