Carnaval e autocuidado: coletivos de cuidadoras no DF transformam a folia em rede de apoio

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A palavra-chave “Carnaval” surge neste relato não apenas como sinônimo de música e fantasia, mas como estratégia concreta de autocuidado para quem convive diariamente com a responsabilidade de zelar por familiares que enfrentam doenças demenciais. Em um domingo chuvoso de 8 de fevereiro de 2026, Brasília testemunhou uma prévia da festa que, além de colorir as ruas, oferece respiro emocional a dezenas de cuidadoras e cuidadores.
- Carnaval e autocuidado: o encontro que ocorre antes do desfile oficial
- Carnaval como voz para o coletivo Filhas da Mãe
- As implicações físicas e emocionais da rotina de cuidado
- Rede de apoio que ultrapassa a terça-feira de Carnaval
- Carnaval inclusivo: o bloco Me Chame Pelo Nome desafia o capacitismo
- Histórias que explicam a importância de sair de casa
- Próximos passos até o Carnaval 2026
O cenário foi marcado por guarda-chuvas abertos e sambas contagiantes. Ali, a professora carioca Carmen Araújo, de 59 anos, permitiu que o ritmo tomasse conta dos passos enquanto, emocionada, carregava no olhar a história de 15 anos dedicados ao pai. Aos 89, ele convive com Alzheimer e, por razões de saúde, já não acompanha a filha nas celebrações que sempre o entusiasmaram. A lembrança de carnavais passados, contudo, permanece viva e motiva Carmen a manter o vínculo afetivo por meio da dança.
O episódio evidenciou o “quando” – a proximidade do Carnaval de 2026 – e o “onde” – as ruas de Brasília –, mas, sobretudo, explicitou o “porquê”: se a pessoa cuidadora não se cuidar, também adoece. O coletivo que acolhe Carmen entende essa lógica e, por isso, converte a folia em mecanismo de bem-estar.
Fundado em 2019, o coletivo Filhas da Mãe reúne majoritariamente mulheres responsáveis por familiares com doenças demenciais. No período carnavalesco, o grupo troca os encontros virtuais ou rodas de conversa pela configuração de bloco de rua. A inversão de papéis – de cuidadoras sobrecarregadas a foliãs com brilho no rosto – devolve a cada integrante a sensação de pertencimento a algo maior do que a rotina de cuidados ininterruptos.
Uma das idealizadoras do Filhas da Mãe é a psicanalista Cosette Castro. Filha única, ela conduziu o tratamento da própria mãe durante dez anos, até o falecimento, há cinco anos. Ao perceber que a sociedade discute medicamentos, diagnósticos e protocolos médicos, mas quase nunca mira a saúde de quem vigia o relógio 24 horas por dia, Cosette transformou a dor pessoal em projeto coletivo. O bloco carnavalesco, portanto, nasce dessa conscientização: falar sobre autocuidado em alto e bom som, acompanhado de bateria, estandarte e samba-enredo.
As implicações físicas e emocionais da rotina de cuidado
Lesões na coluna, fibromialgia, hipertensão, problemas cardíacos, transtornos mentais, insônia e níveis elevados de ansiedade compõem a lista de consequências relatadas por quem dedica a vida a familiares com Alzheimer ou outras demências. Ao todo, o Filhas da Mãe mantém atendimento cotidiano para aproximadamente 550 pessoas, reforçando informações de saúde e propondo pausas programadas. Segundo o coletivo, iniciativas lúdicas – entre elas caminhadas, exposições e, evidentemente, a festa de fevereiro – funcionam como lembrete de que o riso não é proibido, mesmo quando a responsabilidade parece não ter fim.
“Recuperar a criança interior” é a expressão que guia muitas das atividades propostas. A lógica é simples: quanto maior o desgaste físico e emocional, mais urgente se torna o resgate de momentos que deem leveza à jornada. A música, por exemplo, figura no topo desse repertório de bem-estar, pois as letras podem permanecer na memória mesmo quando outras lembranças falham, como testemunhado pelas famílias beneficiadas.
Engana-se quem imagina que a folia representa um alívio pontual. Para o Filhas da Mãe, o bloco é vitrine de uma rede permanente de serviços voluntários, muitos deles oferecidos virtualmente. A mesma bateria que ecoa na rua divulga, em meio aos instrumentos, a importância do diagnóstico precoce de demências e da divisão equilibrada das tarefas de cuidado. Ao transformar o desfile em canal de informação, o coletivo fortalece vínculos familiares e orienta a comunidade sobre prevenção de sobrecarga.
A professora Carmen Araújo traduz bem essa dinâmica. Ao ingressar no grupo, ela passou a colaborar com experiências e aprendizados que, até então, ficavam restritos ao ambiente doméstico. Cada depoimento compartilhado durante os ensaios ou reuniões on-line sinaliza a outra cuidadora que ela não está só. Cresce, assim, uma rede horizontal, baseada na troca de saberes e na validação de sentimentos, aspectos nem sempre contemplados em protocolos formais de saúde.
Enquanto o Filhas da Mãe ensaiava seu cortejo, outra agremiação coloria o mesmo espaço público. O coletivo Me Chame Pelo Nome, articulado pela servidora pública Aline Zeymer, levou às ruas uma fanfarra formada por pessoas com deficiência. O objetivo declarado é combater o capacitismo, promover resistência e, sobretudo, demonstrar que arte e cuidado caminham juntos. Em 2026, a iniciativa realiza seu segundo Carnaval, reforçando que diversão e inclusão podem — e devem — ocupar o mesmo compasso.
Apesar da chuva, a batucada não perdeu ritmo. Cada participante sustentou a mensagem de que o preconceito deve ser confrontado com visibilidade e acolhimento. A presença simultânea dos dois blocos ilustrou como diferentes realidades – cuidadoras sobrecarregadas e pessoas que enfrentam barreiras de acessibilidade – encontram no Carnaval um denominador comum: a vontade de celebrar a vida sem ignorar os desafios cotidianos.
Histórias que explicam a importância de sair de casa
Os relatos individuais reforçam a dimensão humana por trás dos estandartes. A psicanalista Cosette Castro, por exemplo, ainda recorda que as canções favoritas da mãe foram as últimas memórias a desaparecer. Márcia Uchôa, outra fundadora do Filhas da Mãe, lida com situação parecida: a mãe, Maria, de 96 anos, também diagnosticada com Alzheimer, cultiva paixão por música e crochê. Neste domingo chuvoso, ela preferiu não se expor ao risco de gripe, mas enviou à filha o recado de que “o Carnaval mora dentro da gente”.
Em todos os testemunhos, a tônica é a mesma: a folia não apaga sofrimentos nem substitui tratamentos médicos, porém oferece pausa vital a quem, muitas vezes, esquece de respirar. Quando o samba pede passagem, as cuidadoras resgatam não só a própria identidade, mas também a memória afetiva do familiar que, em maior ou menor grau, sempre apreciou o batuque.
Com o desfile oficial cada vez mais próximo, Filhas da Mãe planeja novas ações para ampliar a visibilidade das doenças demenciais e da sobrecarga das cuidadoras. Já o Me Chame Pelo Nome trabalha na consolidação da fanfarra inclusiva que abraça diferentes deficiências. Ambas as agendas convergem para fevereiro, quando Brasília receberá o calendário completo do Carnaval 2026. Até lá, ensaios, rodas de conversa e campanhas virtuais seguirão reforçando a mensagem central da prévia deste domingo: cuidar do outro implica, necessariamente, aprender a cuidar de si.

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