Brilhetes de Anchieta renova o bate-bola: grupo feminino transforma tradição do subúrbio do Rio

Brilhetes de Anchieta renova o bate-bola: grupo feminino transforma tradição do subúrbio do Rio
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Brilhetes de Anchieta é o nome da turma feminina de bate-bolas que, às vésperas do Carnaval 2026, prepara uma saída cercada de sigilo em Anchieta, zona norte do Rio de Janeiro. Composta por 38 integrantes, entre crianças e adultas, a equipe trabalha há seis meses na confecção de uma fantasia que só será revelada na sexta-feira de pré-carnaval, quando o portão do barracão se abrir ao som de fogos e funk.

Índice

Origem das Brilhetes de Anchieta e a liderança de Vanessa Amorim

A história das Brilhetes de Anchieta começa em 2013, quando a produtora cultural Vanessa Amorim decidiu fundar um grupo exclusivamente feminino. Antes disso, ela desfilava na Turma do Brilho, criada em 1991 por seu sogro e hoje administrada pelo marido. Ao observar que as mulheres costumavam ficar na retaguarda, cuidando de crianças ou carregando bandeiras, Vanessa reuniu aliadas para disputar o espaço da rua na condição de protagonistas.

A decisão resultou numa segunda família para muitas participantes. A dona de casa Alexandra Cunha, de 44 anos, afirma que o vínculo construído durante a produção das fantasias a fez enxergar no grupo uma rede de apoio. Já a adolescente Ana Júlia Guimarães, de 17 anos, superou o antigo medo dos bate-bolas para estrear no bloco conjuntamente com a mãe.

Diversidade etária e profissional dentro do grupo

O elenco das Brilhetes de Anchieta abrange gerações e áreas de atuação variadas. Crianças de apenas 3 anos desfilarão ao lado de mulheres com até 58 anos. Entre elas há professoras, técnicas em enfermagem, bombeiras, estudantes e pesquisadoras ligadas a instituições culturais. Essa pluralidade reflete o alcance da manifestação dos bate-bolas, que se distanciaram da imagem de figuras assustadoras para se consolidar como expressão artística do subúrbio carioca.

Cada integrante assume tarefas no barracão, localizado no quintal da residência de Vanessa Amorim. É ali que se pintam máscaras, costuram macacões bufantes e colam purpurina nas casacas. Esses encontros periódicos, que incluem confraternizações, reforçam laços de solidariedade e permitem que habilidades manuais sejam compartilhadas.

Fantasia 2026: homenagem a Conceição Evaristo e atenção aos detalhes

Em 2026, o tema escolhido pelas Brilhetes de Anchieta presta tributo à escritora mineira Conceição Evaristo, que completará 80 anos em novembro. A autora, professora aposentada e reconhecida por destacar vivências negras, inspirou a frase “eles combinaram de nos matar, mas a gente combinamos de não morrer”, impressa nas camisetas que compõem o kit de treino do grupo.

Para traduzir a homenagem em roupa, as máscaras receberam pintura manual, cor por cor, num processo que consumiu semanas. A fantasia se fecha com macacão bufante, casaca coberta de glitter, buá (peitoral adornado), bandeira, bexiga, luvas e meias estilizadas. O perfume também integra a experiência: neste ano, a essência escolhida foi a de morango, um dos elementos tradicionais que acompanham o bate-bola e marcam a memória olfativa da festa.

A cada temporada, o grupo investe em recursos que valorizam a indumentária. Já utilizaram iluminação em LED, pinturas especiais e temas como Marilyn Monroe em 2025 ou “mãe natureza” em anos anteriores. Tudo é planejado para gerar impacto visual no momento em que as integrantes percorrem as ruas de Anchieta ou aderem a blocos do centro e da zona sul.

Financiamento coletivo e logística da saída de rua

Viabilizar uma fantasia de bate-bola exige planejamento financeiro. Entre as Brilhetes, cada participante assume dez parcelas mensais de R$ 150. Esse valor não inclui o tênis nem a essência, que ficam a cargo de cada uma. O custo total de uma fantasia oscila entre R$ 1,5 mil e R$ 3 mil. Para cobrir despesas extras, o coletivo contrata equipes de som de bailes e ativa um bar temporário durante a saída, revertendo receita para os gastos remanescentes.

No dia do desfile, o anonimato é garantido pela máscara que cobre totalmente o rosto. Ao toque rítmico das bolas de borracha — sempre atadas a um bastão —, o grupo segue pelas ruas do bairro até outras agremiações amigas. A tradição, embora remeta a tempos em que os bate-bolas corriam atrás de crianças, hoje se concentra na exibição artística, mantendo apenas o som característico das bolas quicando no asfalto.

Reconhecimento cultural, desafios de apoio público e crítica à centralização

Os bate-bolas foram tombados como Patrimônio Cultural em 2012, mas ainda lutam por visibilidade proporcional. A professora de Turismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Caroline Bottino, explica que os grupos se estruturaram juridicamente para acessar editais, porém o aporte financeiro continua inferior ao destinado às áreas turísticas centrais. Para ela, as turmas de bate-bolas descentralizam o carnaval, pois celebram a festa nos subúrbios, mas sobrevivem à base da resistência intergeracional de seus integrantes.

As Brilhetes de Anchieta vivenciam essa realidade quando disputam espaço no concurso de fantasias promovido pela administração municipal. A inscrição, hoje presencial e limitada ao período da manhã, exige que um representante se desloque até o centro da cidade. Vanessa Amorim relata que o trajeto de trem pode levar mais de uma hora, ida e volta, tornando inviável retornar a tempo de vestir a fantasia. O pedido para que a organização aceite registros on-line ainda não foi atendido.

Questionada sobre a concentração de investimentos e a ausência de resposta sobre a dinâmica do concurso, a empresa municipal responsável pela festa não apresentou informações atualizadas. Enquanto isso, o grupo feminino planeja exibir o figurino de “muita qualidade” na Terça-feira de Carnaval, quando a competição acontece tradicionalmente.

Agenda do desfile e expectativa para o Carnaval 2026

A primeira aparição do ano está marcada para a sexta-feira, 13 de fevereiro, quando o portão do barracão abrirá e as Brilhetes de Anchieta lançarão oficialmente a fantasia do 13.º ano. Em seguida, elas acompanharão a Turma do Brilho e blocos parceiros por diferentes bairros do Rio de Janeiro. A participação no concurso de fantasias, programado para a Terça-feira de Carnaval, depende da confirmação das regras de inscrição.

A trajetória até aqui mostra que, mais do que confecção de roupas, o grupo consolida laços sociais, preserva saberes artesanais e reivindica reconhecimento para uma manifestação que nasceu e permanece forte no subúrbio carioca.

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