Bad Bunny no Super Bowl: apresentação histórica desafia política migratória de Donald Trump

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- Bad Bunny no Super Bowl inaugura novo capítulo para o intervalo mais assistido da TV
- Tensão política: como a imigração coloca Bad Bunny no Super Bowl no epicentro do debate
- Trajetória de Bad Bunny: do streaming recorde ao palco do Super Bowl
- Estratégia da NFL e da Roc Nation: por que Bad Bunny no Super Bowl importa para o mercado
- Espanhol em destaque: significado histórico da primeira apresentação integral no idioma
- Reação do governo Trump e medidas de segurança previstas
- Outros protagonistas do show e alinhamento artístico
- Expectativa econômica e cultural para Porto Rico
- Próximo passo: domingo, 8 de fevereiro, no Levi’s Stadium
Bad Bunny no Super Bowl inaugura novo capítulo para o intervalo mais assistido da TV
O intervalo do Super Bowl, reconhecido há seis décadas como vitrine máxima para o pop de língua inglesa, receberá neste domingo a primeira performance inteiramente em espanhol: Bad Bunny no Super Bowl. O cantor porto-riquenho, líder mundial em streaming e recente vencedor do Grammy de álbum do ano com “Debí Tirar Más Fotos”, assume o palco do Levi’s Stadium, em Santa Clara, Califórnia, diante de uma audiência estimada em mais de 100 milhões de espectadores.
O feito marca a coroação de uma trajetória que quebrou recordes de bilheteria, produziu 15 faixas no topo das paradas globais e transformou Benito Antonio Martínez Ocasio – nome de batismo do artista – em referência central da música latina. Ao mesmo tempo, a atuação se tornou foco de embate político, já que ocorre em meio ao endurecimento da política migratória conduzida pelo presidente Donald Trump.
Tensão política: como a imigração coloca Bad Bunny no Super Bowl no epicentro do debate
Desde que a Liga Nacional de Futebol Americano (NFL) confirmou o porto-riquenho como principal atração do intervalo, vozes ligadas ao governo republicano reagiram de forma contundente. A secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, sinalizou que o Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) estaria “em peso” no evento. Na mesma linha, a comentarista conservadora Tomi Lahren contestou a escolha do artista, alegando que ele “não é americano” – ignorando o fato de Porto Rico ser território dos Estados Unidos.
Em entrevista posterior, Donald Trump reforçou a desaprovação, classificando a escalação do músico como “má decisão” que “semeia ódio”. A retórica oficial alimentou receio entre latinos residentes ou não no país, cenário que já vinha mobilizando Bad Bunny. No ano anterior, o cantor evitou turnês no território continental norte-americano justamente para não expor fãs a possíveis operações do ICE, preferindo realizar 31 shows em Porto Rico na turnê “No Me Quiero Ir de Aquí”.
Mesmo assim, desde o anúncio do Super Bowl, a mensagem do artista tem priorizado alegria e solidariedade. Em material promocional divulgado pela liga, ele aparece dançando o single “Baile Inolvidable” ao lado de pessoas de diferentes idades, gêneros e etnias, sob um flamboyant – árvore símbolo do Caribe – acompanhado da frase “O mundo vai dançar”.
Trajetória de Bad Bunny: do streaming recorde ao palco do Super Bowl
Bad Bunny conquistou a posição de artista mais ouvido do Spotify em quatro dos últimos seis anos sem recorrer à tradicional tática de gravar em inglês. Suas composições mesclam reggaeton, trap e ritmos tradicionais porto-riquenhos, como bomba e plena, sempre costurados por gírias locais. Essa fidelidade ao idioma fez dele exemplo de que barreiras linguísticas podem ser superadas na era do streaming.
Além da música, o porto-riquenho expandiu a marca pessoal para o cinema, integrando elencos de “Trem-Bala” e “Ladrões”. Entre marcos que o injetaram na cultura pop, estão o relacionamento com Kendall Jenner e campanhas para a Gucci. O videoclipe de “El Apagón” ilustra seu engajamento social: o clipe incorpora documentário de 18 minutos sobre apagões e gentrificação na ilha, reforçando seu papel como defensor mais visível de Porto Rico.
Seu álbum “Debí Tirar Más Fotos”, agraciado com o Grammy de álbum do ano, aprofunda essa volta às raízes ao misturar percussões tradicionais e adotar o sapo-de-crista – espécie ameaçada de extinção – como mascote simbólico da era. Esse posicionamento cultural serve de pano de fundo à aparição de Bad Bunny no Super Bowl, transformando o show em palco para identidade latina.
Estratégia da NFL e da Roc Nation: por que Bad Bunny no Super Bowl importa para o mercado
A escolha do cantor é resultado direto da parceria entre a NFL e a Roc Nation, empresa de entretenimento de Jay-Z responsável pela curadoria musical do intervalo desde 2020. O acordo foi fechado após críticas à liga por suposto boicote ao quarterback Colin Kaepernick, que se ajoelhou durante o hino para protestar contra o racismo. Desde então, Rihanna, Dr. Dre e Kendrick Lamar lideraram apresentações que buscaram autenticidade cultural e alcance global.
No caso de Bad Bunny no Super Bowl, a liga mira dois objetivos. Primeiro, fortalecer a imagem de inclusão, numa temporada marcada pela intensificação do debate migratório. Segundo, acelerar a expansão internacional, especialmente na América Latina, mercado que a NFL acompanha com crescente interesse. Hans Schafer, executivo da Live Nation que já trabalhou com o artista, descreve a apresentação como “passagem de bastão cultural”, afirmando que o intervalo, historicamente dominado pelo pop anglo, agora reflete a “cultura que o mundo realmente está ouvindo”.
Espanhol em destaque: significado histórico da primeira apresentação integral no idioma
Por décadas, artistas latinos que pretendiam ganhar espaço nos Estados Unidos gravaram versões em inglês ou inseriram versos bilíngues, de Ricky Martin a Shakira. A performance de domingo quebra esse padrão. Ao cantar exclusivamente em espanhol, Bad Bunny legitima o idioma perante a audiência de maior visibilidade da televisão norte-americana, proporcionando representação direta para milhões de falantes latinos residentes no país.
Pesquisadores como Petra Rivera-Rideau, do Wellesley College, enxergam a simples presença do cantor como declaração política. Em contexto de retórica anti-imigrante, o fato de o show ser conduzido em espanhol, por um cidadão americano oriundo de território historicamente marginalizado, sinaliza reconhecimento cultural sem necessidade de protesto explícito.
A inclusão do idioma cria ainda efeito de mercado: marcas anunciantes que vincularam campanhas ao evento tendem a ajustar comunicação para dialogar com consumidores hispânicos, segmento demográfico que cresce continuamente no poder de compra. Esse detalhe amplia o impacto além da arena esportiva.
Reação do governo Trump e medidas de segurança previstas
A Casa Branca confirma que Donald Trump não estará presente no Levi’s Stadium. Em paralelo, a presença intensificada do ICE anunciada por Kristi Noem levanta preocupações sobre possíveis operações nos arredores. Não há indicação, porém, de que a NFL ou autoridades locais planejem restringir torcedores por perfil étnico. Informações oficiais apontam protocolos habituais de segurança combinados a reforço federal, procedimento comum em eventos de alto risco.
Para Bad Bunny, o momento parece consolidar a mudança de postura iniciada desde o anúncio do halftime. Em discurso de agradecimento no Grammy, ele reafirmou a condição de porto-riquenhos e latino-americanos como “humanos e americanos”, palavras que ecoam neste espetáculo que mistura entretenimento, identidade e geopolítica doméstica.
Outros protagonistas do show e alinhamento artístico
Antes do intervalo, a cerimônia de abertura trará a banda punk Green Day, conhecida por adaptar letras clássicas em críticas a Trump e a figuras como Elon Musk. A afinidade contestatória dos músicos reforça o clima de posicionamento social indireto que permeia a programação musical do campeonato.
No backstage, Jay-Z e a Roc Nation coordenam detalhes finais de produção. Desde 2019, o empresário argumenta que a parceria com a liga busca torná-la mais inclusiva e comprometida com justiça social. Resultados prévios sustentam o discurso: as audiências dos intervalos comandados pela empresa alcançaram marcas elevadas, e a diversidade de estilos se amplia ano após ano.
Expectativa econômica e cultural para Porto Rico
A relação de Bad Bunny com sua terra natal permanece central. A série de 31 shows na ilha durante 2025 impulsionou a economia local, atraindo turistas e personalidades como LeBron James e Penélope Cruz. Analistas veem a visibilidade no Super Bowl como continuação dessa dinâmica: cada menção a Porto Rico, seja visual ou verbal, tende a fortalecer o turismo e a exportação cultural do território.
Dentro do palco, elementos típicos devem reaparecer. Na turnê anterior, a casita colorida reproduzida no set design simbolizava a vida cotidiana porto-riquenha. No trailer oficial do Super Bowl, o flamboyant e a coreografia diversa antecipam a mesma escolha estética.
Próximo passo: domingo, 8 de fevereiro, no Levi’s Stadium
Com todos os olhares voltados para Santa Clara, a apresentação de Bad Bunny no Super Bowl será transmitida ao vivo no próximo domingo, 8 de fevereiro, diretamente do Levi’s Stadium, marcando o ponto culminante de uma temporada esportiva e a interseção de música latina, política migratória e estratégia de mercado global.

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