Bembé do Mercado: Beija-Flor leva a celebração do candomblé às avenidas e ocupa a Sapucaí em 2026

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Bembé do Mercado é a expressão que dará o tom do desfile da Beija-Flor de Nilópolis no Carnaval 2026, quando a escola pretende reproduzir na Marquês de Sapucaí a ocupação de ruas e casas da cidade baiana de Santo Amaro da Purificação, onde a manifestação de candomblé acontece desde 1889.
- Bembé do Mercado transforma a avenida em palco de resistência
- Como a Beija-Flor estrutura o enredo Bembé do Mercado para o Carnaval 2026
- Ancestralidade do Bembé do Mercado e liderança religiosa
- Bembé do Mercado na Sapucaí recebe autorização espiritual e setorização
- Samba-enredo e participação da comunidade fortalecem o Bembé do Mercado
- Agenda da Beija-Flor e posição no cronograma oficial
- Próximos passos até o Bembé do Mercado tomar a Sapucaí
Bembé do Mercado transforma a avenida em palco de resistência
O enredo, defendido pela azul-e-branco da Baixada Fluminense, parte de uma premissa histórica: a Abolição da Escravidão, formalizada por decreto em 1888, não foi acompanhada de reparações. Um ano depois, em 13 de maio de 1889, iniciou-se em Santo Amaro a celebração que permitiria aos descendentes de africanos ocupar o espaço público com seus cânticos, danças, culinária e rituais religiosos. Na Marquês de Sapucaí, a Beija-Flor pretende ecoar esse mesmo grito, reforçando que ocupar territórios simbólicos sempre foi uma forma de autorreparação para o povo negro.
À frente do projeto, o carnavalesco João Vitor Araújo dá sequência a uma linha narrativa inaugurada no ano anterior, quando a escola venceu o título com uma homenagem ao histórico diretor de carnaval Laíla. Para 2026, Araújo optou por manter a conexão com a ancestralidade, escolhendo um tema que dialoga diretamente com as raízes afro-brasileiras da comunidade nilopolitana. O enredo foi dividido em seis setores, cada um representando um dos seis dias de festa realizados em Santo Amaro. O desfile começará e terminará envolto pelo branco e pelo elemento água, símbolos de pureza, renovação e, dentro do candomblé, da própria vida.
O carnavalesco explicou que esse recorte em seis partes tem o objetivo de garantir equilíbrio artístico a um tema considerado sério e sagrado. Cada setor contará um capítulo específico da celebração: da abertura das oferendas à ancestralidade ao encerramento em que a força da água purifica e renova os participantes. As alegorias, portanto, deverão traduzir com riqueza de detalhes aromas, sabores, cânticos e gestos que caracterizam o Bembé.
Ancestralidade do Bembé do Mercado e liderança religiosa
A importância do tema é reforçada pelos líderes espirituais que conduziram e conduzem a celebração. A manifestação foi inaugurada pelo babalorixá João de Obá, que desafiou perseguições religiosas para fincar o candomblé nas ruas. A tocha simbólica passou depois por Pai Tidu e Mãe Lídia, até chegar ao atual presidente da associação, Pai Pote. Hoje, a organização reúne 65 terreiros e ainda conta com a participação espontânea de cerca de 100 casas de santo adicionais.
Pai Pote celebrou a escolha da escola justamente no período em que assume a presidência do Bembé do Mercado. Para ele, a Beija-Flor e a celebração baiana se assemelham por serem comunidades que defendem a cultura negra, preservam a essência afro-brasileira e se opõem à intolerância religiosa. Ao levar o enredo para o Sambódromo, a escola, na avaliação do dirigente religioso, amplia a visibilidade não apenas da manifestação de Santo Amaro, mas de todos os terreiros espalhados pelo país e até fora dele.
O babalorixá também destacou que o desfile deverá incorporar segmentos culturais que orbitam o Bembé: marisqueiras, farinheiras, capoeiristas, personagens do folclore como o Negro Fugido e feirantes que movimentam o mercado local. Ao apresentar esses grupos, o enredo reforça a pluralidade da cultura afro-baiana e sua contribuição para a identidade nacional.
Bembé do Mercado na Sapucaí recebe autorização espiritual e setorização
No candomblé, alguns temas exigem ritual específico antes de serem expostos publicamente. De acordo com João Vitor Araújo, a setorização do desfile foi submetida a um jogo de búzios conduzido por Pai Pote, aos pés de Ogum. O resultado confirmou o aval espiritual, indicando que a narrativa proposta estava em consonância com as forças ancestrais. O carnavalesco salientou que o procedimento traz alívio e, ao mesmo tempo, aumenta a responsabilidade: a equipe precisará desenvolver fantasias e alegorias sem clichês, garantindo total respeito aos elementos sagrados.
Para transformar rituais religiosos em espetáculo carnavalesco, a equipe solicitou licença às lideranças de cada segmento cultural envolvido. A intenção é “carnavalizar” símbolos sagrados sem transformá-los em caricatura ou descontextualizá-los. Esse cuidado reflete a preocupação da escola em manter a coerência entre religiosidade e folia, aspecto que pode ser decisivo diante dos jurados e do público.
Samba-enredo e participação da comunidade fortalecem o Bembé do Mercado
Com a sinopse aprovada, a comunidade da Beija-Flor abraçou o tema. O envolvimento dos componentes é visto pelo carnavalesco como etapa fundamental, já que são eles que conduzirão o enredo pelo Sambódromo. O samba-enredo, assinado por 12 compositores, foi rapidamente adotado até por admiradores de outras agremiações, sinalizando seu potencial de comunicação. Segundo observação do próprio carnavalesco, a melodia possui refrões de fácil assimilação e letra compatível com a densidade do Bembé.
No carro de som, o desfile marcará a estreia de dois intérpretes. Após meio século com Neguinho da Beija-Flor como voz oficial, a escola será conduzida por Nino Milênio e Jéssica Martin. Nino, com duas décadas de carreira em múltiplas agremiações, encara a função como honra e grande responsabilidade, ciente do peso de substituir um ícone. Ele afirmou ter se preparado para eventuais comparações e críticas. Já Jéssica descreveu o processo como mágico e intenso, reconhecendo o esforço necessário para corresponder à tradição nilopolitana. A dupla vê no samba e no enredo uma oportunidade real de título, sentimento reforçado pela recepção positiva da obra.
Agenda da Beija-Flor e posição no cronograma oficial
No calendário do Grupo Especial do Rio de Janeiro, a Beija-Flor desfilará na segunda-feira, 16 de fevereiro, segunda noite de apresentações. A ordem de entrada posiciona a escola entre Mocidade Independente de Padre Miguel, que abre a noite com enredo sobre Rita Lee, e Unidos do Viradouro, que celebrará a trajetória de Ciça. A colocação pode beneficiar a agremiação nilopolitana, oferecendo temperatura de público alta no momento em que “Bembé do Mercado” pisar na avenida.
O cronograma oficial destaca ainda que o desfile de cada escola terá tempo limitado, o que exigirá da Beija-Flor precisão para encaixar os seis setores do enredo, a evolução da comunidade e os quesitos técnicos de harmonia, bateria, alegoria e fantasia. Para além da competição, a agremiação aposta no impacto cultural de apresentar na Sapucaí uma manifestação que, embora aconteça há mais de um século, permanece desconhecida de grande parte do país.
Próximos passos até o Bembé do Mercado tomar a Sapucaí
Nas próximas semanas, a equipe de João Vitor Araújo continuará a lapidar fantasias, protótipos de alegorias e coreografias que retratem, com fidelidade, aromas da culinária afro, toques dos atabaques, movimentos da capoeira e a simbologia da água que inicia e encerra a festa. A comunidade seguirá ensaiando o samba-enredo na quadra em Nilópolis, enquanto artesãos concluirão esculturas e adereços. Tudo converge para a data de 16 de fevereiro, quando o Bembé do Mercado ocupará definitivamente a avenida, buscando transformar a Marquês de Sapucaí em território de memória, fé e celebração.

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