Carnaval acessível em Brasília: bloco “Deficiente é a mãe” garante inclusão de pessoas com deficiência na folia

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No Carnaval de 2026, a capital federal voltou a receber o carnaval acessível promovido pelo bloco “Deficiente é a mãe”, iniciativa que há 14 anos transforma a experiência de pessoas com deficiência (PCDs) ao permitir que participem da festa de rua sem barreiras arquitetônicas ou sociais.
- Carnaval acessível: origem do bloco Deficiente é a mãe
- Como o carnaval acessível combate o capacitismo nas ruas de Brasília
- Carnaval acessível e inclusão LGBTQIA+: a presença de Úrsula Up
- Desafios logísticos para manter o carnaval acessível todos os anos
- A importância do carnaval acessível para jovens com TEA e outras deficiências
- Carnaval acessível na ótica de quem convive com deficiência visual
- Relatos de esperança e pesquisas sobre lesão medular
- Perspectivas para o próximo carnaval acessível
A criação do bloco remonta a uma preocupação da historiadora Lurdinha Danezy Piantino, que, em parceria com pais e representantes de entidades ligadas às PCDs, percebeu a ausência de espaços adaptados nos grandes eventos populares. Foi em resposta a essa lacuna que o grupo decidiu levar às ruas, ainda em 2012, uma agremiação carnavalesca projetada para derrubar obstáculos físicos e simbólicos. Desde então, a cada fevereiro, a Torre de TV de Brasília recebe o desfile que prioriza rampas, piso tátil, intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e locais elevados para usuários de cadeira de rodas.
Segundo os organizadores, a motivação principal sempre foi reforçar que acessibilidade é direito previsto em lei, não concessão esporádica. Ao assumir essa bandeira, o bloco posiciona-se como agente de conscientização, lembrando que o carnaval é o ponto alto do calendário cultural brasileiro e, portanto, deve contemplar toda a diversidade populacional.
O movimento capitaneado por “Deficiente é a mãe” identifica o capacitismo – discriminação e opressão direcionadas às PCDs – como um dos principais inimigos da participação plena. Barreiras como a ausência de calçadas niveladas, escassez de transporte público adaptado e falta de intérpretes de Libras afastam muitas pessoas desses ambientes festivos. A estrutura do bloco, ao contrário, inclui:
• Corredores amplos para circulação segura de cadeiras de rodas;
• Palcos com visão elevada compartilhada por foliões com mobilidade reduzida;
• Profissionais de Libras durante todo o cortejo;
• Sinalização tátil e sonora para atender pessoas com deficiência visual.
Dessa forma, a agremiação não apenas garante a presença dos foliões com deficiência, mas ainda atua como vitrine de boas práticas que podem ser replicadas por outros blocos e por gestores públicos.
Um dos rostos mais conhecidos da festa é Lúcio Piantino, artista de 30 anos que, no palco, incorpora a personagem Úrsula Up, reconhecida como a primeira drag queen brasileira com síndrome de Down. Multifacetado, Lúcio também atua como ator, artista plástico, dançarino e palhaço. Ao desfilar com maquiagens vibrantes e figurinos elaborados, ele exemplifica a interseção entre acessibilidade e representatividade LGBTQIA+.
Desde criança apaixonado pelo carnaval, o artista considera os blocos espaços centrais para promover encontros entre diversas identidades. Sua participação reforça a mensagem de que a folia pertence igualmente a corpos e expressões variadas, ampliando o alcance da pauta anticapacitista para além da deficiência e dialogando com o combate à homofobia e à transfobia.
Colocar o bloco na rua demanda engajamento constante, lembra o servidor público aposentado Luiz Maurício Santos, de 60 anos, fundador e cadeirante há 28 anos em razão de um acidente de moto. Entre as maiores dificuldades relatadas estão a captação de recursos para alugar equipamentos de acessibilidade, a obtenção de licenças junto aos órgãos municipais e a mobilização de voluntários especializados em atendimento a PCDs.
Embora a cada edição o evento se consolide, ainda há resistência de parte do próprio público-alvo. Muitos potenciais foliões temem discriminação ou acreditam que o desfile possa não atender às suas necessidades específicas. Para contornar o receio, a direção do bloco investe em campanhas informativas nas redes sociais, enfatizando a existência de suporte individualizado e a segurança do ambiente.
O estudante Francisco Boing Marinucci, de 22 anos, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), é presença confirmada a cada temporada. Ao lado da mãe, a professora Raquel Boing Marinucci, ele confecciona fantasias inspiradas em personagens que marcaram a infância, como os protagonistas do “Sítio do Picapau Amarelo”, e encontra no bloco um local seguro para apreciar marchinhas tradicionais e sambas consagrados.
Para familiares de pessoas com deficiência intelectual, espaços adaptados oferecem tranquilidade extra. A organização mantém monitores treinados e áreas de descanso com menor estímulo sonoro, reduzindo riscos de sobrecarga sensorial e garantindo que cuidadores possam acompanhar os foliões sem obstáculos.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país soma 18,6 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, número que corresponde a 8,9 % da população com dois anos ou mais. A deficiência visual é a mais frequente, alcançando 3,1 %. Entre esse grupo está o auxiliar de biblioteca Thiago Vieira, que tem baixa visão desde o nascimento e compareceu ao cortejo acompanhado da cadela-guia Nina.
Para ele, eventos inclusivos representam oportunidade rara de convívio social sem sensação de invisibilidade. Ao caminhar por espaços devidamente sinalizados, com pisos táteis e explicações sonoras sobre a programação, o folião afirma sentir-se seguro e respeitado, percepção que considera fundamental para reivindicar mais ambientes acessíveis ao longo do ano.
Relatos de esperança e pesquisas sobre lesão medular
O secretário escolar Carlos Augusto Lopes de Sousa também integra o grupo de frequentadores fiéis. Usuário de cadeira de rodas desde que sofreu fratura na coluna em um desabamento há 37 anos, ele enxerga o desfile como demonstração prática de inclusão e respeito. Carlos acompanha com atenção os estudos da professora Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que desenvolve um composto batizado de polilaminina com resultados promissores na regeneração de lesões medulares. A pesquisa aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para avançar para testes clínicos mais amplos.
Para participantes como Carlos, acompanhar tais avanços científicos durante um ambiente festivo confere tom de otimismo ao carnaval, mostrando que a luta por acessibilidade dialoga com a busca por qualidade de vida e autonomia.
A organização do “Deficiente é a mãe” já encerrou o desfile de 2026 com planejamento inicial para a edição de 2027. Entre as metas estão ampliar o número de intérpretes de Libras, aumentar a área elevada para cadeirantes e firmar parcerias com empresas de transporte público para oferecer deslocamento gratuito e adaptado. Com essas ações, o bloco pretende atrair ainda mais pessoas com deficiência e fortalecer o exemplo de que toda manifestação cultural, no Brasil, pode — e deve — ser plenamente acessível.

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