Bloco Divinas Tretas celebra carnaval sem assédio e diversidade no Rio de Janeiro

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Milhares de foliões despertaram nas primeiras horas do domingo de carnaval para ocupar o Aterro do Flamengo e participar do Bloco Divinas Tretas, manifestação popular que transformou a área de lazer da zona sul do Rio de Janeiro em ponto de encontro para quem busca uma festa inclusiva, sem assédio e com forte apelo à diversidade.
- Bloco Divinas Tretas: diversidade no coração do carnaval carioca
- Programação musical do Bloco Divinas Tretas aposta em ritmos plurais
- Ambiente seguro do Bloco Divinas Tretas e combate ao assédio
- Raízes históricas: do pioneiro Toco-Xona ao presente
- Mobilização social: bloco lembra julgamento do caso Marielle Franco
- Como o Divinas Tretas organiza logística e acolhimento
- Relevância cultural e expectativa para os próximos encontros
O principal fato do dia foi a concentração – sem deslocamento – do Bloco Divinas Tretas em um cenário ensolarado e de altas temperaturas. O coletivo está entre os 55 cortejos autorizados para levar música e alegria aos cariocas nesta data específica do calendário momesco. A aglomeração começou nas primeiras horas da manhã e se estendeu por várias quadras do Aterro, evidenciando a adesão maciça de públicos diversos, sobretudo da comunidade LGBTQIA+. Embora permaneça estático, o grupo conseguiu gerar atmosfera de micareta, tornando o espaço um grande salão a céu aberto.
A origem do projeto remete ao antigo bloco Toco-Xona, criado em 2007 como o primeiro bloco explicitamente LGBTQIA+ da cidade. Após o hiato provocado pela pandemia de covid-19, o grupo foi rebatizado em 2022, assumindo identidade renovada, mas mantendo o compromisso de acolher quem historicamente foi minorizado em grandes eventos de rua. Essa história confere legitimidade ao cortejo diante de foliões que valorizam representatividade e segurança.
Programação musical do Bloco Divinas Tretas aposta em ritmos plurais
A proposta sonora da edição 2026 foi elaborada para refletir a multiplicidade cultural brasileira. O repertório intercalou execuções ao vivo e faixas de DJ, costurando samba, axé, piseiro e inserções de rock, tudo permeado por sucessos do universo pop nacional e internacional. A banda base contou com a cantora e multi-instrumentista Karol Gomes, que alternou voz principal e tamborim, enquanto a produção executiva de Thaissa Zin garantiu a curadoria das canções que dialogam com o público.
Nos intervalos das apresentações musicais, a DJ Laís Conti assumiu as pickups e manteve o clima elevado. O set list foi pensado como mosaico democrático, priorizando faixas capazes de criar sensação de pertencimento entre frequentadores heterossexuais, gays, bissexuais, pessoas não-binárias e demais identidades presentes. O cuidado com a trilha sonora demonstra a atenção do bloco à experiência coletiva e reforça a intenção de que ninguém se sinta deslocado.
Ambiente seguro do Bloco Divinas Tretas e combate ao assédio
Entre os fatores que explicam a popularidade crescente do Bloco Divinas Tretas está a percepção de segurança transmitida a frequentadores de perfis variados. Relatos de foliãs como a enfermeira Letícia de Almeida Lopes, de 26 anos, indicam que o espaço permite liberdade de vestimentas e de dança sem receio de olhares condenatórios. A vendedora Thaísa Galvão, 28, reforçou que o clima amistoso evita conflitos e estimula a convivência pacífica. Já a analista de operações Jennifer de Oliveira, também de 28, destacou a ausência de assédios masculinos, descrevendo a experiência como libertadora.
Esse ambiente só é possível devido às práticas de organização do bloco. Equipes de apoio circulam entre os foliões para oferecer informação, mediar eventuais conflitos e orientar sobre condutas respeitosas. Além disso, avisos sonoros lembram constantemente que carnaval só é divertido quando todos se sentem seguros. O resultado é um microcosmo onde a sociabilidade não abre espaço para violência de gênero ou discriminação, convertendo o desfile em referência para outros coletivos de rua.
Raízes históricas: do pioneiro Toco-Xona ao presente
Com quase duas décadas de trajetória, a formação que hoje se apresenta como Divinas Tretas carrega legado relevante. O Toco-Xona, surgido em 2007, firmou-se na história do carnaval carioca por inaugurar um palco explícito para a cultura LGBTQIA+ na folia de rua. A criação coincidiu com crescimento dos blocos independentes no Rio, fenômeno que descentralizou as festividades e deu visibilidade a grupos antes marginalizados.
Durante seus primeiros anos, o Toco-Xona percorreu bairros como Lapa, Praça Tiradentes e o próprio Aterro, sempre defendendo respeito à livre orientação sexual. A pandemia, contudo, interrompeu temporariamente as atividades. No retorno pós-crise sanitária, a mudança de nome para Divinas Tretas marcou nova fase, ainda alinhada ao DNA original, mas disposta a dialogar com público mais amplo e incorporar discussões de gênero, raça e classe. Essa evolução demonstra capacidade de adaptação e consolida o bloco como agente cultural que ultrapassa a mera função de entretenimento.
Além da música, o Bloco Divinas Tretas aproveitou a alta concentração de foliões para pautar tema de interesse público: o julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal, de réus apontados como envolvidos nos assassinatos de Marielle Franco e do motorista Anderson Torres, crimes ocorridos em março de 2018. Nos dias 24 e 25 de fevereiro, a Corte analisará processos contra o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, Domingos Brazão; seu irmão, o ex-deputado federal Chiquinho Brazão; o ex-chefe da Polícia Civil do Rio, Rivaldo Barbosa; o major da Polícia Militar Ronald Alves de Paula; e o ex-policial militar Robson Calixto, assessor de Domingos. Todos se encontram presos preventivamente.
Para lembrar o calendário do julgamento, integrantes do bloco distribuíram leques estampados com a data e realizaram avisos de palco. A iniciativa reforça o caráter de engajamento social do grupo, conectando folia e cidadania. Ao inserir o tema em pleno carnaval, o coletivo amplia a divulgação de um processo aguardado pela sociedade civil, especialmente por movimentos ligados à defesa dos direitos humanos.
Como o Divinas Tretas organiza logística e acolhimento
O planejamento interno envolve produção executiva, equipe sonora, brigadistas voluntários e articuladores de redes sociais que divulgam regras de convivência antes mesmo do encontro presencial. Postagens explicam pontos de acesso, recomendam hidratação, indicam áreas de descarte de lixo e orientam sobre consentimento. No dia do evento, barracas de apoio oferecem água, protetor solar e informações sobre saúde sexual, reforçando o caráter de cuidado mútuo.
Essa estrutura se reflete na fluidez do evento. Mesmo sem deslocamento em cortejo, o bloco requer logística de som, montagem de palco e coordenação de circulação para evitar gargalos. A experiência adquirida desde 2007 contribui para que a operação ocorra sem incidentes relevantes, consolidando a reputação do grupo entre foliões e autoridades municipais.
Relevância cultural e expectativa para os próximos encontros
A cada ano, o Bloco Divinas Tretas reafirma seu papel como espaço de expressão artística, política e identitária. A combinação de repertório amplo, ambiente seguro e engajamento em pautas sociais transforma o coletivo em caso de estudo sobre como blocos de rua podem atuar como plataformas de direitos no Brasil contemporâneo. As histórias pessoais narradas pelos participantes ilustram o impacto direto na vida de quem encontra no carnaval oportunidade de vivenciar liberdade plena.
Após o encerramento da programação deste domingo, a atenção do bloco – e de muitos foliões – volta-se para os dias 24 e 25, quando o Supremo Tribunal Federal julgará o processo relacionado aos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Torres. O desfecho desse julgamento será acompanhado de perto pelo coletivo, que sinalizou intenção de continuar mobilizando suas redes para manter o tema em evidência.

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