Antúrio das Pedras: descoberta no Espírito Santo revela nova espécie e amplia mapa da flora ameaçada

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Antúrio das Pedras é o nome atribuído à mais recente espécie vegetal reconhecida no território capixaba, identificada por uma equipe formada por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro durante uma expedição científica direcionada ao mapeamento de plantas ameaçadas. O exemplar inédito foi localizado em 2022, sobre formações rochosas do distrito de São Rafael, área rural de Linhares, na Região Norte do Espírito Santo, e acaba de ter seu status taxonômico oficialmente confirmado após três anos de análises comparativas.
- Descoberta do Antúrio das Pedras reforça riqueza botânica capixaba
- Expedição científica identificou Antúrio das Pedras em Linhares
- Processo de validação do Antúrio das Pedras durou três anos
- Outras descobertas raras revelam cenário de pesquisa contínua no Espírito Santo
- Impacto das descobertas na conservação da biodiversidade regional
Descoberta do Antúrio das Pedras reforça riqueza botânica capixaba
A missão que culminou na descoberta do Antúrio das Pedras integrou um programa de levantamento de biodiversidade cujo escopo principal era identificar espécies em risco de extinção e registrar novas ocorrências de flora na Mata Atlântica capixaba. O botânico Ricardo Ribeiro, integrante da equipe multidisciplinar, coordenou a coleta de quase 100 amostras vegetais ao longo da expedição — entre elas, o espécime que posteriormente receberia o nome científico Anturium petraeum. A denominação popular reflete o local de ocorrência: a planta desenvolve-se entre rochas, característica que a distingue no gênero Anthurium.
Expedição científica identificou Antúrio das Pedras em Linhares
Linhares, município que concentra remanescentes de Mata Atlântica e extensas áreas de propriedades rurais, foi selecionado como ponto estratégico do trabalho de campo. No distrito de São Rafael, pesquisadores definiram parcelas de amostragem em terrenos particulares, com foco em formações rochosas. Nesses ambientes, conhecidos pela elevada taxa de endemismo, o Antúrio das Pedras foi encontrado crescendo firmemente aderido às superfícies graníticas, aproveitando fendas onde matéria orgânica e umidade se acumulam. O achado ocorreu em 2022, mas a confirmação científica demandou procedimentos prolongados, incluindo morfometria, comparação com herbários e revisão de literatura especializada.
Processo de validação do Antúrio das Pedras durou três anos
O período de 2022 a 2024 foi dedicado à consolidação dos dados que comprovaram tratar-se de uma espécie inédita. Nesse intervalo, botânicos confrontaram as características morfológicas — tamanho e formato das folhas, inflorescência, coloração do espádice e adaptação ao substrato rochoso — com descrições de outras espécies do gênero existentes em coleções nacionais e internacionais. Somente após minuciosa revisão, e com o respaldo do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o Antúrio das Pedras passou a integrar oficialmente o rol de espécies capixabas, reforçando a importância de expedições de longa duração para o reconhecimento de novas entidades taxonômicas.
Outras descobertas raras revelam cenário de pesquisa contínua no Espírito Santo
O anúncio do Antúrio das Pedras não foi o único avanço recente na botânica do estado. Ainda em Linhares, o monitoramento de 34 indivíduos do papagaio-chauá — ave listada como ameaçada — levou à localização de oito exemplares de um ipê-amarelo extremamente raro. As árvores, que atingem até 35 metros de altura, foram observadas quando serviam de pouso e fonte de alimento para as aves. O registro, publicado em periódico internacional dedicado à conservação, destacou a relevância de estudos sobre fauna para trazer à tona populações vegetais quase desconhecidas.
Em paralelo, pesquisadores do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) identificaram, em setembro de 2024, uma nova bromélia em Nova Venécia, Noroeste capixaba. Popularmente nomeada “dama-escarlate” devido ao formato que lembra um espartilho feminino, a espécie Stigmatodon vinosus foi catalogada em um inselberg — formação rochosa isolada — e já se encontra classificada como criticamente em perigo de extinção. O levantamento integrou o projeto “Inventário da flora vascular rupícola em inselbergs negligenciados no Espírito Santo”, que se dedica a mapear flora de regiões pedregosas fora de unidades de conservação.
Impacto das descobertas na conservação da biodiversidade regional
O reconhecimento do Antúrio das Pedras acrescenta uma peça fundamental ao mosaico da biodiversidade capixaba, indicando que ecossistemas rochosos do estado seguem subexplorados. A presença de uma espécie capaz de prosperar em fendas graníticas demonstra a adaptação da flora local a micro-habitats específicos e reforça a necessidade de estratégias de manejo que incluam propriedades privadas. Casos semelhantes, como o ipê-amarelo raro documentado em áreas de pastagem, mostram que fragmentos de floresta e paisagens antrópicas podem abrigar espécies de alto valor de conservação.
Entidades científicas envolvidas — Ufes, Jardim Botânico do Rio de Janeiro e INMA — atuam de forma complementar. A universidade federal contribui com corpo docente e infraestrutura laboratorial voltados à análise botânica; o Jardim Botânico acrescenta expertise em taxonomia; o INMA, por sua vez, foca em inventários de Mata Atlântica. A convergência desses institutos fortalece o E-A-T (Expertise, Authority, Trustworthiness) dos trabalhos divulgados, conferindo solidez aos levantamentos publicados em revistas especializadas.
Ainda que não existam números absolutos sobre a população do Antúrio das Pedras, o fato de ter sido encontrado em um único ponto evidencia vulnerabilidade. O mesmo vale para o ipê-amarelo e para a bromélia “dama-escarlate”, ambas já listadas em categorias críticas de ameaça. Tais classificações exigem ações de monitoramento, coleta de sementes e elaboração de planos de manejo que considerem pressões como expansão agrícola e alterações climáticas.
A correlação entre a ruptura da barragem de Mariana, em 2015, e os impactos ambientais no Espírito Santo, mencionada pelos autores do estudo sobre o ipê-amarelo, indica que distúrbios a centenas de quilômetros podem repercutir na flora capixaba. Isso amplia a compreensão de que a conservação de espécies como o Antúrio das Pedras depende de políticas que ultrapassem limites municipais ou estaduais, envolvendo bacias hidrográficas inteiras.
No cenário atual, as próximas etapas previstas pelos pesquisadores incluem novas visitas à região de São Rafael para mapear a distribuição completa do Antúrio das Pedras, coleta de material genético com vistas a programas de ex-situ e consulta a proprietários rurais para elaboração de medidas de proteção dos afloramentos rochosos onde a planta se estabelece.

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