Bloco do Amor consolida carnaval sem preconceitos em Brasília e celebra 11 anos de diversidade

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Bloco do Amor reuniu novamente milhares de foliões nos arredores da Biblioteca e do Museu Nacional, em Brasília, e reforçou sua proposta de carnaval respeitoso e livre de preconceitos durante a edição de 2026.
- Bloco do Amor: 11 anos de respeito e folia no coração de Brasília
- Origem do Bloco do Amor e sua proposta político-poética
- Crescimento de público e mudança de endereço do Bloco do Amor
- Pluralidade musical e ambiente seguro para a comunidade LGBTQIAPN+
- Relatos de foliões: carnaval como espaço de liberdade
- Resultados concretos no combate ao assédio e expectativas para os próximos dias
Bloco do Amor: 11 anos de respeito e folia no coração de Brasília
Fundado em 2015, o Bloco do Amor chega à sua décima primeira edição com o lema “Sonhar como Ato de Existência”. Desde a estreia, o grupo se caracteriza por ocupar o centro da capital federal com manifestações artístico-culturais que valorizam a diversidade e estimulam o respeito mútuo entre os participantes. Em 2025, o bloco já havia registrado público próximo de 70 mil pessoas, de acordo com seus organizadores, e manteve uma forte adesão em 2026, demonstrando a consolidação de um espaço carnavalesco que dialoga com inclusão, segurança e pluralidade.
Origem do Bloco do Amor e sua proposta político-poética
A semente do Bloco do Amor foi plantada a partir de iniciativas voluntárias na Via S2 do Plano Piloto, região central de Brasília onde trabalhadores vendiam presentes relacionados ao afeto. A partir desse cenário, os idealizadores perceberam a necessidade de criar uma manifestação que discutisse o amor nos espaços públicos da cidade. O resultado foi um bloco cujo DNA é mesclar política, poesia e celebração, sempre acompanhado de cores vivas e abundante glitter que simbolizam a alegria carnavalesca.
O propósito original permanece: garantir um território livre de preconceitos, sobretudo para a comunidade LGBTQIAPN+. A cada ano, os desfiles incluem mensagens sobre aceitação e convivência harmônica, recurso que converte a festa em plataforma de diálogo social. Em 2026, o lema escolhido evidencia essa intenção ao tratar sonho e alegria como ferramentas de resistência e transformação, reforçando o caráter político-poético do cortejo.
Crescimento de público e mudança de endereço do Bloco do Amor
Nos primeiros anos, a Via S2 abrigou as apresentações. Contudo, com a expansão acelerada do público, o espaço tornou-se insuficiente. A organização, liderada pela coordenadora geral Letícia Helena, transferiu o ponto de encontro para a área externa do Museu Nacional de Brasília. A mudança possibilitou acomodar a crescente quantidade de foliões com maior conforto e segurança, além de inserir o bloco em área simbólica do Eixo Monumental.
A edição de 2026 integra a chamada Plataforma Monumental, estrutura capaz de sediar vários eventos carnavalescos ao longo de quatro dias. Essa integração reforça a visibilidade do bloco e facilita a logística para autoridades de segurança pública, que monitoram o local para garantir um ambiente tranquilo. Segundo dados mencionados por Letícia Helena, em 2024 a festa ocorreu sem registro de violência ou assédio contra mulheres, resultado atribuído ao treinamento da equipe de produção e à adoção de protocolos específicos.
Pluralidade musical e ambiente seguro para a comunidade LGBTQIAPN+
A diversidade do Bloco do Amor transcende a presença de foliões de diferentes orientações e identidades; ela abrange também a seleção musical. De acordo com a coordenadora geral, a trilha sonora intercala axé retrô, música pop, MPB, forró e eletrônico, criando um repertório inclusivo que dialoga com distintos gostos. Os ritmos variados impulsionam a dança e mantêm a energia elevada do início ao fim do cortejo.
A curadoria musical é acompanhada de uma preocupação intensa com a segurança da comunidade LGBTQIAPN+. Letícia Helena, que também é produtora cultural, cantora, figurinista e graduada em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília (UnB), explica que o bloco desenvolve rotinas internas de capacitação, instruindo a equipe sobre abordagem de possíveis conflitos e acolhimento de vítimas. Esses procedimentos foram essenciais para a redução drástica de incidentes relatados ao longo dos anos.
Os depoimentos dos participantes ilustram como o ambiente criado pelo bloco impacta vidas. O casal formado por Fernando Franq, 34, e Ana Flávia Garcia, 53, define o evento como “bloco do coração”. Ambos ressaltam o caráter artístico da festa e a sensação de segurança que encontram, elemento decisivo para pessoas LGBTQIAPN+. Fernando salienta que inúmeras pessoas responsáveis pela organização são amigas do casal, o que torna o espaço ainda mais acolhedor.
Do ponto de vista dos mais jovens, a experiência é igualmente marcante. Clarisse Pontes, 22, recém-formada em Biologia, participa de seu primeiro bloco de carnaval justamente por confiar na reputação de respeito associada ao Bloco do Amor. A expectativa declarada é viver momentos de paz e diversão, elemento essencial na missão do grupo de quebrar estereótipos sobre a festa carnavalesca.
Veterano de quatro edições, o estudante Alasca Ricarte, 23, usa fantasia inspirada no mito grego de Dioniso combinada às cores da bandeira da bissexualidade. Ele interpreta o carnaval como oportunidade de revelar identidades de forma genuína. Para Alasca, o ambiente livre de coerções possibilita expressar-se plenamente e aceitar cada pessoa como é, visão que sintetiza a proposta do bloco.
A frequentadora Ana Luíza, 25, destaca ter escolhido o Bloco do Amor após vivenciar, em outros desfiles, casos de desrespeito a mulheres. Ela associa a palavra “aceitação” à ideia de segurança e encontra nessa atmosfera o cenário ideal para celebrar o carnaval. Já Ricardo Maurício, 41, comparece ao lado da esposa e da filha de sete anos, demonstrando confiabilidade familiar no evento. Ele afirma abordar diversidade dentro de casa e enxerga o bloco como extensão prática desse diálogo, permitindo à criança entender a riqueza das diferenças.
Resultados concretos no combate ao assédio e expectativas para os próximos dias
Dados repassados pela organização indicam que, graças aos protocolos de prevenção e à comunicação direta com o público, os registros de assédio diminuíram significativamente ao longo dos anos, chegando a índice zero durante a festa de 2024 segundo a Secretaria de Segurança Pública. O investimento em treinamento de equipe, aliado à divulgação constante de orientações, prova ser eficaz para tornar o carnaval um lugar de convivência pacífica.
Para 2026, o objetivo permanece ampliar o alcance das mensagens de respeito e fortalecer a Plataforma Monumental como referência de diversão segura. A programação seguirá até o encerramento oficial dos quatro dias previstos, mantendo a expectativa de público elevado e sem ocorrência de incidentes. Com isso, o bloco confirma seu papel não apenas como atração carnavalesca, mas como agente de transformação social que utiliza música, arte e brilho para lembrar que o espaço público pertence a todos.

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