Blackface no carnaval: ativistas alertam para racismo em fantasias e uso de cabelos afro
O blackface voltou ao centro do debate sobre racismo no Brasil às vésperas do carnaval. Administradores da página Samba Abstrato, composta por pessoas negras que pesquisam o tema há quase uma década, denunciam que foliões brancos continuam a recorrer a perucas afro, tranças sintéticas e referências caricatas para compor fantasias. Segundo o grupo, essa prática reproduz estereótipos que ridicularizam a identidade negra e perpetuam a marginalização cultural que atravessa a história da festa.
O ponto de partida da crítica da Samba Abstrato é a presença de foliões brancos que escolhem se fantasiar de “nega maluca”, de “mulher preta” ou de personagens indígenas, muitas vezes adotando adereços que simulam cabelos crespos, turbantes ou pinturas faciais. Para os ativistas, esse comportamento é uma continuidade direta da tradição dos blackface do século XIX, quando atores brancos pintavam a pele de escuro para interpretar, de forma depreciativa, personagens negros nos palcos norte-americanos.
No contexto brasileiro, a denúncia incorpora um novo termo: “blackface de cabelo”. Ele descreve a situação em que a pele não é pintada, mas o cabelo afro é imitado como mero ornamento, desconectado do significado cultural que possui para as comunidades negras. De acordo com os administradores, a ação torna-se ainda mais problemática quando se observa que, durante o ano inteiro, o padrão estético dominante valoriza cabelos lisos, enquanto cabelos crespos sofrem rejeição em espaços de trabalho, lazer e mídia.
Raízes históricas do blackface e sua adaptação aos cabelos
O blackface tradicional surgiu nos Estados Unidos ao longo do século XIX. Atores brancos escureciam o rosto com graxa ou carvão para representar escravizados, criando estereótipos que reforçavam a inferioridade social das pessoas negras. Nas últimas décadas, movimentos antirracistas vêm ampliando a definição, incluindo qualquer representação artística ou carnavalesca que utilize traços físicos negros de forma caricata.
No Brasil, a estética afro foi por muito tempo classificada como “cabelo ruim”. Esse estigma impactou a trajetória profissional de mulheres negras, que muitas vezes precisaram alisar os fios para se adequar a padrões considerados “aceitáveis”. A Samba Abstrato recorda que, simultaneamente a esse processo de exclusão, cresce a procura de pessoas não negras por perucas crespas quando chega fevereiro. Para o grupo, o contraste evidencia que o cabelo afro é apreciado como fantasia, mas rejeitado quando carrega a vivência social do povo negro.
Como o blackface afeta o protagonismo negro nas escolas de samba
Além das fantasias de rua, a Samba Abstrato aponta para um fenômeno crescente dentro das próprias escolas de samba: a escolha de mulheres brancas como passistas em alas tradicionalmente ocupadas por integrantes das comunidades. Embora não seja ilegal, essa seleção, segundo os ativistas, retira espaço de visibilidade das mulheres negras e reforça o processo de embranquecimento do carnaval.
O professor Juarez Tadeu de Paula Xavier, diretor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), descreve esse cenário como um “aniquilamento social e cultural”. Ele afirma que a negação da estética negra integra a lógica de invisibilização que se estende do pós-abolição até hoje. Xavier lembra que as escolas de samba nasceram como estratégia de sobrevivência coletiva de pretos e pardos excluídos do mercado de trabalho, e que sua história é indissociável das contribuições africanas para a cultura brasileira.
Quando perucas crespas são usadas por quem não compartilha dessa identidade, ou quando a dança é executada por quem não possui intimidade com o samba, cria-se o que a Samba Abstrato chama de “samba na ponta do braço”: a performance imita o ritmo, mas ignora sua origem e sua função social. Essa dissociação reforça o sentimento de que, em pleno século XXI, a cultura afro-brasileira permanece sujeita a apropriação e descaracterização.
Campanha governamental combate o blackface e outras violências raciais
Em resposta às tensões que reaparecem a cada temporada carnavalesca, o Ministério da Igualdade Racial (MIR) lançou a campanha “Sem Racismo, o Carnaval Brilha Mais”. A iniciativa foi apresentada ao público na última segunda-feira (12), no Rio de Janeiro, e se estende às principais festas do país. A distribuição de materiais informativos começa no sábado (17) e abordará temas como injúria racial, fantasias ofensivas e violências simbólicas.
O secretário de Combate ao Racismo do MIR, Tiago Santana, considera que o debate avançou nos últimos anos: fantasias abertamente estereotipadas tornaram-se menos frequentes, mas ainda há resistência. Para a pasta, a ação educativa é essencial para coibir novas ocorrências e fortalecer uma visão de carnaval que respeite culturas afro-brasileiras e religiões de matriz africana.
Segundo o ministério, a campanha ganha dimensão estratégica por carregar a marca do governo federal. Isso demonstra, na avaliação do professor Juarez Xavier, que existe empenho institucional em enfrentar o blackface e formas correlatas de discriminação nas ruas, nos desfiles e nos camarotes.
Denúncia de blackface: canais de apoio e próximos passos
A página Samba Abstrato, o MIR e especialistas em direitos humanos concordam que a denúncia é uma ferramenta indispensável de enfrentamento. O ministério estimula vítimas e testemunhas a registrarem ocorrências pelo Disque 100, serviço mantido pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Também é possível acionar a Ouvidoria do Ministério da Igualdade Racial por e-mail, no endereço ouvidoria@igualdaderacial.gov.br.
Para reforçar a responsabilização, o professor Juarez Xavier recomenda formalizar boletim de ocorrência na delegacia mais próxima, permitindo que os casos sejam tipificados de acordo com a legislação brasileira. A expectativa dos organizadores da campanha é que a combinação de informação, ação governamental e mobilização social reduza a incidência do blackface e de outras expressões racistas já durante o carnaval que se inicia neste sábado (17).

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