Bienal de São Paulo estabelece novas cláusulas para curadores após críticas sobre transparência

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Bienal de São Paulo passa a adotar cláusulas jurídicas específicas nos contratos com futuros diretores artísticos, uma resposta direta à onda de queixas gerada pela 36ª edição, encerrada em janeiro com 784 mil visitantes.
- Bienal de São Paulo: deliberação do conselho e novos “guardrails”
- Críticas à Bienal de São Paulo: o que motivou a mudança
- A atuação de Bonaventure Soh Bejeng Ndikung e a arquitetura da 36ª edição
- Financiamento público e responsabilidade da Bienal de São Paulo
- Histórico de montagens ousadas na Bienal de São Paulo
- Perspectivas para a próxima gestão e continuidade de Andrea Pinheiro
- O que o público pode esperar das próximas edições da Bienal de São Paulo
Bienal de São Paulo: deliberação do conselho e novos “guardrails”
O conselho da Fundação responsável pela Bienal de São Paulo decidiu, em reunião recente, inserir salvaguardas formais nos acordos firmados com os próximos curadores. Integrantes de alto escalão descrevem esses dispositivos como “guarda-corpos” destinados a impedir que escolhas conceituais dificultem a compreensão do público. O pacote de regras tem o propósito de garantir que informações básicas — como autoria das obras e contexto de criação — estejam sempre acessíveis durante a mostra realizada no pavilhão projetado por Oscar Niemeyer, no parque Ibirapuera.
Na prática, a decisão cria uma camada de controle que não existia de forma explícita. A iniciativa surge após a direção da 36ª edição optar por ocultar nomes dos artistas na montagem, estratégia que desagradou espectadores, críticos e até participantes. A partir de agora, cada contrato terá redação pormenorizada com foco em transparência, sem suprimir a autonomia criativa, mas delimitando procedimentos mínimos de mediação junto ao visitante.
Críticas à Bienal de São Paulo: o que motivou a mudança
A polêmica anterior começou com a curadoria de Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, curador camaronês que comandou a edição encerrada em janeiro. Sob sua orientação, a exposição adotou cortinas coloridas volumosas que encobriam parte das peças e retirou etiquetas convencionais de identificação. O resultado foi interpretado como um obstáculo ao entendimento do trabalho de dezenas de artistas internacionais e brasileiros.
Durante o período de exibição, vozes do circuito artístico relataram inconformidade em conversas informais, jantares e vernissages. A ausência do “quem fez” virou tema recorrente de reclamações. Embora a ideia buscasse enfatizar o conjunto curatorial, muitos frequentadores recorreram a catálogos ou aparelhos celulares para descobrir autoria e procedência das obras.
A repercussão negativa alcançou o topo da estrutura organizacional da Fundação. Conselheiros destacaram que, ao ser a segunda bienal mais tradicional do planeta — atrás apenas da Bienal de Veneza, fundada no fim do século XIX —, a mostra paulistana precisa conciliar experimentação com um mínimo de legibilidade.
Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, profissional nascido em Camarões, concebeu um percurso expositivo marcado por extensa intervenção espacial. Além das cortinas, opções de iluminação e divisórias diferenciadas criaram zonas de sombra e recortes visuais que priorizavam a experiência sensorial. Contudo, parte dos visitantes avaliou que a cenografia pesava mais do que as próprias criações artísticas.
Os artistas participantes também se manifestaram. Muitos queriam que sua autoria fosse reconhecida de forma imediata, especialmente porque a Bienal de São Paulo funciona como vitrine internacional. Para criadores em início de carreira, a visibilidade de nome e obra pode representar convites para galerias, premiações ou feiras de arte. O ocultamento, portanto, suscitou desconforto adicional.
Apesar das controvérsias, o evento ampliou em 20 % o público em relação à edição anterior, alcançando 784 mil visitantes. Esse crescimento levou a direção da Fundação a prorrogar a temporada em um mês. Mesmo assim, a alta adesão não neutralizou o debate sobre transparência, elemento que se tornou central na revisão contratual.
Financiamento público e responsabilidade da Bienal de São Paulo
Grande parcela do robusto orçamento da Bienal de São Paulo provém de incentivos obtidos via Lei Rouanet. Esses recursos, direcionados à formação de plateias e à execução de projetos educativos, reforçam o compromisso da instituição com acessibilidade cultural. Em um país de desigualdades estruturais, o órgão entende que arte contemporânea não é língua franca: exige mediação, legendas claras e programas que aproximem diferentes segmentos sociais.
A adoção de cláusulas que assegurem identificação das obras responde, portanto, a duas frentes: a crítica especializada, que cobra clareza, e a necessidade de prestar contas sobre o uso de verba pública. Ao oferecer informações básicas, a Fundação atende parâmetros de políticas culturais que defendem democratização de conteúdos artísticos financiados pelo contribuinte.
Especialistas recordam que o modelo de financiamento via renúncia fiscal pressupõe contrapartidas, entre elas o compromisso com programas educativos. A instituição já mantém iniciativas louváveis nesse campo, mas a experiência recente evidenciou que a comunicação expositiva também precisa ser regulamentada.
Histórico de montagens ousadas na Bienal de São Paulo
A Bienal tem tradição de experimentação radical. Em 1985, por exemplo, a curadora Sheila Leirner organizou a chamada “Bienal da grande tela”, na qual pinturas de múltiplos artistas foram penduradas lado a lado com espaçamento mínimo. A proposta dividiu opiniões: alguns celebraram a densidade visual; outros julgaram a escolha caótica. Episódios como esse ilustram que rupturas fazem parte da história da mostra e frequentemente impulsionam discussões mais amplas sobre formato e recepção.
O caso de 2023 repete o padrão de tensão entre inovação curatorial e expectativa de legibilidade. Ao criar guardrails, o conselho não pretende abafar ousadias futuras, mas estabelecer margens para que a experiência sensorial não obscureça dados essenciais. Assim, tenta equilibrar a manutenção do “frescor” — palavra-chave para exposições de grande porte — com requisitos de fruição básica.
Perspectivas para a próxima gestão e continuidade de Andrea Pinheiro
A presidência de Andrea Pinheiro foi renovada, sinalizando estabilidade administrativa no curto prazo. Com isso, a executiva terá a responsabilidade de implementar as novas cláusulas e conduzir o diálogo com os futuros curadores. A meta anunciada internamente é manter a excelência curatorial, atrair números robustos de público e, simultaneamente, garantir acessibilidade informativa.
Embora a Fundação não tenha comentado oficialmente as alterações contratuais, fontes ligadas à entidade indicam que a minuta dos próximos acordos já virá com trechos dedicados a sistemas de legendagem e protocolos de mediação. A ideia é tornar essa exigência um padrão, não um adendo pontual.
O que o público pode esperar das próximas edições da Bienal de São Paulo
Com a votação do conselho já concluída, o próximo passo será negociar com o diretor artístico da 37ª edição, ainda não anunciado. O processo de escolha deverá considerar perfis dispostos a dialogar com os novos parâmetros. Espera-se que a instituição divulgue detalhes sobre curadoria, cronograma e temática nos meses seguintes, abrindo uma nova etapa na trajetória do evento.
Enquanto o anúncio oficial não ocorre, a comunidade artística acompanha atentamente como as salvaguardas influenciarão o desenho expositivo futuro. O público, por sua vez, aguarda uma experiência que una invenção estética, sinalização compreensível e programas educativos que continuem a atrair milhares de visitantes ao pavilhão do Ibirapuera.
Próximo marco relevante: a seleção do curador ou curadora responsável pela 37ª Bienal de São Paulo, cuja definição será o primeiro teste prático das cláusulas recém-aprovadas.

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