Bad Bunny no Super Bowl: os bastidores do show latino que confrontou a era Trump

Bad Bunny no Super Bowl: os bastidores do show latino que confrontou a era Trump
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Bad Bunny no Super Bowl ocupou, neste domingo (8), o maior palco esportivo e midiático dos Estados Unidos com uma apresentação de cerca de 15 minutos que combinou reggaeton, salsa e um posicionamento político direto contra políticas antimigratórias defendidas pelo então presidente Donald Trump. O cantor porto-riquenho, nascido Benito Antonio Martinez Ocasio, fez história ao levar sons, símbolos e referências de toda a América Latina à final da NFL, evento que figura entre as maiores audiências televisivas do planeta.

Índice

Bad Bunny no Super Bowl: o que aconteceu em 15 minutos de espetáculo

No tempo restrito que caracteriza os shows de intervalo, o artista encaixou aproximadamente dez faixas, a maioria retirada de “Debí Tirar Más Fotos”, álbum laureado como Disco do Ano no Grammy e primeiro trabalho cantado integralmente em espanhol a conquistar o prêmio. Entre efeitos visuais de alto contraste, bailarinos com chapéus de palha tradicionais de Porto Rico e um palco que remetia a barracas de coco e quadras de boxe, o espetáculo alternou dois eixos musicais que definem a carreira de Bad Bunny: a pulsação eletrônica do reggaeton e o balanço orquestrado da salsa.

A primeira metade do set foi dominada por batidas de dembow, elemento percussivo que une as tradições de Panamá, Jamaica e Porto Rico. Canções como “Tití Me Preguntó” trouxeram passos coreografados e figurinos que equilibravam elementos urbanos com referências caribenhas. Na sequência, “Yo Perreo Sola” transformou o espaço em uma “casita” latina festiva, com participações relâmpago de Cardi B e Karol G.

A construção de um show latino no maior palco esportivo dos EUA

Ao longo das últimas décadas, outros nomes hispânicos e latino-americanos já subiram ao palco do Super Bowl. Gloria Estefan introduziu influências cubanas nos anos 1990; Shakira e Jennifer Lopez dividiram a atração em 2020; J Balvin apareceu como convidado especial no mesmo ano. Ainda assim, Bad Bunny no Super Bowl representa a primeira vez em que o cerne do espetáculo foi inteiramente programado para exibir um repertório em espanhol, reforçando identidades culturais diversas sem recorrer a traduções ou adaptações para o público anglófono.

Essa virada de protagonismo se consolidou quando o cantor entoou, em inglês, a frase “God Bless America”, imediatamente seguida por uma enumeração de países do continente, do Canadá à Argentina, com o Brasil em destaque. O gesto se opôs diretamente ao lema “Make America Great Again”, associado ao governo Trump, ao mesmo tempo em que ampliou a noção de “América” para além das fronteiras dos Estados Unidos.

Entre reggaeton e salsa: panorama musical do espetáculo de Bad Bunny no Super Bowl

A escolha de repertório evidenciou a trajetória de dois gêneros que, embora distintos, compartilham raízes diaspóricas. O reggaeton, surgido na década de 1990 a partir da circulação de ritmos afro-caribenhos, ganhou alcance planetário graças a artistas como Ivy Queen, Don Omar e Daddy Yankee — cujo sucesso “Gasolina” popularizou a batida e abriu caminho para a geração de Bad Bunny. No Super Bowl, essa herança apareceu não apenas na instrumentação eletrônica, mas também no “flow” versátil do cantor, que alternou rap, canto melódico e vocalizações rítmicas.

Na segunda parte da apresentação, o músico colocou uma orquestra de metais e percussão no centro do palco para homenagear a salsa, gênero que emergiu na Nova York dos anos 1970 como voz de comunidades latinas vistas, à época, apenas como força de trabalho. Músicas como “Baile Inolvidable” e “Nuevayol” acenaram a essa tradição. A presença de Ricky Martin, também porto-riquenho, reforçou a linhagem que conecta grandes nomes da ilha ao desenvolvimento da salsa global.

Além desses momentos, o artista inseriu fragmentos de plena e bomba — estilos tradicionais de Porto Rico — nas faixas “El Apagón” e “Lo que le Pasó a Hawaii”, ambas relacionadas a disputas agrárias na ilha. A mistura sublinhou a tese central de Bad Bunny: a música carrega histórias de resistência e identidade que atravessam fronteiras.

Simbolismo político diante das políticas de Donald Trump

A apresentação ocorreu em meio a uma conjuntura na qual o governo Trump conduzia uma das políticas migratórias mais restritivas da história recente dos EUA. Entre as ações citadas, figuravam operações da polícia de imigração (ICE) em território doméstico e exercícios militares no Caribe. No palco, as mensagens do cantor ecoaram como contraponto direto a esse cenário.

Em determinado momento, Bad Bunny dedicou um de seus troféus do Grammy a uma criança latino-americana detida pelo ICE, sublinhando a crítica à criminalização de migrantes. Em outro, cumprimentou Toñita, figura emblemática da comunidade porto-riquenha em Nova York, reforçando a presença de minorias que constroem a vida econômica e cultural do país. A indumentária de seus dançarinos, composta por pavas — chapéus de camponeses porto-riquenhos —, completou o conjunto de símbolos.

O presidente norte-americano reagiu imediatamente após o show, publicando mensagem nas redes sociais em que minimizava a performance e afirmava que “ninguém entende uma palavra do que ele está dizendo”. O comentário ilustrou o foco do protesto: a recusa do governo em reconhecer a diversidade linguística e cultural que sustenta parcela significativa da população dos EUA.

Impacto econômico e midiático para NFL e público latino

A decisão da NFL de escalar Bad Bunny não se explica apenas pelo valor artístico. Segundo levantamento da Universidade da Califórnia em Los Angeles, latinos representam 20% da população norte-americana e respondem por 30% do crescimento econômico do país. Esse grupo movimenta cerca de US$ 4 trilhões — volume comparável ao Produto Interno Bruto de economias como Japão ou Índia.

Ao atrair esse público, a liga garante maior audiência dentro e fora dos Estados Unidos e fortalece sua posição em mercados estrangeiros onde o cantor já possui alcance consolidado. A equação beneficia patrocinadores, plataformas de streaming e a própria NFL, que busca ampliar sua base consumidora além do torcedor tradicional do futebol americano.

Mesmo com ganhos claros para a organização, a escolha de um artista com discurso reivindicativo representa risco de rejeição por setores conservadores. O desempenho de Bad Bunny, no entanto, alcançou ampla repercussão positiva entre fãs e críticos, mantendo o evento como terreno onde entretenimento e debate público frequentemente se encontram.

Trajetória de Bad Bunny até o Super Bowl: dos clubes de Porto Rico ao status global

Antes de chegar ao ponto mais alto da visibilidade midiática norte-americana, Bad Bunny percorreu circuitos de clubes no Caribe, consolidou-se em plataformas digitais e alcançou as principais paradas musicais em espanhol. O reconhecimento internacional se expandiu com “Debí Tirar Más Fotos”, disco que se destacou em 2025 como um tour de force pop e recebeu o prêmio máximo do Grammy, feito inédito para um álbum em espanhol.

O artista também contribuiu para elevar o reggaeton de fenômeno regional a pilar do pop mundial, ao lado de contemporâneos como J Balvin e Karol G. Sua capacidade de transitar entre gêneros, colaborar com nomes de diferentes estilos e manter forte identidade cultural fez dele um candidato natural para a vitrine oferecida pelo Super Bowl.

A simbologia envolvida na apresentação de domingo se amplifica quando se considera o histórico recente de shows no intervalo. Em 2025, Kendrick Lamar reuniu ícones do rap no mesmo palco, demonstrando que a escolha de artistas capazes de representar comunidades específicas se tornou estratégia de afirmação de diversidade — ainda que impulsionada por interesses comerciais.

A ausência de participações de veteranos como Tego Calderón, referência do reggaeton, ou Rubén Blades, lenda da salsa, foi apontada por observadores como a grande lacuna do espetáculo. Contudo, a decisão não reduziu o impacto da performance, que deixou registrada a imagem de um Super Bowl mais pluricultural e menos centrado na hegemonia anglófona tradicional.

Com o encerramento do show e a repercussão em curso, o próximo ponto de atenção reside na negociação de futuras parcerias entre a NFL e artistas latinos, bem como na resposta do público nas semanas seguintes, quando métricas de audiência e vendas de merchandising forem divulgadas.

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