Baidu intensifica investimentos em chips e data centers para liderar ecossistema de IA na China

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- Baidu mira a liderança nacional em inteligência artificial
- Estratégia full-stack: do silício às aplicações finais
- Roteiro quinquenal para a nova geração de semicondutores
- Pedidos bilionários e projeções de crescimento
- Concorrência doméstica e desafios compartilhados
- Impacto das restrições aos chips norte-americanos
- Serviços de mobilidade e dispositivos inteligentes complementam a estratégia
- Limitações técnicas e próximos passos
Baidu mira a liderança nacional em inteligência artificial
A Baidu, tradicionalmente reconhecida pelo seu mecanismo de busca, colocou em prática uma estratégia abrangente para se consolidar como fornecedora completa de inteligência artificial (IA) na China. A companhia vem destinando recursos consideráveis à expansão de data centers, ao desenvolvimento de chips proprietários e à oferta de serviços em nuvem. Esse movimento ganha força no momento em que os chips avançados da Nvidia permanecem fora do mercado chinês em função de restrições impostas pelos Estados Unidos e por políticas locais.
Estratégia full-stack: do silício às aplicações finais
Com o objetivo de controlar todas as etapas da cadeia de valor da IA, a Baidu adota um modelo full-stack. Nesse formato, a empresa entrega desde hardware — como chips e servidores — até modelos de IA prontos para uso, hospedados em sua infraestrutura de nuvem. A prática contrasta com abordagens que dependem de fornecedores estrangeiros em estágios críticos do processo. Ao combinar produção de semicondutores com serviços de software, a companhia busca reduzir vulnerabilidades externas e atender à crescente demanda doméstica por poder computacional.
Parte essencial dessa abordagem é a unidade Kunlunxin, responsável pela linha de chips Kunlun AI. Paralelamente, o braço Apollo Go expande a rede de robotáxis dentro e fora do país, enquanto dispositivos de consumo, como os Xiaodu AI Glasses, ilustram a intenção de levar aplicações de IA ao usuário final.
Roteiro quinquenal para a nova geração de semicondutores
No final de 2024, a Baidu apresentou um plano de cinco anos que define os marcos da próxima geração de chips. O primeiro modelo, denominado M100, tem lançamento previsto para o início de 2026. Na sequência, o M300 está programado para 2027. Atualmente, os data centers da companhia utilizam uma combinação de chips próprios e unidades da Nvidia para executar modelos como o Ernie. A organização, entretanto, projeta substituir gradualmente os componentes externos à medida que seu portfólio interno amadurece.
O cronograma público reflete uma política de transparência operacional que visa demonstrar capacidade técnica e atrair clientes corporativos interessados em soluções nacionais. Ao antecipar datas e especificações gerais, a empresa também sinaliza aos reguladores e investidores o compromisso de longo prazo com a autossuficiência tecnológica da China.
Pedidos bilionários e projeções de crescimento
A estratégia de venda de chips para terceiros já gera resultados concretos. Em agosto, a Kunlunxin recebeu mais de 1 bilhão de yuans — o equivalente a aproximadamente US$ 140 milhões — em pedidos de fornecedores vinculados à China Mobile, uma das maiores operadoras de telecomunicações do país. Analistas projetam que, até 2026, as vendas dos chips Kunlun possam aumentar seis vezes, alcançando 8 bilhões de yuans, ou cerca de US$ 1,1 bilhão.
Além do crescimento na receita, o braço de semicondutores da Baidu tem sido valorizado positivamente por consultorias independentes. A Macquarie estima que a unidade já vale US$ 28 bilhões, resultado que posiciona a companhia entre os principais competidores chineses do setor.
Concorrência doméstica e desafios compartilhados
A corrida pela infraestrutura de IA na China não se limita à Baidu. Empresas como Huawei, Alibaba e a startup Cambricon buscam ampliar suas próprias ofertas de chips e de serviços em nuvem. Todas enfrentam obstáculos semelhantes: escassez de semicondutores de ponta, alta demanda global e restrições impostas aos produtos da Nvidia. A essas dificuldades soma-se a capacidade limitada da SMIC, principal fabricante doméstica, que ainda não alcança o nível tecnológico da taiwanesa TSMC, líder mundial no segmento.
Mesmo com essas limitações, o interesse do governo chinês em reduzir a dependência externa estimula investimentos conjuntos em pesquisa, desenvolvimento e produção local. O resultado é um ambiente competitivo em que cada empresa busca diferenciar-se por meio de avanços próprios, seja em eficiência energética, seja na oferta de serviços integrados.
Impacto das restrições aos chips norte-americanos
Em maio, o então presidente Donald Trump proibiu a venda de tecnologias de IA desenvolvidas nos Estados Unidos a grupos chineses, medida que tem impacto direto sobre o fornecimento de chips avançados. Atualmente, a Casa Branca avalia a possibilidade de flexibilizar a regra e liberar a comercialização dos chips H200 da Nvidia. Segundo a Reuters, o Departamento de Comércio estuda o ajuste, mas não há decisão oficial. Enquanto isso, a Nvidia afirma que as normas vigentes a mantêm afastada de um dos maiores mercados do mundo.
Nesse contexto, a Baidu vê oportunidade para ampliar participação. A indisponibilidade de componentes estrangeiros empurra empresas chinesas a buscar alternativas nacionais, cenário que favorece o portfólio Kunlun e a infraestrutura proprietária de data centers.
Serviços de mobilidade e dispositivos inteligentes complementam a estratégia
O ecossistema de IA da Baidu não se limita ao processamento em nuvem. Com a subsidiária Apollo Go, a organização expande serviços de robotáxi em diversas cidades chinesas e avalia operações no exterior. A frota autônoma representa um campo de testes para algoritmos desenvolvidos internamente, além de gerar demanda adicional por chips e poder de computação fornecidos pela própria empresa.
No segmento de consumo, produtos como os Xiaodu AI Glasses ilustram o esforço de levar funcionalidades de IA ao cotidiano do usuário. Esses dispositivos utilizam redes neurais proprietárias e dependem da infraestrutura de nuvem da Baidu para processamento avançado, reforçando a integração vertical do conglomerado.
Limitações técnicas e próximos passos
Apesar do ritmo acelerado, a Baidu enfrenta barreiras técnicas associadas à fabricação de chips em litografias avançadas e à competição global por capacidade de produção. A companhia conta com parcerias e incentivos nacionais para superar gargalos, enquanto adapta seus modelos de IA às características dos processadores disponíveis no mercado chinês.
Nos próximos anos, o lançamento do M100 e do M300 servirá como indicador de progresso rumo à autossuficiência. Se o cronograma for mantido e a escalabilidade dos chips Kunlun se confirmar, a empresa poderá fortalecer ainda mais sua posição frente a concorrentes domésticos e internacionais que disputam o mesmo espaço.

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