A Biblioteca do Censor de Livros: distopia de Bothayna Al-Essa escancara o alcance global da censura literária

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“A Biblioteca do Censor de Livros” apresenta ao leitor um futuro em que o Estado controla até mesmo o gesto de imaginar. Lançado originalmente em 2019 pela escritora kuwaitiana Bothayna Al-Essa, o romance chega ao Brasil pela editora Instante, em tradução de Jemima Alves, em volume de 224 páginas vendido a R$ 79,90. A narrativa acompanha um funcionário encarregado de ler romances apenas para bani-los, mas que, contra todas as expectativas do regime, apaixona-se pelos mesmos livros que deveria destruir.
- Enredo de “A Biblioteca do Censor de Livros” revela um futuro de vigilância total
- A Biblioteca do Censor de Livros e a campanha estatal contra a imaginação
- Figura do censor: entre a obrigação de queimar e o prazer secreto pela literatura
- Bothayna Al-Essa: trajetória da autora kuwaitiana e resistência à censura
- Censura literária além da ficção: casos recentes no mundo real
- A edição brasileira de “A Biblioteca do Censor de Livros” e o diálogo com os clássicos
Enredo de “A Biblioteca do Censor de Livros” revela um futuro de vigilância total
No coração da trama, um governo autoritário institui a figura do censor profissional. Contratado para avaliar títulos suspeitos, o protagonista recebe uma condição que sintetiza a ideologia dominante: quanto mais detestar as obras, melhor executará sua função. Desde o primeiro dia, a tarefa mostra-se árdua. O primeiro volume em suas mãos é “Zorba, o Grego”, de Nikos Kazantzakis. Seduzido pelo texto, o censor renuncia à ordem oficial de incineração e esconde o exemplar no fundo de um armário, inaugurando um conflito interno que conduzirá toda a história.
A ação situa-se “em algum momento no futuro, num lugar cujo nome seria inútil mencionar”, recurso que universaliza o cenário. Nenhum personagem recebe nome próprio; todos são identificados apenas por papéis sociais, como “censor”, “esposa” ou “filha”. O resultado é um tom de fábula que convida o leitor a reconhecer, em qualquer geografia, os mecanismos descritos.
A Biblioteca do Censor de Livros e a campanha estatal contra a imaginação
Os eventos políticos que antecedem o novo regime aparecem resumidos em uma única explicação: uma revolução liderada pelo Movimento Popular do Realismo Positivista. Esse grupo concluiu que a imaginação representa ameaça direta à coesão social. A partir daí, o governo passa a estimular uma existência “na superfície das coisas”, proibindo reflexões e metáforas. Se sociedades de outros tempos buscaram construir robôs parecidos com humanos, a nova diretriz, conforme delineada pela autora, é fabricar humanos que reajam como robôs.
Para consolidar essa lógica, o Estado investe em três esferas. Primeiro, o trabalho do censor oficial, que fiscaliza qualquer tentativa de pensamento criativo. Segundo, o sistema educacional, que elimina leituras não autorizadas. Terceiro, instituições de punição: reformatórios para crianças consideradas imaginativas e, no limite, câmaras de gás para os que persistem no “desvio”. A filha do protagonista, apaixonada por ficção, torna-se alvo dessa estrutura punitiva, multiplicando a tensão dramática e demonstrando a extensão do controle estatal.
Figura do censor: entre a obrigação de queimar e o prazer secreto pela literatura
Embora encarregado de suprimir livros, o protagonista revela-se leitor ávido desde as primeiras páginas. O contato proibido com a ficção desencadeia uma jornada pessoal de descobertas. Se, durante o expediente, ele precisa redigir pareceres condenatórios, à noite refugia-se nos romances recolhidos. As obras apreendidas convertem-se em um acervo clandestino que dá nome ao livro: a biblioteca secreta criada pelo próprio censor.
A dualidade entre dever e prazer literário aprofunda os temas morais do romance. Ao mesmo tempo, evidencia a contradição fundamental de regimes que tentam controlar o imaginário coletivo: quanto mais forte a repressão, mais preciosa se torna a experiência da leitura para quem dela se aproxima.
Bothayna Al-Essa: trajetória da autora kuwaitiana e resistência à censura
A autora de “A Biblioteca do Censor de Livros” figura entre as vozes literárias mais celebradas do Kuwait. Além da carreira de romancista, Bothayna Al-Essa fundou a biblioteca e editora Takween, iniciativa dedicada à difusão de obras em língua árabe. Sua atuação ultrapassa o campo editorial: ela se tornou uma das líderes do movimento popular que lutou contra as normas de censura abolidas em seu país apenas em 2020.
Essa experiência de resistência permeia o romance. Ao retratar a perseguição ao imaginário, Bothayna mobiliza elementos observados em nações de língua árabe onde livros são vetados por suposta violação da moral pública. Um episódio citado com frequência em debates sobre liberdade de expressão é a prisão do escritor egípcio Ahmed Naji em 2016, acusado de ofensas à moral por alusões sexuais no romance “Usando a Vida”.
Censura literária além da ficção: casos recentes no mundo real
A discussão proposta por “A Biblioteca do Censor de Livros” ganha eco em dados contemporâneos. Segundo levantamento da associação de escritores PEN, 3.752 títulos foram banidos de escolas públicas dos Estados Unidos no último ano letivo. Entre eles figuram obras como “Laranja Mecânica” e “Wicked”. No Brasil, iniciativas semelhantes surgiram: escolas públicas do sul do país tentaram retirar de circulação “O Avesso da Pele”, de Jeferson Tenório. Esses números demonstram que o aparato censor descrito na obra, embora amplificado pela ficção, possui correspondentes concretos.
Na prática, a proibição dirige-se a conteúdos que abordam temas considerados polêmicos — violência, questões raciais, sexualidade — ou que simplesmente oferecem leitura crítica da realidade. O romance de Bothayna utiliza um futuro indefinido para sublinhar que o cerceamento do pensamento não se restringe a determinada cultura ou período histórico.
A edição brasileira de “A Biblioteca do Censor de Livros” e o diálogo com os clássicos
No Brasil, a obra aporta em versão da tradutora Jemima Alves. A iniciativa proporciona ao público lusófono acesso integral ao texto que, no original árabe, carrega título que poderia ser vertido como “O Guardião da Superfície do Mundo”. A mudança de nome na edição brasileira reforça a imagem da coleção secreta do protagonista e esclarece de imediato a premissa da história.
Bothayna recorre a referências literárias para reforçar sua mensagem. No posfácio, explica que busca dialogar com clássicos universais. Ao longo do enredo, surgem alusões a “Alice no País das Maravilhas”, “Chapeuzinho Vermelho”, “Pinóquio” e a abertura de “A Metamorfose”, de Franz Kafka. O conjunto serve de ponto de partida para questionar o valor simbólico atribuído a esses textos. Ao evocar narrativas amplamente conhecidas, a autora provoca reflexão sobre o espaço da literatura árabe no cânone global, ainda majoritariamente dominado por obras ocidentais.
O uso de referências familiares facilita o reconhecimento do leitor e reforça o contraste entre o universo controlado pelo Estado fictício e o potencial infinito da imaginação humana, conceito central do livro. Dessa forma, a edição em língua portuguesa mantém o projeto de Bothayna de defender a literatura como instrumento de libertação.
Combinando enredo sobre um censor que se apaixona pelos livros que deveria destruir, panorama histórico de repressão e exemplos atuais de proibição de obras, “A Biblioteca do Censor de Livros” convida o público brasileiro a observar, em cada página, a tênue fronteira entre realidade e ficção e a permanência do debate sobre liberdade de criação em escala mundial.

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