Biblioteca Mário de Andrade reforça segurança após roubo de obras de Matisse e Portinari, mas ex-diretor fala em negligência histórica

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O furto de oito obras de Henri Matisse e cinco de Candido Portinari trouxe a Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, para o centro de um debate sobre segurança de acervos públicos. Dois meses depois da ação criminosa, um ex-diretor afirma que a instituição sofre com negligência, enquanto a Secretaria Municipal de Cultura sustenta que as medidas de proteção foram adequadas.
- Roubo na Biblioteca Mário de Andrade: o que aconteceu
- Negligência reiterada, diz ex-diretor da Biblioteca Mário de Andrade
- Secretaria de Cultura nega falhas e compara episódio internacional
- Análise de especialistas aponta roubo encomendado
- Sistema de proteção da Biblioteca Mário de Andrade será integrado ao Smart Sampa
- Patrimônio cultural em risco: manutenção, tecnologia e vigilância
- Próximos passos e expectativas
Roubo na Biblioteca Mário de Andrade: o que aconteceu
A investida ocorreu em uma manhã de domingo, durante a exposição “Do Livro ao Museu: MAM São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade”. A mostra era resultado de uma parceria com o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM SP), que igualmente disponibilizou peças de seu acervo, embora apenas itens pertencentes à biblioteca tenham sido subtraídos. Imagens de câmeras internas registraram dois indivíduos armados retirando as obras e saindo pela porta principal, carregando sacolas, sem confronto ou alarde.
Segundo informações disponibilizadas pela prefeitura, a biblioteca dispunha de vigilância patrimonial privada em seu interior. Do lado externo, a Guarda Civil Metropolitana (GCM) deveria realizar patrulhamento diário e estacionar viaturas em períodos intermitentes. Documentos públicos não indicam a presença contínua de agentes naquele domingo específico, e a administração municipal não detalhou eventuais reforços montados para a abertura da exposição.
Negligência reiterada, diz ex-diretor da Biblioteca Mário de Andrade
Luiz Armando Bagolin, diretor da Biblioteca Mário de Andrade na gestão Fernando Haddad, afirma ter constatado falhas já na inauguração da mostra. De acordo com ele, não havia viaturas da GCM nas entradas da rua da Consolação nem da avenida São Luís, áreas de grande fluxo de veículos e pedestres. Bagolin sustenta que a ausência de policiamento ostensivo diante de obras de alto valor denota “negligência com o patrimônio público”, situação que, em sua visão, não se restringe ao episódio, mas se arrasta historicamente.
Para justificar a gravidade apontada, o ex-gestor menciona a facilidade com que os criminosos deixaram o edifício. As câmeras revelam uma saída sem pressa, característica que, segundo especialistas, indica conhecimento prévio da rotina de segurança e possível encomenda do material. Bagolin reforça que, caso peças do MAM SP — instituição privada — também tivessem sido levadas, a reação pública poderia ter sido mais imediata.
Secretaria de Cultura nega falhas e compara episódio internacional
Responsável pela pasta municipal, o secretário Totó Parente rejeita a acusação de falta de cuidado. Ele recorda um roubo de peças no Museu do Louvre, em Paris, para argumentar que instituições de renome mundial, apesar de forte aparato de segurança, também são vulneráveis. Parente salienta que, na capital francesa, forças policiais portam armamentos de grosso calibre por causa de ameaças terroristas, mas mesmo assim o crime ocorreu.
O secretário informa que a política local evita colocar guardas armados dentro de equipamentos culturais, sobretudo pela presença constante de crianças e público geral. A administração assegura ter tomado “todas as providências possíveis” naquele domingo e anuncia melhorias no sistema de videomonitoramento. Entre as ações prometidas estão a atualização de câmeras internas, a adoção de reconhecimento facial e a integração ao programa municipal Smart Sampa, que centraliza imagens de diversos pontos da cidade.
Análise de especialistas aponta roubo encomendado
A advogada e perita em obras de arte Anauene Dias Soares considera a ação “rápida e objetiva”, sem sinais de vandalismo. Para ela, a escolha específica de obras de Matisse e Portinari sugere destino em coleções privadas ou uso como garantia no mercado ilícito, já que não há comércio lícito para esses itens. Essa conclusão é apoiada pelo ex-diretor Charles Cosac, que vê o horário e a execução como coerentes com práticas de crimes encomendados.
Soares critica a tentativa de normalizar a vulnerabilidade dos acervos latino-americanos, lembrando que roubos em grandes museus internacionais geram comoção global e investigação intensiva. Na sua avaliação, reconhecer o crime na biblioteca como “parte do risco urbano” contribui para perpetuar a percepção de que o patrimônio cultural da região pode receber menor proteção.
Sistema de proteção da Biblioteca Mário de Andrade será integrado ao Smart Sampa
A Secretaria de Cultura confirma que a Biblioteca Mário de Andrade, o Centro Cultural São Paulo, o Theatro Municipal e o Centro Cultural da Juventude terão câmeras interligadas em uma mesma central. O objetivo é permitir resposta mais ágil a incidentes, cruzando imagens internas com vigilância de vias públicas. A pasta não definiu prazos para concluir a instalação, mas afirmou que o processo de contratação já está em andamento.
O plano inclui câmeras com reconhecimento facial, recurso que poderá identificar suspeitos a partir de bases de dados policiais, respeitando protocolos de privacidade vigentes. Segundo a gestão municipal, a medida não altera a diretriz de manter agentes desarmados no interior de espaços culturais, mas viaturas da GCM poderão ser posicionadas externamente em eventos com peças de valor elevado.
Patrimônio cultural em risco: manutenção, tecnologia e vigilância
José Castilho Marques Neto, que dirigiu a biblioteca durante a gestão Marta Suplicy, chama a atenção para a necessidade de investimentos contínuos em tecnologia e manutenção. Para ele, o episódio revela fragilidades também presentes em milhares de bibliotecas e centros culturais menores, onde a deterioração cotidiana por umidade, iluminação inadequada ou falta de pessoal passa despercebida.
O ex-diretor sustenta que a sociedade brasileira costuma reagir apenas a perdas midiáticas, deixando de lado ameaças silenciosas que impactam o acervo histórico. Castilho vê no roubo um ponto de inflexão para discussão ampla sobre recursos destinados à preservação da memória cultural. Entre as soluções citadas pela comunidade de especialistas estão auditorias regulares de segurança, planos de contingência e capacitação de equipes.
Próximos passos e expectativas
A prefeitura de São Paulo declara que o inquérito policial permanece em andamento, sem divulgarem-se detalhes para não comprometer a investigação. Paralelamente, a Biblioteca Mário de Andrade mantém a colaboração com autoridades e prepara adequações em seu protocolo interno, alinhando-se às recomendações de peritos. A implantação do sistema integrado de câmeras e a adesão ao Smart Sampa são os marcos mais imediatos anunciados pela Secretaria de Cultura, que promete divulgar avanços assim que as etapas técnicas forem concluídas.

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