Bad Bunny no Super Bowl reforça hegemonia cultural dos EUA ao incorporar símbolos latinos

Bad Bunny no Super Bowl reforça hegemonia cultural dos EUA ao incorporar símbolos latinos
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Bad Bunny ocupou o intervalo do Super Bowl em Santa Clara, na Califórnia, com um espetáculo carregado de referências latinas. A performance, realizada durante o jogo entre Seattle Seahawks e New England Patriots, lançou luz sobre a capacidade dos Estados Unidos de absorver novas identidades sem abrir mão de sua liderança cultural, reforçando a noção de hegemonia em vez de decadência.

Índice

Bad Bunny e o palco mais americano do mundo

O Super Bowl, produzido pela National Football League (NFL), é reconhecido como o evento de maior audiência da televisão norte-americana. Ao ser convidado para o intervalo patrocinado por uma gigante do Vale do Silício, a Apple, Bad Bunny atingiu o ápice de visibilidade possível no mercado musical dos Estados Unidos. A escolha de um artista porto-riquenho evidencia que o espetáculo continua ditando quem detém o status de estrela global, mesmo quando o idioma predominante não é o inglês.

Esta edição do show aconteceu em Santa Clara, no Levi’s Stadium, reforçando o caráter simbolicamente americano do evento. Ao mesmo tempo, a participação de um cantor que se apresenta majoritariamente em espanhol indica a permeabilidade da cultura estadunidense a novas camadas de identidade, sem, contudo, transferir o centro das decisões para fora do país.

Imigração, identidade e o discurso de Bad Bunny

Durante a carreira, Bad Bunny tem ressaltado a condição de latinos que vivem ou nasceram em território norte-americano. Em uma premiação recente, o artista descreveu os hispânicos como parte integrante da sociedade dos Estados Unidos, destacando a humanidade e a cidadania desse grupo. O posicionamento acompanha um cenário demográfico no qual cerca de 20% da população possui ascendência hispânica ou latino-americana e aproximadamente 43 milhões de residentes falam espanhol.

A apresentação no intervalo do Super Bowl segue a mesma linha. Em vez de propor integração continental entre países latino-americanos, o show enfatizou a construção de uma identidade comum aos imigrantes que já estão dentro do território norte-americano. O foco, portanto, recai sobre a experiência social nos Estados Unidos, semelhante à trajetória de grupos anteriores, como irlandeses, italianos ou judeus, que também redefiniram a noção de “americano” ao longo da história.

Como o Super Bowl molda a narrativa cultural dos Estados Unidos

Desde 1967, o intervalo do Super Bowl tornou-se uma vitrine de autoridade simbólica. Nomes consagrados como Michael Jackson, Beyoncé e Prince consolidaram a tradição de que o palco do futebol americano coroa, a cada ano, quem ocupa o topo da cultura pop mundial. Com a escolha de Bad Bunny, a NFL reafirma que continua definindo os protagonistas do entretenimento global, independentemente do idioma utilizado na performance.

A lógica é coerente com a teoria da “destruição criativa”, descrita pelo economista Joseph Schumpeter. A indústria cultural norte-americana substitui antigas narrativas por novas, revestindo-as de elementos capazes de dialogar com públicos mais amplos e, assim, manter sua posição central. No caso mais recente, a novidade consiste em trazer um repertório visual e sonoro latino para dentro do mesmo formato consagrado do espetáculo esportivo.

Da Danza de los Voladores ao bar do Brooklyn: os símbolos latinos em cena

O cenário apresentado no Levi’s Stadium incluiu a recriação de um bar frequentado por latinos no Brooklyn, a representação de uma criança adormecida em bancos de festa e a exibição da Danza de los Voladores, manifestação tradicional mexicana que combina cordas, poste e figurino colorido. Esses elementos formam um mosaico que remete a memórias de imigração, trabalho e festa, sem reivindicar integração política entre as nações latino-americanas.

Ao contrário, o conjunto de símbolos foi projetado para validar a presença latina dentro do chamado sonho americano. Assim, mais do que dialogar com Bogotá, Buenos Aires ou Brasília, as imagens conversam diretamente com Los Angeles, Miami ou Nova York, onde se concentram grandes comunidades de origem hispânica.

Repercussão no Brasil: de euforia online a pedidos de cidadania para Bad Bunny

A performance alcançou repercussão imediata nas redes sociais brasileiras. O Ministério da Cultura publicou mensagem exaltando o orgulho latino demonstrado no intervalo do Super Bowl. Na esfera legislativa, a deputada federal Luciene Cavalcante (PSOL) sugeriu conceder a Bad Bunny o título de cidadão brasileiro, sob o argumento de que a apresentação promoveria a integração cultural da América Latina.

Tais manifestações refletem o interesse histórico do público brasileiro por validação cultural vinda dos Estados Unidos. Ao celebrar o show, parte da audiência local projeta uma dimensão continental que o evento, na prática, não aborda diretamente, pois está restrito à vivência de comunidades imigrantes dentro do território norte-americano.

Entre hegemonia e “destruição criativa”: o ciclo que mantém os EUA no centro

Conforme apontado por estudiosos como Vladimir Safatle, debates sobre decolonialidade frequentemente partem de universidades norte-americanas. No campo da música pop, o processo é semelhante: inovações simbólicas são lançadas a partir de palcos como o Super Bowl e difundidas globalmente como referências de modernidade.

O contraste entre duas Américas — a imagem de um império associado à riqueza e ao conflito armado e a imagem de um povo trabalhador, alegre e, agora, latino — compõe a narrativa atual. Essa dualidade amplia o alcance da cultura dos EUA, pois oferece uma versão mais diversa e internacionalmente palatável de si mesma, mantendo, entretanto, o país como produtor e curador do espetáculo.

A estratégia se alinha ao ciclo de inovação descrito por Schumpeter: novas linguagens simbólicas substituem as anteriores, o público se renova e o monopólio cultural permanece. Mesmo a retórica anti-imigração pontual de lideranças políticas, como a observada no mandato de Donald Trump, não impede a continuidade dessa engrenagem. Uma vez concluído um ciclo político, a indústria cultural segue operando e assimilando narrativas convenientes ao mercado global.

Panorama das entidades envolvidas

Além de Bad Bunny, a apresentação mobilizou um conjunto de entidades que colaboram para a manutenção da hegemonia cultural norte-americana:

National Football League (NFL) — responsável pela organização do Super Bowl, evento esportivo de maior audiência anual nos EUA.

Apple — patrocinadora do intervalo, reforçando a conexão entre tecnologia, entretenimento e cultura de massa.

Seattle Seahawks e New England Patriots — equipes em campo que serviram de contexto esportivo para o espetáculo.

Ministério da Cultura do Brasil e Deputada Luciene Cavalcante — exemplos de atores institucionais brasileiros que repercutiram o show com posicionamentos públicos.

Vladimir Safatle — acadêmico que critica a centralidade norte-americana no debate decolonial, ampliando o entendimento do fenômeno discutido.

Essas entidades ilustram como diferentes setores — esportivo, tecnológico, governamental e acadêmico — convergem em torno de um único evento de cultura pop, reforçando a amplitude do alcance dos Estados Unidos.

O que vem depois do show

A consolidação de Bad Bunny como principal nome do pop latino-americano em solo norte-americano fortalece a expectativa de novas colaborações com a indústria do entretenimento dos EUA. O intervalo do Super Bowl mantém-se, assim, como a vitrine que sinaliza as próximas direções do mercado global de espetáculos musicais.

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