Bad Bunny transforma São Paulo em pista de salsa e convida brasileiros a abraçar a própria latinidade

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Bad Bunny realizou no Allianz Parque, em São Paulo, a apresentação que marcou sua primeira passagem oficial por palcos brasileiros e, ao longo de duas horas e meia, misturou ritmos caribenhos, mensagens sobre identidade e interação direta com a plateia, esgotando ingressos e reforçando sua posição como o artista mais ouvido do planeta no Spotify.
- Bad Bunny estreia no Brasil em noite de estádio lotado
- Tradição e modernidade guiam o repertório de Bad Bunny
- Interação com o público brasileiro reforça a latinidade de Bad Bunny
- Banda afiada garante som orgânico e potência eletrônica
- Convite para que o Brasil assuma a própria identidade latina
- Setlist extenso fecha apresentação de estreia
- Próximo passo: segunda e última noite em São Paulo
Bad Bunny estreia no Brasil em noite de estádio lotado
A chegada do porto-riquenho a São Paulo ocorreu na noite de sexta-feira, 20 de outubro, diante de dezenas de milhares de espectadores que ocuparam todos os setores do estádio localizado no bairro da Barra Funda. O cantor — vencedor do último Grammy e recordista de streams — volta ao mesmo palco no sábado, 21, mas já na primeira data deixou claro por que lidera a música pop global. Trajando terno e gravata brancos, ele abriu o espetáculo com “La Mudanza”, faixa sustentada por uma base de salsa rígida que dialoga com suas raízes de rapper, e seguiu mesclando sucessos recentes a referências tradicionais de Porto Rico.
Tradição e modernidade guiam o repertório de Bad Bunny
No centro conceitual do show esteve o choque calculado entre passado e presente que caracteriza a obra do artista. Um dos momentos que sintetizam essa proposta surgiu ainda no primeiro ato, quando “Nuevayol” evoluiu de um sample clássico — “Un Verano en Nueva York”, gravado nos anos 1960 pela orquestra El Gran Combo de Puerto Rico — para batidas de dembow e graves eletrônicos. A escolha ilustrou como Bad Bunny recorre a gêneros como plena, salsa e reggaeton sem prender-se a reconstituições nostálgicas: cada citação musical torna-se alicerce para um pop de impacto global, ancorado em trap e beats digitais.
O mesmo raciocínio esteve por trás da transição, já na segunda parte do show, para um palco secundário — uma casinha rosa lotada de fãs. Ali, ele vestiu uma camisa retrô da seleção brasileira de 1962, número 10 de Pelé, e concentrou uma sequência dedicada a ritmos caribenhos mais recentes, como “Me Porto Bonito”, “Bichiyal” e “Yo Perreo Sola”. O segmento, que privilegiou reggaeton e dembow, manteve a cadência acelerada, reforçando o convite à dança e à celebração.
Interação com o público brasileiro reforça a latinidade de Bad Bunny
Desde o início, o cantor demonstrou esforço intencional para aproximar-se do país anfitrião. Vinhetas em português pontuaram passagens do set, incluindo menções a pratos típicos — acarajé, pão de queijo e outros — e pequenas cenas gravadas com atores brasileiros. O próprio Benito Antonio Martínez Ocasio, seu nome de batismo, alternou frases em espanhol e português, agradecendo a recepção calorosa e confessando surpresa com o tamanho da audiência.
Em determinado momento, ele destacou que a apresentação pretendia unir Brasil, Porto Rico e a América Latina como um todo. A fala antecedeu “Baile Inolvidable”, balada que emocionou grande parte do Allianz Parque, sugerindo uma ponte afetiva entre idiomas e culturas. O sentimento latino se reforçou ainda mais quando a banda local executou um trecho de “Garota de Ipanema” antes de “Pitorro de Coco”, música batizada com o nome de um drinque tradicional porto-riquenho feito à base de rum.
Banda afiada garante som orgânico e potência eletrônica
A formação de apoio que acompanha Bad Bunny fez diferença significativa ao vivo. Atabaques, contrabaixo acústico, naipe de metais e percussões caribenhas dividiram espaço com programações eletrônicas, garantindo equilíbrio entre textura analógica e pulsos digitais. O resultado aproximou-se da vivacidade de um show de Bruno Mars, porém livre de apego estritamente retrô, e manteve a intensidade eletrônica que lembra trabalhos de The Weeknd, mas sem o tom plástico excessivo comum a produções plenamente sintetizadas.
O repertório contemplou ainda canções que ultrapassaram as plataformas de streaming para se tornarem hinos de pista, como “Callaíta”, executada logo na segunda posição do setlist. O estádio respondeu com coros estridentes, atestando que o interesse brasileiro pelo trabalho do artista vai além de modismos passageiros. A insistência em performances instrumentais ao vivo também evidenciou a decisão estratégica de Bad Bunny de posicionar-se não apenas como rapper ou astro de reggaeton, mas como showman multicultural.
Convite para que o Brasil assuma a própria identidade latina
Embora a crítica ao imperialismo norte-americano sobre Porto Rico permeie letras e narrativa de palco, o tema surgiu de forma indireta. O contexto político recente — inclusive o desentendimento com Donald Trump após a apresentação no intervalo do Super Bowl — permaneceu mais como subtexto do que como discurso explícito. A ênfase recaiu sobre a latinidade compartilhada e sobre a capacidade da música de criar pontes regionais, especialmente em um país que, historicamente, direciona sua atenção pop para os Estados Unidos.
A atmosfera da noite, que se intensificou quando muitos presentes dançaram sem parte das roupas, lembrou festas de Carnaval. A associação foi reforçada pela presença de imagens de mulheres dançando no telão, pela vibração percussiva constante e pelo repertório caribenho que remete às celebrações de rua. Ao incluir “Mas que Nada”, de Jorge Ben Jor, em uma jam conduzida por plena de Porto Rico, Bad Bunny sublinhou as semelhanças culturais e sugeriu que o público brasileiro abrace os traços latinos que atravessam gêneros locais, da lambada ao sertanejo.
Setlist extenso fecha apresentação de estreia
Após retornar do palco secundário para o principal, o artista alinhou uma série de hits radiofônicos. “Ojitos Lindos”, “La Canción”, “Dákiti”, “El Apagón”, “DTMF” — abreviação que remete ao álbum “Debí Tirar Más Fotos” — e “EOO” selaram a noite. O clímax emotivo veio com “DTMF”, quando Bad Bunny pediu que o público guardasse os celulares para viver o instante sem mediações tecnológicas, gesto que resultou em lágrimas de muitos fãs.
No total, o espetáculo alcançou aproximadamente duas horas e meia, sustentadas por alternância entre baladas melódicas e faixas de alto teor dançante. A resposta da audiência, tanto em volume quanto em permanência, indicou que a barreira linguística não diminuiu a força do repertório em espanhol. Pelo contrário, a performance evidenciou uma abertura crescente do mercado brasileiro a sons hispânicos quando carregados de produção refinada e presença de palco consistente.
Próximo passo: segunda e última noite em São Paulo
O compromisso imediato de Bad Bunny com o público brasileiro continua neste sábado, 21 de outubro, quando o cantor repete a experiência no Allianz Parque. A expectativa é de nova casa cheia e de repetição do roteiro que combina salsa, trap, reggaeton e mensagem de pertencimento latino-americano.

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