Bad Bunny: como a discografia do astro revela a história de Porto Rico e suas tensões com os Estados Unidos

Bad Bunny: como a discografia do astro revela a história de Porto Rico e suas tensões com os Estados Unidos
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Bad Bunny transformou conquistas recentes na música pop em palco para discutir colonialismo, migração e crise econômica de Porto Rico, costurando nas canções uma narrativa histórica que coloca a ilha caribenha no centro de tensões centenárias com os Estados Unidos.

Índice

Bad Bunny rompeu barreiras no Grammy e no Super Bowl

O ponto de partida do novo momento político de Bad Bunny ocorreu em duas aparições de alto impacto. Primeiramente, o porto-riquenho venceu o Grammy de Álbum do Ano com “Debí Tirar Más Fotos”, tornando-se o primeiro artista a conquistar a categoria máxima cantando inteiramente em espanhol. Sete dias mais tarde, subiu ao palco do intervalo do Super Bowl e manteve a escolha pela língua materna, contrariando a tradição anglófona do evento. As duas vitórias expuseram, a uma audiência global, o contraste entre o domínio cultural dos Estados Unidos e a afirmação identitária de um território que permanece juridicamente ligado ao país, mas politicamente marginalizado.

A condição política de Porto Rico no centro da obra de Bad Bunny

Porto Rico foi colônia espanhola de 1493 a 1898, quando a Guerra Hispano-Americana transferiu seu controle para Washington. A Lei Jones, sancionada em 1917, concedeu cidadania norte-americana aos porto-riquenhos, e em 1952 o território ganhou o título oficial de “Estado livre associado”. Na prática, porém, trata-se de uma jurisdição não incorporada: os habitantes não votam para presidente, não elegem representantes com voto no Congresso, carecem de acesso pleno a benefícios federais e ficam fora de deliberações-chave sobre a própria economia. Este status, descrito por especialistas como uma colônia sob outro nome, fundamenta a crítica presente nos álbuns do cantor.

Bad Bunny e a “geração da crise” porto-riquenha

Nascido em 1994, Benito Antonio Martínez Ocasio cresceu em meio a cortes orçamentários, fechamento de escolas e êxodo populacional que marcaram o período conhecido como “geração da crise”. A recessão prolongada atingiu jovens que assistiram parentes e amigos deixarem a ilha diante da escassez de oportunidades. Em 2017, o furacão Maria expôs a fragilidade da infraestrutura elétrica, deixando milhões de pessoas meses sem energia. Esses acontecimentos alimentaram a composição de “El Apagón”, faixa de “Un Verano Sin Ti” (2022) que denuncia a privatização da rede elétrica e os incentivos fiscais destinados a investidores externos, considerados motores de gentrificação e aumento do custo de vida.

“Debí Tirar Más Fotos”: o álbum mais político de Bad Bunny

Lançado em janeiro de 2025, “Debí Tirar Más Fotos” foi apresentado pelo próprio artista como o disco “mais porto-riquenho” de sua trajetória. A obra se estrutura como aula de história sonoro-visual, reforçada por vídeos explicativos escritos pelo historiador Jorell Meléndez-Badillo. Cada faixa aborda um ponto distinto do passado ou do presente da ilha, ampliando a reflexão sobre colonialismo, migração, identidade cultural e especulação imobiliária.

Referências históricas em faixas de destaque

“Nuevayol” abre o álbum com um grito que evoca Nova York, principal destino da diáspora porto-riquenha no século XX. A canção sampleia “Un Verano en Nueva York”, clássico setentista do El Gran Combo de Puerto Rico, misturando salsa antiga ao dembow contemporâneo para construir uma linha do tempo da identidade reconstruída fora da ilha.
“La Mudanza” recupera a memória da Lei da Mordaça de 1948, quando símbolos nacionalistas foram criminalizados. Ao lembrar pessoas mortas por erguer a bandeira porto-riquenha, o cantor conecta a repressão histórica ao gesto de exibir a mesma bandeira — agora em tom azul mais claro — no palco do Super Bowl.
“Lo Que Le Pasó a Hawaii” traça paralelo entre Porto Rico e o Havaí, ambos anexados em 1898. A letra aponta para a transformação de moradias populares em propriedades de luxo voltadas ao turismo e alerta para a expulsão de moradores por investidores abastados.

Vídeos educativos e participação de artistas consagrados

Para cada música do disco, foram publicados materiais audiovisuais que contextualizam eventos como a colonização espanhola, a transição para domínio norte-americano, a Lei Jones e a privatização da infraestrutura. No curta-metragem que acompanha o projeto, dirigido pelo cineasta Jacobo Morales, o espectador percorre um bairro transformado por novos negócios voltados a estrangeiros, cenário que ilustra a pergunta recorrente do álbum: o que resta de um país quando seus habitantes não conseguem viver nele?

Impacto cultural dentro e fora dos Estados Unidos

O sucesso comercial das faixas ampliou o alcance de mensagens que discutem o colonialismo moderno. Declarações públicas, como a fala do comediante Tony Hinchcliffe em comício de Donald Trump, que comparou Porto Rico a “uma ilha de lixo flutuante”, revelam o ambiente de recrudescimento do discurso anti-latino no qual o trabalho de Bad Bunny se insere. Ao escolher o espanhol nos maiores palcos, o cantor confronta estereótipos e reforça a ideia de que a cultura porto-riquenha não requer tradução para ter valor.

Entidades envolvidas reforçam a autoridade do projeto

Além de Benito Martínez, personalidades como o historiador Jorell Meléndez-Badillo e o realizador Jacobo Morales aparecem como colaboradores, fornecendo contexto acadêmico e visual às críticas do álbum. O grupo El Gran Combo de Puerto Rico, cuja canção foi sampleada em “Nuevayol”, também contribui para ligar o passado musical da ilha ao presente do reggaeton.

Consequências políticas e próximos passos

Ao reunir premiações históricas, visibilidade no entretenimento esportivo e um disco voltado à história coletiva, Bad Bunny ampliou o diálogo sobre o status de Porto Rico como território não incorporado. A repercussão de “Debí Tirar Más Fotos” segue crescendo nas plataformas de streaming, enquanto os vídeos educativos acumulam milhões de visualizações, mantendo a questão colonial no debate público.

O projeto de espalhar informação por meio de música, clipes e textos acadêmicos continua em circulação, e a próxima etapa prevista é o desdobramento de cada faixa em apresentações ao vivo na turnê do álbum, manutenção do debate sobre migração forçada e gentrificação na ilha.

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