Bateria de estado sólido em produção promete recarga completa em 5 minutos e ciclo de 100 mil cargas

Bateria de estado sólido foi a expressão mais repetida nos corredores da CES 2026 quando a finlandesa Donut Lab anunciou que já iniciou a produção de suas novas células, preparadas para equipar veículos comerciais, começando pelas motocicletas da Verge Motorcycles no primeiro trimestre de 2026.
- Entenda quem está à frente da bateria de estado sólido e onde a produção começou
- Estrutura interna: como funciona a bateria de estado sólido da Donut Lab
- Bateria de estado sólido acelera a recarga: de cinco a dez minutos do zero ao cem
- Longevidade extrema: ciclo de vida supera de forma ampla as baterias convencionais
- Segurança térmica: desempenho acima de 99 % de -30 °C a 100 °C
- Escala, custos e impacto econômico da bateria de estado sólido
- Parcerias e novos horizontes para a bateria de estado sólido
- Ceticismo histórico e próximos passos da Donut Lab
Entenda quem está à frente da bateria de estado sólido e onde a produção começou
A protagonista do anúncio é a Donut Lab, startup sediada na Finlândia que afirma ter ultrapassado a fase de protótipo e alcançado a manufatura em escala. As primeiras unidades estão saindo de uma linha finlandesa com capacidade estimada em 1 GWh por ano, volume suficiente para milhares de motocicletas de alta performance. Segundo a empresa, a planta europeia serve como base piloto; caso a demanda de montadoras de outros continentes cresça, a produção pode ser replicada em novos países, inclusive nos Estados Unidos.
O local de fabricação não é detalhe periférico. A Finlândia possui tradição em setores de materiais avançados e energia limpa, o que oferece infraestrutura para processos químicos sofisticados e um ambiente regulatório alinhado com padrões ambientais exigentes. Esses elementos reforçam a estratégia da Donut Lab de mostrar maturidade industrial num segmento repleto de promessas não entregues.
Estrutura interna: como funciona a bateria de estado sólido da Donut Lab
Do ponto de vista químico, o conceito mantém a arquitetura típica de uma bateria de íons de lítio — ânodo, cátodo e eletrólito —, porém substitui o eletrólito líquido por um composto sólido. Essa mudança elimina a presença de solventes inflamáveis, reduz o risco de fuga térmica e permite trabalhar com ânodos metálicos energicamente mais densos. A Donut Lab divulga densidade energética de 400 Wh/kg, valor aproximadamente 30 % acima dos pacotes contemporâneos de íons de lítio usados em veículos elétricos.
Na prática, maior densidade energética oferece duas possibilidades aos fabricantes: ampliar a autonomia mantendo o peso atual ou reduzir o peso total mantendo a autonomia. Para uma motocicleta de alto desempenho, cada quilograma retirado significa ganhos diretos em aceleração e dirigibilidade, características valorizadas pelo público-alvo da Verge Motorcycles.
Bateria de estado sólido acelera a recarga: de cinco a dez minutos do zero ao cem
Entre todos os números apresentados, o tempo de recarga é o que mais chama atenção. A Donut Lab declara que seu pacote pode alcançar carga completa em até cinco minutos quando conectado a infraestrutura compatível. Para os primeiros veículos comerciais, a estimativa oficial divulgada é de cerca de dez minutos. Mesmo dobrando o valor de referência, o resultado permanece muito abaixo dos tempos médios atuais, que variam de 30 minutos a mais de uma hora em sistemas rápidos baseados em íons de lítio.
O ganho se explica pela menor resistência interna característica das células sólidas empregadas e pela estabilidade térmica superior, que permite correntes mais altas sem danificar o material ativo. Isso pode redefinir a experiência de recarga pública: paradas equivalentes às de abastecimento de combustíveis líquidos aproximam veículos elétricos de rotinas já conhecidas pelos motoristas.
Longevidade extrema: ciclo de vida supera de forma ampla as baterias convencionais
Outro indicador estratégico é o ciclo de vida. A Donut Lab fala em até 100 mil ciclos completos, enquanto a Verge Motorcycles adota uma projeção mais conservadora de 10 mil ciclos para seus modelos. Ainda assim, mesmo a estimativa mais baixa multiplicaria por mais de seis vezes os cerca de 1 500 ciclos normalmente associados a baterias de íons de lítio em veículos elétricos.
Essa durabilidade resulta da interface estável entre ânodo e eletrólito sólido, fator que também bloqueia a formação de dendritos metálicos — estruturas que atravessam eletrólitos líquidos, provocam curto-circuito e aceleram a degradação em projetos convencionais. A Donut Lab afirma ter solucionado completamente esse obstáculo, embora mantenha em sigilo detalhes de engenharia até a publicação das patentes.
Segurança térmica: desempenho acima de 99 % de -30 °C a 100 °C
O pacote sólido exibe comportamento estável em intervalos de temperatura incomuns para eletrônicos de potência. Testes internos relatados pela empresa mostram manutenção de 99 % da capacidade em ambientes que vão de -30 °C a 100 °C, sem registros de ignição ou redução significativa de desempenho. A ausência de eletrólitos voláteis e de pressão interna elevada elimina praticamente o risco de incêndio, problema que ainda afeta loteamentos de veículos elétricos baseados em células convencionais.
Esse nível de robustez torna a nova bateria adequada para aplicações sujeitas a extremos ambientais, como drones de defesa, caminhões em regiões árticas ou modulares expostos a calor desértico. A resistência térmica amplia, ainda, a janela de operação para correntes de carga e descarga agressivas, requisito essencial para atingir os cinco minutos de recarga total.
Escala, custos e impacto econômico da bateria de estado sólido
Além da densidade energética e da segurança, o componente que decide a adoção em massa é o custo por quilowatt-hora. A Donut Lab informa que o processo produtivo já apresenta custo inferior ao das baterias de íons de lítio equivalentes, devido ao uso de materiais abundantes e à simplificação de etapas de montagem. A redução reflete no preço final dos veículos da Verge Motorcycles, que projetam menor despesa com o conjunto propulsor, embora valores de mercado ainda não tenham sido divulgados.
A empresa menciona a escolha deliberada de insumos sem restrições geopolíticas, estratégia pensada para evitar gargalos logísticos comuns a metais críticos como cobalto ou níquel de alto grau. Mantendo a cadeia de suprimentos sob menor pressão, o modelo de negócios ganha previsibilidade de custos, aspecto decisivo para contratos de longo prazo em frotas comerciais.
Parcerias e novos horizontes para a bateria de estado sólido
Mesmo que as motocicletas Verge sejam o ponto de partida, a Donut Lab já negocia com empresas de setores diversos. Entre os parceiros citados estão a WATT Electric Vehicles, focada em plataformas modulares, a Cova Power, voltada a trailers inteligentes, e o ESOX Group, ligado a projetos de defesa e drones. Esses acordos indicam que o design das células foi pensado para formatos distintos, ampliando o campo de atuação além do segmento de duas rodas.
Essa flexibilidade é fundamental para diluir custos fixos de pesquisa e desenvolvimento. Ao aplicar a mesma química em veículos e em sistemas estacionários, a empresa aumenta o volume total de encomendas, garantindo escala que justifica expansão fabril para outros continentes conforme a demanda surgir.
Ceticismo histórico e próximos passos da Donut Lab
O anúncio da nova bateria de estado sólido surge em um clima de cautela no setor automotivo. Nos últimos anos, várias companhias prometeram tecnologias prontas em prazos curtos, mas raramente entregaram produtos reais. Ciente desse histórico, a Donut Lab optou por manter os testes em sigilo até alcançar a linha de produção, apresentando números aferidos em células comerciais.
De acordo com a empresa, o próximo marco público será a divulgação de documentação técnica detalhada e pedidos de patente, prevista para os meses que antecedem o início das entregas das primeiras motocicletas equipadas, no primeiro trimestre de 2026. Até lá, montadoras interessadas podem avaliar protótipos funcionais, já alimentados pelas células sólidas produzidas em território finlandês.

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