Bloco Rola Preguiçosa homenageará Preta Gil no Carnaval 2026 com desfile em Ipanema

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Bloco Rola Preguiçosa, única agremiação de carnaval de rua do Rio de Janeiro formada por quilombolas, confirmou que seu enredo de 2026 será dedicado à cantora Preta Gil, falecida em julho de 2025 em decorrência de câncer no intestino. O desfile está marcado para a sexta-feira de carnaval, 13 de fevereiro, em Ipanema, na zona sul da cidade, e deve atrair de 70 mil a 80 mil participantes, segundo estimativa da Riotur.
- Origem quilombola do Bloco Rola Preguiçosa
- Homenagem a Preta Gil será destaque no desfile do Bloco Rola Preguiçosa
- Detalhes do desfile do Bloco Rola Preguiçosa em Ipanema
- Trajetória de 40 anos do Bloco Rola Preguiçosa
- Quilombo Sacopã: história, território e reconhecimento
- Samba-enredo, camisetas e formas de participação
Origem quilombola do Bloco Rola Preguiçosa
A agremiação nasceu dentro do Quilombo Sacopã, comunidade remanescente que ocupa uma área de 6,4 mil metros quadrados às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. O quilombo teve início em 1929, quando Manoel Pinto Júnior se instalou na Ladeira do Sacopã. Posteriormente, trouxe da região serrana de Nova Friburgo a esposa, Eva Manoela Cruz, e os cinco filhos do casal, dando origem aos ramos familiares que ainda hoje vivem no local.
Em 1999, os descendentes assumiram formalmente a identidade quilombola e, seis anos depois, receberam a certificação da Fundação Palmares. O reconhecimento federal definitivo das terras chegou em 2014, garantindo a posse coletiva a nove famílias — atualmente somando 26 pessoas — e incorporando parte do território ao Parque Natural Municipal José Guilherme Merquior.
Homenagem a Preta Gil será destaque no desfile do Bloco Rola Preguiçosa
A escolha de homenagear Preta Gil partiu do diretor da agremiação, Felipe Montfort, ex-colega de escola de uma das irmãs da artista. Como Preta nasceu e cresceu em Ipanema, a proximidade geográfica reforçou a decisão. Após três reuniões internas, a proposta foi aprovada e o compositor Luiz Sacopã, fundador do bloco, escreveu o samba-enredo que servirá de trilha sonora para o cortejo de 2026. No refrão, a composição faz referência a uma estrela que guia os foliões e celebra o legado da cantora.
Com a iniciativa, o bloco se alinha ao costume carioca de reverenciar personalidades da música popular, transformando a história da artista em tema de celebração coletiva. A homenagem preserva a memória de Preta Gil e, ao mesmo tempo, destaca a ligação do bairro com sua trajetória artística e familiar.
Detalhes do desfile do Bloco Rola Preguiçosa em Ipanema
A concentração do cortejo ocorrerá a partir das 18 h na Rua Maria Quitéria, esquina com a Avenida Epitácio Pessoa, ao lado da Lagoa Rodrigo de Freitas. A saída está programada para as 20 h, com deslocamento em direção à Rua Farme de Amoedo, onde acontecerá a dispersão no encontro com a Rua Visconde de Pirajá. O trajeto percorre vias emblemáticas do bairro e costuma lotar a região, exigindo planejamento de mobilidade do poder público e atenção dos foliões.
Por não impor taxa de participação, o bloco mantém a tradição da democratização do carnaval de rua carioca. A entrada é livre, e os organizadores aconselham apenas o uso de roupas confortáveis e respeito às orientações de segurança. Segundo dados municipais, a agremiação movimenta de 70 mil a 80 mil pessoas, o que coloca a homenagem a Preta Gil entre as maiores concentrações populares previstas para o feriado de 2026.
Trajetória de 40 anos do Bloco Rola Preguiçosa
Criado há cerca de quatro décadas por Luiz Sacopã, hoje com 84 anos, o bloco surgiu como extensão cultural do Quilombo Sacopã. Durante a década de 1990, quando a epidemia de HIV dominava o debate público, o nome Rola Preguiçosa despertou resistência e enfrentou tentativas de censura. Para contornar possíveis bloqueios, a equipe acrescentou o complemento “Tarda Mas Não Falha”, mantendo o humor original sem afrontar as normas sanitárias da época.
O designer Hans Donner, referência em identidade visual televisiva, assumiu a criação da primeira camiseta do grupo, garantindo visibilidade para a agremiação nascente. Naquele desfile inaugural, realizado em 1993, Valéria Valenssa ocupou o posto de rainha, enquanto a atriz e cantora Zezé Motta foi madrinha do cortejo. Esses apoios impulsionaram o bloco, que se consolidou como símbolo de resistência cultural afro-descendente no bairro.
Ao longo dos anos, Luiz Sacopã chegou a cogitar o encerramento das atividades, mas a insistência dos foliões manteve a iniciativa viva. Hoje, a presença do bloco no calendário oficial carioca é vista como importante vitrine para a cultura quilombola em meio aos grandes desfiles de rua da cidade.
Quilombo Sacopã: história, território e reconhecimento
O Quilombo Sacopã está situado em área nobre da cidade, fator que resultou em disputas fundiárias e pressões imobiliárias ao longo do tempo. O processo de certificação pela Fundação Palmares e o posterior título de domínio emitido pelo governo federal representaram marcos na garantia de permanência da comunidade em seu território ancestral.
Com nove famílias residentes, a organização social do quilombo baseia-se em laços de parentesco e na defesa de práticas culturais afro-brasileiras. A manutenção do samba de roda, da culinária tradicional e das festas religiosas fortalece a identidade coletiva. O Bloco Rola Preguiçosa é parte central desse sistema cultural, servindo como plataforma de visibilidade para questões de memória e direitos territoriais.
A localização do quilombo junto à Lagoa Rodrigo de Freitas também o insere em circuito turístico da cidade. A presença do bloco no carnaval reforça a integração da comunidade ao cotidiano carioca, ao mesmo tempo em que evidencia a singularidade de um quilombo urbano protegido por legislação federal.
Samba-enredo, camisetas e formas de participação
Em 10 de janeiro, a organização lançou o samba-enredo que conduzirá a bateria e os foliões. A letra traz referências à infância da cantora em Ipanema e à sua relevância para a música popular brasileira. O refrão, composto por Sacopã, descreve o brilho de uma estrela que ilumina o caminho do cortejo, remetendo à presença simbólica de Preta Gil no evento.
O bloco não utiliza fantasias padronizadas. A opção oficial é a camiseta temática, cujo layout de 2026 foi desenvolvido pelo cenógrafo Abel Gomes, responsável pela concepção da Árvore de Natal da Lagoa, pela direção artística das cerimônias das Olimpíadas de 2016 e pelo desenho dos espetáculos de Réveillon em Copacabana desde 2007. A nova peça será lançada em 17 de janeiro. A aquisição é facultativa; quem não comprar pode participar livremente, honrando a filosofia de acesso irrestrito que rege o grupo.
Além de instrumento de identidade visual, a venda de camisetas ajuda a custear infraestrutura, transporte de instrumentos e logística. Como não há cobrança de taxa dos foliões, a arrecadação oriunda das vendas torna-se fundamental para garantir segurança, sonorização e limpeza do percurso.
O próximo passo para interessados é aguardar o início da concentração às 18 h de 13 de fevereiro de 2026, na Rua Maria Quitéria, ponto de partida do cortejo em homenagem a Preta Gil.

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