Ataque dos EUA contra a Venezuela: estratégia para impulsionar extrema-direita e instaurar instabilidade na região

O ataque dos EUA contra a Venezuela representa um novo momento de tensão militar na América Latina, reacendendo discussões sobre ingerência externa, rearranjos de poder e o fortalecimento de movimentos políticos alinhados à extrema-direita. A operação, coordenada pela administração do presidente norte-americano Donald Trump, culminou na captura do mandatário venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, repetindo um método já empregado pelos Estados Unidos em outras intervenções históricas na região.
- Contexto do ataque dos EUA contra a Venezuela
- Objetivos declarados e subjacentes do ataque dos EUA contra a Venezuela
- Estratégia de fortalecimento da extrema-direita na América Latina
- Instabilidade regional e possibilidade de novas operações militares
- Paralelos históricos com o Panamá em 1989
- Reação interna na Venezuela após o ataque dos EUA contra a Venezuela
- Possíveis consequências econômicas e diplomáticas
- Desdobramentos imediatos e próximos passos
Contexto do ataque dos EUA contra a Venezuela
O episódio envolveu forças militares norte-americanas que ingressaram em território venezuelano para prender Maduro sob a acusação de chefiar o suposto cartel de drogas “De Los Soles”. A ofensiva ocorreu em 3 de janeiro de 2026, segundo informações oficiais apresentadas em coletiva de imprensa pela Casa Branca. Assim que confirmada a captura do presidente venezuelano, unidades militares estadunidenses transferiram o chefe de Estado detido para Nova York, onde permaneceu sob custódia durante a noite seguinte.
A investida rompeu um hiato de quase quatro décadas sem invasões formais dos Estados Unidos a países latino-americanos. A última ação semelhante havia ocorrido em 1989, no Panamá, quando o então presidente Manuel Noriega foi capturado sob acusação de narcotráfico. Como naquele episódio, Washington ofertou uma recompensa — neste caso, de 50 milhões de dólares — por informações que levassem à prisão de Maduro, sem apresentar provas públicas sobre o alegado cartel.
Objetivos declarados e subjacentes do ataque dos EUA contra a Venezuela
Em discurso oficial, Trump justificou a ação como parte de um “combate ao crime transnacional”. Contudo, a professora Clarissa Nascimento Forner, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), avalia que a operação faz parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento de redes transnacionais de extrema-direita. Para ela, aproximar-se de governos ideologicamente alinhados e enfraquecer administrações que se posicionam de modo contrário compõe um pilar do chamado “Trumpismo” na política externa.
Além do aspecto ideológico, críticos da intervenção apontam razões geopolíticas: afastar Caracas de China e Rússia — parceiros globais que rivalizam com Washington — e garantir maior influência sobre as vastas reservas de petróleo venezuelanas, consideradas as maiores do mundo em quantidade comprovada de óleo.
Estratégia de fortalecimento da extrema-direita na América Latina
Segundo Clarissa Forner, o governo Trump busca capitalizar alianças com líderes latino-americanos que compartilham valores nacionalistas, conservadores e antiesquerdistas. Ao mesmo tempo, demonstra disposição de agir militarmente contra administrações divergentes. A tensão cria um ambiente propício à expansão de partidos e grupos de extrema-direita, que tendem a ganhar legitimidade ao receber apoio explícito ou tácito de Washington.
A professora destaca que a ofensiva venezuelana “reafirma o aspecto estratégico de articulação das redes transnacionais de extrema-direita”, pois reduz o espaço de manobra para governos contrários a essa linha ideológica e sinaliza custos elevados para quem resiste à influência norte-americana.
Instabilidade regional e possibilidade de novas operações militares
Para analistas, o ataque dos EUA contra a Venezuela também projeta instabilidade além das fronteiras do país. Clarissa Forner argumenta que produzir crises internas faz parte de um modus operandi que abre caminho a ações que transcendem limites legais tradicionais. Ao remover Maduro de forma repentina, as forças norte-americanas deixaram um vácuo de poder que, inicialmente, foi preenchido pelo vice-presidente venezuelano, apontado como líder interino pelo Supremo local. Entretanto, a legitimidade interna desse arranjo permanece indefinida, alimentando incertezas políticas e institucionais.
No mesmo pronunciamento em que confirmou a operação, Trump não descartou eventuais novas intervenções “onde quer que o crime organizado ameace a segurança” dos Estados Unidos. Essa formulação mantém em aberto a hipótese de ações semelhantes em outras nações latino-americanas, o que, na leitura de Forner, intensifica a percepção de instabilidade regional.
Paralelos históricos com o Panamá em 1989
A operação na Venezuela remete à invasão do Panamá, batizada de “Operação Causa Justa”, que teve como objetivo oficial prender Noriega. Tal precedente ilustra o padrão de uso de forças de projeção norte-americanas para retirar chefes de Estado considerados hostis a Washington. No caso panamenho, a ação resultou em forte reprovação internacional, mas consolidou a influência dos EUA sobre canal e território estratégico. Quase quatro décadas depois, assiste-se a um roteiro semelhante, com acusações de narcotráfico, recompensa milionária e sequestro do chefe de Estado.
No entanto, especialistas em tráfico internacional de drogas questionaram, tanto no passado quanto no presente, a robustez das provas apresentadas pelos EUA. No contexto atual, o suposto cartel “De Los Soles” permanece controverso, sem confirmação independente.
Reação interna na Venezuela após o ataque dos EUA contra a Venezuela
Logo depois da operação militar, manifestações tomaram as ruas de Caracas, capital venezuelana. Relatos indicam protestos de grupos favoráveis a Maduro, que consideraram a ação uma violação da soberania nacional, e de setores oposicionistas, que viram na captura do presidente a chance de reconfiguração política interna. A presença de tropas estrangeiras e o estado de incerteza institucional alimentaram tensões, enquanto a população aguardava definições sobre governabilidade e segurança.
Paralelamente, o Supremo Tribunal venezuelano nomeou o vice-presidente como líder interino. A decisão visou evitar um vácuo de poder, mas não eliminou dúvidas sobre a continuidade das políticas estatais, o controle sobre as Forças Armadas e a administração da maior reserva de petróleo comprovada do planeta.
Possíveis consequências econômicas e diplomáticas
Embora a Casa Branca tenha enquadrado a operação como medida contra o narcotráfico, especialistas apontam que a dimensão econômica, sobretudo relacionada ao petróleo, permanece central. O controle de campos petrolíferos venezuelanos interessa a grandes companhias globais e pode alterar fluxos de exportação para mercados como os dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia. Além disso, ao afastar a Venezuela de parceiros como China e Rússia, Washington reduziria a presença de concorrentes estratégicos em um setor energético vital.
Do ponto de vista diplomático, a intervenção tende a tensionar fóruns regionais como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Países alinhados ideologicamente a Caracas podem questionar, nas instâncias multilaterais, a legalidade da operação e a eventual criação de um precedente para novas incursões armadas.
Desdobramentos imediatos e próximos passos
Com Maduro detido em Nova York e o vice-presidente venezuelano ocupando o cargo interinamente, o país enfrenta desafios para restabelecer estabilidade política. A professora Clarissa Forner ressalta que a tendência é de agravamento da crise interna, já que “dificilmente” uma administração militar norte-americana ou um curto período de transição solucionará disputas de poder arraigadas. A incerteza sobre a duração da presença estrangeira e sobre futuras ações dos Estados Unidos amplia a sensação de volatilidade.
Além disso, a possibilidade de novas intervenções declarada pela Casa Branca mantém líderes regionais em alerta. A situação venezuelana passa a ser observada como termômetro do alcance da política externa de Trump e de sua disposição em apoiar, de forma direta ou indireta, governos simpáticos à extrema-direita.
Enquanto manifestações continuam na capital e o Supremo venezuelano valida o vice-presidente como líder provisório, a programação jornalística anuncia um programa especial sobre a crise na Venezuela ainda neste domingo, indicando que novos detalhes poderão emergir ao longo do dia.

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