Bloco Besa Me Mucho leva ritmos latinos ao Morro da Providência e reforça integração continental

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O Besa Me Mucho, bloco formado em torno de músicos imigrantes e coletivos culturais do Rio de Janeiro, transformou as ladeiras do Morro da Providência, no centro da cidade, em um grande encontro de ritmos latino-americanos na manhã de domingo, 8 de fevereiro. O cortejo, que começou na escadaria da Rua Costa Barros, misturou percussão brasileira, canções de toda a América Hispânica e uma mensagem clara de integração continental, reafirmando o caráter político do carnaval de rua carioca.
- A trajetória do Besa Me Mucho no carnaval carioca
- Besa Me Mucho e o simbolismo do Morro da Providência
- Ritmos e repertório: como o Besa Me Mucho mistura sonoridades latinas e brasileiras
- Imigrantes no protagonismo: rostos e histórias por trás do Besa Me Mucho
- Bloco Besa Me Mucho reforça integração latino-americana em 2026
A história do Besa Me Mucho está diretamente ligada a coletivos que atuam há anos na Providência, a exemplo do Cortejinho RJ, nascido no próprio morro. Essas iniciativas, unidas pelo desejo de ocupar espaços públicos com arte, deram origem ao bloco e mantêm a proposta de fazer da rua um palco de resistência cultural. Desde sua criação, o grupo opta por repertórios voltados à música latina e se apresenta em regiões carregadas de simbologia para a cultura afro-carioca, como a chamada Pequena África. Ao desfilar na primeira favela do Brasil, o bloco estabelece um elo entre passado e presente, lembrando que manifestações populares sempre foram meios de expressão coletiva e afirmação de identidade.
Neste carnaval de 2026, o Besa Me Mucho manteve a tradição de reunir moradores, foliões de outras partes da cidade e estrangeiros que buscam viver o carnaval pela primeira vez. A convivência de sotaques, idiomas e influências sonoras faz parte do DNA do cortejo, que se destaca entre os 432 blocos autorizados a desfilar no município até 22 de fevereiro, de acordo com a programação oficial divulgada pela prefeitura.
Besa Me Mucho e o simbolismo do Morro da Providência
Escolher o Morro da Providência como cenário não é apenas uma decisão logística. O local, reconhecido como a primeira favela do Brasil, carrega uma história de luta e de formação de identidades negras, latino-americanas e populares. Para os organizadores, fazer música latina nas vielas da Providência reforça a conexão do Rio com o resto do continente e transforma cada rua ocupada em um lembrete de que fronteiras são construções políticas, não barreiras culturais. A concentração do cortejo na esquina da Rua Costa Barros com a Ladeira do Livramento reforçou essa ideia de interação entre diferentes trajetórias, sejam elas de moradores antigos, de recém-chegados de outros países ou de visitantes de bairros próximos.
Ao percorrer as escadarias e descidas íngremes do morro, o bloco resgata também a memória de outras ladeiras da América Latina, muitas vezes palco de manifestações sociais. Essa geografia, associada à sonoridade híbrida que alterna batuques brasileiros com gêneros caribenhos e andinos, cria uma experiência que transcende a folia pela folia, inserindo no roteiro do carnaval carioca um debate sobre pertencimento e solidariedade continental.
Ritmos e repertório: como o Besa Me Mucho mistura sonoridades latinas e brasileiras
O cortejo é marcado pela fusão de timbres de tambores tipicamente brasileiros com instrumentos de sopro e percussões característicos de países vizinhos. A mistura funciona como metáfora musical para a proposta de integração: artistas de diferentes origens executam cumbias, salsas, boleros e sambas sem hierarquias entre os estilos. Além de reafirmar afinidades rítmicas, o repertório evidencia a proximidade histórica entre o samba carioca e gêneros latino-americanos que nasceram de processos semelhantes de resistência cultural.
Ao longo da apresentação, o público pôde acompanhar passagens em que a cadência do samba se fundiu à percussão afro-caribenha, produzindo arranjos que estimulam a participação espontânea. O caráter colaborativo do desfile se revela também na maneira como os músicos se distribuem pela rua: não há palco elevado, todos tocam no mesmo nível dos foliões, reforçando a horizontalidade que o bloco defende.
Imigrantes no protagonismo: rostos e histórias por trás do Besa Me Mucho
Com maioria de integrantes vindos de outros países da América Latina e da Europa, o Besa Me Mucho faz da diversidade humana seu principal instrumento. Entre os destaques do desfile esteve o espanhol Andrés Martin, de 21 anos, que escolheu o Rio para viver o primeiro carnaval e encontrou no bloco a representação da liberdade que associa à cultura latino-americana. Já a bióloga venezuelana Salomé, residente no Brasil há sete anos e meio, atua na banda do bloco e enfatiza a rua como espaço de vida coletiva, argumentando que a ocupação dos ambientes públicos garante visibilidade às pautas de quem migra.
O professor e sociólogo André Videira de Figueiredo, também músico do grupo, reforça que a proposta musical não se separa das questões políticas. Ao incluir a música brasileira no repertório latino-americano, o bloco afirma que o país faz parte desse «grande aglomerado político» chamado América Latina. Para o editor Felipe Eugênio Santos e Silva, presença constante nos desfiles do bloco, o encontro ajuda a corrigir a percepção de que o Brasil estaria isolado do restante do continente.
Visões semelhantes foram expressas pelo empresário carioca Michael Pinheiro e pelo sociólogo Rodrigo Freitas, que percebem o carnaval de rua como ferramenta de comunicação social. Ambos consideram que manifestações como o Besa Me Mucho produzem consciência coletiva, pois convertem a festa em ambiente de troca de experiências e reforço de identidades compartilhadas.
Bloco Besa Me Mucho reforça integração latino-americana em 2026
Neste ano, a mensagem política ganhou contornos ainda mais claros. Participantes aproveitaram o cortejo para refletir sobre políticas migratórias em vigor em outras regiões do continente, sobretudo nos Estados Unidos, onde o tratamento dispensado a imigrantes, incluindo crianças, entrou no centro do debate público. Ao exibir faixas, entoar canções e ocupar as escadarias da Providência, o bloco buscou demonstrar solidariedade a quem enfrenta barreiras fronteiriças e, ao mesmo tempo, celebrar a diversidade que caracteriza o carnaval carioca.
O caráter de resistência cultural também se expressou no discurso dos foliões, que relacionam o ato de tocar e cantar nas ruas com a defesa de direitos básicos de circulação, moradia e expressão artística. A cada parada do cortejo, moradores antigos observavam das janelas, enquanto visitantes se integravam à batucada, o que reforçou a ideia de que a rua pertence a quem nela vive, trabalha e se diverte.
Com a autorização municipal para 432 blocos em 2026, o Rio de Janeiro consolida-se como um dos maiores palcos de carnaval de rua do mundo. O aplicativo «Blocos do Rio 2026» e o site oficial disponibilizam datas, horários e trajetos, permitindo que moradores e turistas acompanhem a agenda até o encerramento dos desfiles, marcado para 22 de fevereiro. Nesse contexto, o Besa Me Mucho ocupa posição singular: combina entretenimento, inclusão social e afirmação identitária, lembrando que a música e a ocupação do espaço público podem funcionar como instrumentos de integração continental.
À medida que o calendário avança, os organizadores do bloco seguem mobilizados para novas apresentações ao longo do período oficial de folia, mantendo a proposta de levar ritmos latinos às ruas do Rio e aprofundar o diálogo entre Brasil e demais países da América Latina.

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