Agrotóxicos mais tóxicos: estudo global alerta para aumento do risco ambiental e coloca Brasil entre líderes negativos

Agrotóxicos aplicados ao redor do planeta tornaram-se progressivamente mais perigosos entre 2013 e 2019, segundo uma análise publicada na revista Science que avaliou 625 substâncias comercializadas em 201 países e identificou o Brasil como um dos focos de maior intensidade tóxica por área agrícola.
- O que revela o estudo sobre os agrotóxicos
- Metodologia de análise da toxicidade dos agrotóxicos
- Impacto dos agrotóxicos sobre diferentes grupos de espécies
- Brasil e outras potências agrícolas concentram a toxicidade dos agrotóxicos
- Poucas moléculas de agrotóxicos respondem pela maior parte do risco
- Distância da meta da ONU para redução dos riscos dos agrotóxicos
- Estratégias sugeridas para conter o avanço da toxicidade dos agrotóxicos
O que revela o estudo sobre os agrotóxicos
O trabalho, conduzido por pesquisadores da Universidade de Kaiserslautern-Landau, na Alemanha, verificou que o grau de toxicidade total associado ao uso de pesticidas avançou na maior parte do mundo, contrariando a meta aprovada pela 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP15). O compromisso global prevê reduzir pela metade os riscos originados por agrotóxicos até 2030, mas os resultados indicam uma tendência oposta: seis dos oito grupos biológicos avaliados enfrentam elevação anual consistente da toxicidade.
Metodologia de análise da toxicidade dos agrotóxicos
Para mensurar a dimensão do problema, a equipe alemã utilizou o indicador Toxicidade Total Aplicada (TAT). Esse parâmetro combina duas variáveis: o volume de cada produto aplicado e o perigo intrínseco de cada ingrediente ativo. O cruzamento das informações permitiu estabelecer curvas de evolução anual e comparar países, culturas agrícolas e classes químicas.
No recorte temporal de sete anos, a trajetória do TAT confirmou aumento global da toxicidade, com raras exceções. Entre as espécies analisadas, apenas plantas aquáticas (queda média de 1,7% ao ano) e vertebrados terrestres (redução de 0,5% anuais) apresentaram diminuição de risco. Humanos integram esse último grupo, o que sugere que, mesmo para a saúde pública, o declínio tem sido modesto diante do avanço observado em outras frentes.
Impacto dos agrotóxicos sobre diferentes grupos de espécies
Os maiores acréscimos anuais de toxicidade foram registrados entre artrópodes terrestres, organismos do solo e peixes. A pesquisa quantificou assim a variação média por ano:
• Artrópodes terrestres: +6,4%
• Organismos do solo: +4,6%
• Peixes: +4,4%
• Invertebrados aquáticos: +2,9%
• Polinizadores: +2,3%
• Plantas terrestres: +1,9%
Esses percentuais traduzem maior exposição de ecossistemas inteiros às misturas de compostos químicos. A situação dos polinizadores chama a atenção por seu papel estratégico na reprodução de culturas agrícolas, enquanto o dano crescente às comunidades aquáticas evidencia a capacidade dos agrotóxicos de se espalharem para além das lavouras.
Brasil e outras potências agrícolas concentram a toxicidade dos agrotóxicos
A distribuição geográfica dos riscos aponta que Brasil, China, Argentina, Estados Unidos e Ucrânia formam o grupo com a maior intensidade de toxicidade por hectare cultivado. Quando consideradas as quantidades absolutas, quatro nações – Brasil, China, Estados Unidos e Índia – respondem juntas por algo entre 53% e 68% de toda a Toxicidade Total Aplicada no mundo.
De acordo com o estudo, o destaque brasileiro decorre do peso do agronegócio em culturas de larga escala. Embora cereais e fruticultura ocupem extensões significativas, o impacto toxicológico é superior nas áreas dedicadas a soja, milho e algodão. Nessas culturas, combinações de herbicidas e inseticidas potencializam o TAT e ampliam a vulnerabilidade ambiental.
Poucas moléculas de agrotóxicos respondem pela maior parte do risco
Um resultado que chama a atenção é a forte concentração do problema: em média, apenas 20 produtos químicos são responsáveis por mais de 90% da toxicidade em cada país. As classes envolvidas variam conforme o organismo afetado, mas alguns padrões se repetem:
• Inseticidas piretroides e organofosforados: dominam o TAT de artrópodes terrestres, peixes e invertebrados aquáticos.
• Neonicotinoides, organofosforados e lactonas: lideram o TAT de polinizadores.
• Herbicidas acetamida e bipiridil: concentram mais de 80% do TAT de plantas aquáticas.
• Herbicidas acetamida, sulfonilureia e outros: definem grande parte do TAT de plantas terrestres.
• Fungicidas conazol e benzimidazol, além dos neonicotinoides no tratamento de sementes: elevam a toxicidade associada aos organismos do solo.
Produtos de larga aplicação, como acetoclor, paraquat e glifosato – integrantes dessas famílias químicas – aparecem reiteradamente ligados a preocupações ambientais e de saúde, conforme ressaltam os autores.
Distância da meta da ONU para redução dos riscos dos agrotóxicos
O estudo estendeu a análise ao desempenho temporal de 65 países, permitindo projetar quem conseguirá ou não cortar pela metade o TAT até o fim da década. Se as tendências atuais permanecerem, apenas o Chile deverá atingir a meta. Três países – China, Japão e Venezuela – caminham para reduções em todos os indicadores, porém ainda dependem de maior velocidade na mudança do padrão de uso.
Em posição oposta, Tailândia, Dinamarca, Equador e Guatemala exibem evolução negativa acentuada, com ao menos um indicador dobrando nos últimos 15 anos. Esses casos ilustram como a adoção de moléculas de maior perigo pode anular ganhos anteriores.
Os demais integrantes da amostra, incluindo o Brasil, teriam de retroceder a níveis de risco observados há mais de 15 anos. Isso exigiria alterar práticas consolidadas, tanto em volume aplicado quanto na escolha de misturas químicas.
Estratégias sugeridas para conter o avanço da toxicidade dos agrotóxicos
Conscientes da dificuldade de reverter um quadro sedimentado por décadas, os pesquisadores elencam três vias prioritárias, todas consideradas tecnicamente viáveis:
1. Substituição de pesticidas altamente tóxicos: remover gradualmente ingredientes de maior periculosidade e optar por compostos menos danosos ao ambiente e à saúde.
2. Expansão da agricultura orgânica: aumentar áreas manejadas sem química sintética, favorecendo técnicas de adubação natural e controle biológico.
3. Alternativas não químicas: incorporar manejo de pragas por inimigos naturais, diversificação de culturas e aplicação mais precisa de insumos para limitar dispersão.
Tecnologias de controle biológico, racionalização de pulverizações e adoção de rotatividade de princípios ativos aparecem como possibilidades de reduzir riscos sem comprometer a produtividade – ponto central para países que dependem economicamente de commodities agrícolas.
Com a data-limite de 2030 se aproximando, o relatório alerta que a tendência de aumento no TAT afasta a comunidade internacional do objetivo assumido na COP15 e confirma que a ameaça à biodiversidade possui alcance global.

Conteúdo Relacionado